Escreveu Fernando Calderón Quindós, em Filosofía Vegetal, a propósito da observação dos fenómenos da natureza à volta dos botânicos e demais cientistas de Setecentos, que “da habilidade manual, da delicadeza nos gestos, depende em grande medida o êxito da observação” (2018, p. 27). O pensador espanhol tecia considerações acerca da História Natural, da sua relação com a Filosofia e com as alterações da linguagem, da dependência mútua entre a ciência dos fenómenos humanos e dos restantes acontecimentos naturais. A vontade de conhecer as plantas sempre tem movido filósofos, poetas e artistas, e Calderón Quindós convoca desde Aristóteles até Diderot, de Daniel Defoe a Jeanne Baret para pensar sobre árvores e flores e as suas múltiplas representações científicas – na terminologia, em desenhos naturalistas, ou em herbários. Perto do final do seu A Charca, Manuel Bívar sintetiza este pensamento, centrando-se no gesto de olhar e no objeto vegetal: “É preciso certa contenção para olhar intensamente. Isso é o jardim, uma espécie de precursor do método científico” (p. 107).
Habilidade e delicadeza de gestos, uma observação de olhar contido e intenso são qualidades que transparecem da exposição Uma Árvore, de Daniel Moreira (DM) e Rita Castro Neves (RCN). A árvore em causa é uma alfarrobeira fixada no chão do sotavento algarvio há vários séculos, que a dupla de artistas observou, nomeou e procurou representar ao longo de três anos. O tempo é dos temas que mais ocupam o pensamento humano, e esta exposição declina-o de um modo particularmente vivo e complexo: se a relação de DM e RCN com aquela árvore em particular se prolongou por um triénio, esse período é reduzido em relação ao tempo de vida da alfarrobeira; por seu lado, a exposição que se mostra em Tavira é visitável (ou seja, os seus objetos e artefactos dispostos de uma maneira particular, assim determinada pelos artistas e pela curadora, Ana Anacleto) durante cerca de três meses, substancial redução do arco temporal do processo da sua preparação. O que se revela nesta exposição, então, não é apenas o habitual conjunto de obras, objetos expositivos, ou técnicas artísticas – é igualmente a necessidade e a possibilidade de aceitar (e a predisposição para o fazer), na apreciação da arte, ideias sobre a restrição do que se observa. É a árvore que impõe esta negociação, pois é ela o elemento que, constituindo-se essencialmente de um tempo que se recusa a condensar, permite deixar ver lampejos dessa constituição. Ana Anacleto di-lo na folha de sala, transferindo o foco para o espaço, categoria indissociável do tempo: “devido ao seu posicionamento (não se deslocam sobre o território, mas estão fixadas nele), as plantas – e, em particular, as árvores – desenvolveram uma habilidade superior para reconhecer, com enorme antecedência, alterações mínimas no seu ambiente”.
Os artistas perceberam isso mesmo e procuraram traduzi-lo, por exemplo, ao exibir, em paralelo com fragmentos e imagens da árvore propriamente dita, vestígios de um ecossistema que a tem acompanhado ao longo da sua existência: na sala inicial, quatro vitrines (construídas para o efeito por DM e RCN) guardam pedacinhos de cerâmica e faiança, fragmentos de peças em olaria, recolhidos na terra em volta da árvore, no lugar da Quinta da Parra (Moncarapacho), dispostos como se se vissem numa exposição de arqueologia. A propósito da arqueologia do lugar é o título que deram ao conjunto destas peças, que descrevem como “elementos respigados e pedaços de cerâmica”, e a partir dos quais propõem leituras do território social da ruralidade – como a história que os cacos contam acerca de mulheres e homens que se deslocavam entre regiões (sobretudo, do Alentejo para o Algarve) para a época das colheitas e que levavam consigo pratos para as refeições que comiam no campo que trabalhavam. Olhar uma árvore não é só olhar para uma árvore, e o fascínio pelas narrativas que a árvore desvela é motor do trabalho de RCN e DM. “Nós não sabíamos isto,” ouvi-lhes numa das visitas guiadas à exposição: mais do que uma confissão ou um lamento, a frase é como um princípio metodológico da exposição: observar é também descobrir aquilo que jamais se consegue condensar ou conhecer.
