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A História através da Arte: Serviço de Apoio Ambulatório Local, no Museu Municipal de Tavira
DATA
23 Jul 2025
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AUTOR
Ana Isabel Soares
Inaugurada no passado dia 24 de maio na Ermida de São Roque, a exposição é composta por quatro obras de outros tantos artistas, que procuraram, através destas, “dialogar colaborativamente, de modo a incluir e homenagear, com as comunidades residentes” (palavras do curador, Hugo Dinis, na folha de sala) nos bairros SAAL da zona: “1º de Maio”, na cidade de Tavira, e “Amigos Unidos de Cabanas”, em Cabanas de Tavira.
Cumpriu-se, em julho de 2024, meio século da implementação do Serviço de Apoio Ambulatório Local, que viria a ser conhecido como “Operações SAAL”. Consistiu num programa oficial, emanado durante o PREC pela Secretaria de Estado da Habitação e Urbanismo, era Secretário de Estado Nuno Portas, e durou dois anos e meio. Os objetivos do SAAL, apresentados por Nuno Teotónio Pereira três meses depois do 25 de Abril, enquadravam uma das principais preocupações da sociedade portuguesa no pós-revolução: como alojar cerca de um quarto da população, que se concentrava em “aglomerações periféricas de habitações precárias”1. Numa das canções de À Queima-Roupa, álbum de 1974, Sérgio Godinho proclamava que “só há liberdade a sério” quando houver para todos, igualmente, “a paz, o pão, habitação, saúde e educação”. Foi com o nobre intuito de garantir habitação condigna aos portugueses, muitos dos quais viviam em barracas sem condições, que se imaginou o SAAL. Apesar de breve, o processo SAAL, que fez articular com tamanho sucesso o poder central e o poder popular, deixou marcas sociais positivas e uma paisagem urbanística alterada por todo o país. Deixou, igualmente, um legado cultural indelével, concretizado em filmes como Continuar a Viver – Os Índios da Meia-Praia (António da Cunha Telles, 1976), Elogio ao ½, de Pedro Sena Nunes (2006), e As Operações SAAL (João Pedro Dias, 2007), ou na canção “Os Índios da Meia-Praia”, que José Afonso compôs para o filme de Cunha Telles (terminado já depois do fim do SAAL), ou ainda na melodia que José Eduardo criou, inspirado na de Zeca Afonso (editada no CD A Jazzar no Cinema Português, que o Cineclube de Faro produziu em 2002). A exposição “Serviço de Apoio Ambulatório Local”, que agora pode ser visitada em Tavira, constitui prova de vida deste legado.
Inaugurada no passado dia 24 de maio na Ermida de São Roque, a exposição é composta por quatro obras de outros tantos artistas, que procuraram, através destas, “dialogar colaborativamente, de modo a incluir e homenagear, com as comunidades residentes” (palavras do curador, Hugo Dinis, na folha de sala) nos bairros SAAL da zona: “1º de Maio”, na cidade de Tavira, e “Amigos Unidos de Cabanas”, em Cabanas de Tavira. O vocabulário da apresentação é, pois, herdeiro do espírito colaborativo das próprias operações, assim como é a relevância atribuída às populações. Mas o que dizem as obras/instalações de Nuno Nunes-Ferreira, Susana Mendes Silva, Ângela Ferreira e Ana Vidigal a quem, independentemente de ter sido beneficiário (direto ou indireto) do SAAL, visite a exposição?
Desde logo, a escolha de três artistas mulheres ajuda a sublinhar para a História o papel fundamental destas nos processos democráticos2. A instalação de Nuno Nunes-Ferreira (n. 1976) encontra-se à entrada para o espaço expositivo – encerrada a porta principal da Ermida, o acesso faz-se pela traseira, onde, sobre uma mesa na antessala, se disponibiliza para consulta uma série de livros dedicados ao estudo do SAAL: Nunes-Ferreira estabelece uma ponte entre o material bibliográfico que antecede a entrada na exposição e a exposição propriamente dita, quando instala seis torres de jornais da época, onde se leem artigos relativos às operações SAAL. Alinhadas e inamovíveis (sugerem-no os pesos que têm a encimá-las), podem ser entendidas como o altar da História, as colunas sobre as quais se ergue o edifício da memória histórica, feito tanto das notícias do dia como dos seus amarelecidos vestígios. No extremo oposto da ermida, a toda a altura da porta principal e servindo-lhe de cortina, vê-se O Cortinado, peça de Ana Vidigal (n. 1960) que faz articular a visualidade de uma banda desenhada (francesa), ao estilo dos anos 50, com a contemporaneidade do suporte de “tecido bandeira” com impressão digital. A imagem da banda desenhada aparece só parcialmente, pois a impressão capta o próprio gesto de recolher o cortinado, impedindo o estatismo da leitura e, assim, mimetizado o efeito apagador/revelador do vento da História (para citar a metáfora de um certo anjo que Paul Klee desenhou e Walter Benjamin soube ler).
O ambiente de Serviço de Apoio Ambulatório Local é, pois, balizado por uma peça que trata a ideia de limiar do que se vê ou deixa de se ver, e por outra, que transforma na fixidez de seis colunas o quotidiano das notícias. Entre estes marcos de leitura, Ângela Ferreira (n. 1958) exibe um andor – ajustado à religiosidade do local –, volume em madeira e cartão a replicar uma moradia, referente aos construtores/moradores de Cabanas de Tavira e que remete para a mobilidade das habitações construídas em alguns bairros do SAAL – trazendo à memória as imagens dos “Índios da Meia-Praia” que Cunha Telles filmou a carregar uma casa literalmente em braços pela areia fora (o carácter “ambulatório” do SAAL, aliás, além de significar um processo sem sede fixa, descentralizado, está presente nesta peça). A instalação de Susana Mendes Silva (n. 1972) dialoga da mesma forma feliz com as restantes peças e com a ermida. Talvez esta seja a obra que mais claramente revela o fulcro conceptual da força popular feminina na especificidade do programa SAAL no Algarve: nesta região, foram em grande parte mulheres que carregaram – à cabeça, entre os braços – tijolos para erguer as paredes das casas que iriam habitar (os homens, afinal, andavam na faina), evidenciando a ideia de autoconstrução que, num novo paradigma, de baixo para cima, sustentava o SAAL. Trata-se de uma obra tripartida: um conjunto de tijolos dispostos em forma de muro em construção (que a banda sonora, segundo elemento, confirma), sobre o qual se projeta o terceiro elemento, imagens que extravasam para lá do muro, invadindo as paredes altas de São Roque e assumindo contornos semelhantes aos dos vestígios dos frescos decorativos da ermida. As imagens fotográficas projetadas são de “mulheres e crianças”, as protagonistas míticas da canção de Zeca Afonso e símbolo, afinal, da força popular que deu sentido e forma ao SAAL, sobretudo no Algarve.
A exposição está patente na Ermida de São Roque – Museu Municipal de Tavira até dia 20 de setembro.

1Bandeirinha, José António (2007). O Processo SAAL e a Arquitectura no 25 de Abril de 1974. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 13.
2 No arranque do SAAL, Maria Proença coordenou os contactos iniciais com as populações e os municípios. Margarida Duque Vieira, Margarida Coelho e Bárbara Lopes foram outras figuras relevantes no processo.
BIOGRAFIA
Ana Isabel Soares (n. 1970) é doutorada em Teoria da Literatura (FLULisboa, 2003) e ensina desde 1996 na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (UAlgarve). Integrou a equipa de fundadores da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento. Interessa-se por literatura, por artes plásticas e por cinema. Escreve, traduz e publica em revistas portuguesas e internacionais. É membro do Centro de Investigação em Artes e Comunicação.
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