O mesmo impulso de conhecimento e de representação de que falava Calderón Quindós preside ao labor artístico de Uma Árvore, mas o resultado não é um verbete científico sobre uma planta (mesmo se uma das peças na exposição, precisamente, “tempo”, inclui a impressão de um “corte histológico tangencial de ramo da Alfarrobeira da Quinta da Parra”): é a construção de um universo que luta contra a inapreensibilidade do tempo; é a tentativa de dar a ver como foi o processo de observação, de testemunhar um tempo em arestas construídas para diante dele, para o seu futuro. Se é impossível ver como era esta alfarrobeira em 1680, constrói-se um paralelepípedo vão que, rompendo a parede, atravessa duas salas contíguas: derruba-se simbolicamente a fronteira entre duas dimensões, como se atravessar o espaço permitisse atravessar tempos diferentes: de um lado, desenha-se a árvore; do outro, expõe-se um dos seus frutos, confundindo-se invenção e apontamento, domínio do tempo e nostalgia pela sua perda. O que se procura não é um registo etnográfico – mas a etnografia integra o processo artístico e exibem-se tanto a vara utilizada no varejo da árvore, como uma saca de serapilheira que faz parte do espólio do Museu Municipal. Um e outro artefacto coabitam com peças construídas pelos artistas, seja em desenhos seja em escultura de objets trouvés: uma pequena pá, um vasculho, uma Vénus antiga, um par de olhos que são duas caracoletas. Olhar não é só observar, mas inventar com o que existe. É aceitar a seiva criadora que a árvore anima. “As pontas dos dedos são também os olhos do observador”, escreveu Calderón Quindós (2018, p. 27), mas poderiam tê-lo dito os dois artistas de Uma Árvore, pois também eles afirmam que “abraçar a especulação e o espanto faz parte (…) dos modos de fazer aberto que desejamos perseguir” (2025, p. 36).
Há uma indesmentível dimensão ética nesta convivência entre espanto e especulação, na observação desta alfarrobeira. Não é despiciendo o facto de se tratar de uma árvore do pomar de sequeiro, espécie que não pede mais do que atenção: estar perto dela em estações diferentes do ano, em anos diferentes; em distintos momentos do dia (veja-se o trabalho das caixas de luz nas belíssimas fotografias e vídeos); regressar; tocar a árvore, desenhá-la, recolher dela e de perto dela excertos do ambiente que habita, de que se alimenta e que gera.
A exposição procede constantemente por movimentos de dilatação e condensação temporal. O tempo dilata-se nos três anos de observação, na duração secular da árvore, na história indeterminada dos objetos encontrados no solo; condensa-se num desenho, numa fotografia, num corte de madeira, numa semente, num fruto. Nos desenhos dos catos que servem de vedação natural da alfarrobeira (traços a tinta-da-china sobre papel de arroz), à entrada da exposição, anuncia-se a presença da árvore. DM e RCN afirmaram (sobre o projeto anterior) que “as coisas, as matérias, têm presença efectiva no nosso trabalho. (...) A rugosidade de uma pedra, a rapidez da água, a leveza de um pau, a permanência do cheiro da giesta numa sala, são aprendizagens (ou atenções demoradas?) necessárias quando queremos trabalhar com elas. (…) É como um infratrabalho” (2025, p. 37), um trabalho que antecede o momento da decisão criativa, como a visão dos catos antecede a aparição da alfarrobeira, ou a sua fixação no momento da exposição – esta há de desaparecer, sumida no calendário de uma galeria; a alfarrobeira prosseguirá a sua existência, mesmo se invisível para quem cria e para quem visite a exposição. Também a arte prossegue.
Uma Árvore confirma a vocação do Palácio da Galeria para uma programação continuada de arte contemporânea (que se viu, por exemplo, na exposição de Gabriela Albergaria, em 2022). Assim possa a Câmara Municipal de Tavira persistir neste caminho e optar por outros espaços para mostras de outro tipo, igualmente de interesse maior, mas que se desviam do propósito de formar públicos para a arte contemporânea.
A exposição Uma Árvore pode ser visitada até 24 de outubro de 2026.
Referências:
Manuel Bívar (2021). A Charca. Lisboa: Língua Morta.
Daniel Moreira e Rita Castro Neves (2025). Faca na Pedra Olho Solar. Lisboa: Documenta | Sistema Solar.
Fernando Calderón Quindós (2018). Filosofía Vegetal: Cuatro estúdios sobre Filosofía e Historia Natural. Madrid: Abada editores.