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A Meta-Crítica em Erva, Fio e Pedra: entre o verde brilhante e o sublime, ironias de Patrícia Geraldes
DATA
15 Abr 2026
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AUTOR
Inês Ferreira-Norman
Conseguem os ecologistas fazer piadas sobre o estado do planeta? Conseguem os artistas gozar com eles próprios? Com certeza que sim, a questão coloca-se é no contexto da sua produção científica e artística: será que a ecoarte tem um sentido de autocrítica que eleve o astral?
A exposição Erva, Fio e Pedra, de Patrícia Geraldes, no Project Room da Galeria Nuno Centeno, patente até 25 de abril, não nos suscita uma sensação humorística ou irónica em primeira observação, todavia, em experienciação e análise, a conversa é outra. A primeira obra a experienciar quando entramos na antecâmara da gruta são as esculturas Plantas Medicinais (2026). Compostas por uma prática doméstica do aproveitar, as ervas medicinais que fortemente cheiramos na presença destes totens simpáticos, estiveram um dia dentro de uma saqueta de chá. No entanto, Patrícia inspira-se pela ‘formalidade que a materialidade lhe traz’1, e se é na cozinha que os sacos de chá se desmoronam, são através de moldes com formas familiares que os ancestrais de Patrícia se montam nesta composição escultórica. Sim, porque foram os seus antepassados que lhe ensinaram as práticas que hoje em dia se consideram ecológicas, mas que outrora eram simplesmente comuns, por terem espírito comunitário. O capitalismo trouxe-nos o consumo linear, e as esculturas de Plantas Medicinais rejeitam – ainda que na verticalidade inerente a um totem - o aspeto liso que o individualismo neoliberal nos injeta. São esculturas que para além de olfativas, nos incitam a viajar por narrativas tribais, quiçá até Willendorf e ao Paleolítico Superior, ou até a estórias de monstrinhos decorados por padrões toscamente geométricos, mas que convocam a função de um totem: uma heráldica fantasiada de linhagem ecologista, os guardiães da sala da gruta anunciam a continuidade da obra de Geraldes.
Quando olhamos para a gruta, à direita, o choque é palpável. Um verde brilhante, pervasivo, quase florescente, leva-nos a sítios bem distantes dos antepassados. Será que estamos dentro do código do Matrix? Será que estamos numa floresta artificial de algas bioluminescentes? Ou será que estamos numa festa de um grupo de estudo de mercado sustentável? Esta luz reduz a obra a um só plano, e a natureza imperfeita das peças artesanais é forçada a parecer um produto num catálogo eco-friendly, liso, perfeito, consumível. E é aqui que a ironia morde pois não é possível fazer greenwashing de algo que não comporta washing.
O verde brilhante - termo cunhado por Alex Steffen - já descreve há mais de 20 anos na esfera do consumidor comportamental, uma secção da sociedade que acredita que a revolução ecológica se irá dar através da aplicação de alta tecnologia. Sem impor travões ao consumismo e um modo de vida concentrado nas cidades por questões energéticas, contrasta com o verde-escuro, ou profundo (do inglês deep), que esposa uma visão mais tradicional e conservacionista da natureza, que implica a valorização do território rural através da dedicação humana à sua manutenção e proteção. A obra Erva, Fio e Pedra (2026) remonta exatamente para esta tensão. A tensão entre o mundo liso (Byung Chul Han) e o atrito da realidade, é exposto através do contraste entre esta luz verde brilhante que incide sobre 45 filamentos pendurados dinamicamente por toda a sala, compostos por centenas de peças que se assemelham a folhas lanceoladas (ou malaguetas também) feitas de porcelana.
Patrícia Geraldes viveu uma boa temporada em Goa, pois trabalhou com o Sunaparanta Centre for the Arts em várias residências artísticas. Durante esse tempo, o que me descreveu como uma ‘fobia ao vazio’ impressionou-a na cultura indiana. Na realidade, aquilo que na cultura ocidental se interpreta como maximalismo, na cultura indiana está associado a um sentimento de conexão holística com o cosmos, uma certa plenitude (Purnata). A ausência de decoração, é vista como falta de vitalidade e consequentemente de auspiciosidade (Mangala). Decorações como grinaldas de pétalas cozidas são abundantes na cultura indiana (as malas), em particular como oferendas aos deuses, e a ‘floresta artificial’ que Geraldes construiu com peças de porcelana processou-se com a mesma devoção cosmológica: a da perda da noção do tempo que se entremeia com a sensação de trabalhar o material. Diz Joana Mendonça na folha de sala: “O que provoca os dedos inchados e a pele ressequida por amassar a cerâmica com as próprias mãos é um desejo de construir a obra única, de autoria poética, como se só aquelas mãos soubessem aquele fazer: não falamos apenas de um gesto criativo, construtor, mas antes de um gesto político, em que o lado subversivo da obra é um desejo por uma forma de vida autossuficiente, independente, solitária. E em que o ato de criar é também um ato de cuidar pela ancestralidade.”2
Nos sacos de chá, na alegria das pessoas, está o lado verde-claro da prática de Geraldes. Nas rugas da porcelana, na secura da pele, está o verde-profundo transversal na sua obra. As centenas de folhas lanceoladas cozidas uma-a-uma da instalação Erva, Fio e Pedra incorporam o carácter escarpado que Byung-Chul Han diz faltar na sociedade globalizada do presente. É sabido que Geraldes trabalha entre Porto e Trás-os-Montes, porém, Trás-os-Montes é mais do que o sítio onde trabalha, é também o sítio que carrega nas mãos. O moldar as folhas lanceoladas provém de um residir alongado no território rural, comunitário, que lhe permite observar como é que diariamente – ou em grupos de dias – tais peças de porcelana se assemelhavam umas às outras, como se de um diário material se tratasse. É sim um gesto político, como Joana descreve, porque cuidar da ancestralidade, do material, exige um contacto com o acidente, com a imperfeição, com tudo aquilo que não é o liso. Han define o sublime como as forças da natureza que nos assoberbam, mas não necessariamente positivamente. É na diferença entre as formas da força natural (uma montanha, uma tempestade) e a sua informidade (com foco na potência destrutiva que nos assoberba) que o sublime reside, e não na harmonia positiva ou reconfortante. Han associa a rejeição da negatividade do sublime à sanitização da natureza.3
Não esquecer que os humanos também são natureza, e consequentemente, o alisamento estético aplica-se às pessoas: um mundo, uma visão em que não se quer destoar, dizemos que sim à criação da normalização. A visão índica, no entanto, assume uma complexidade rica, cheia de cor e atrito, que podemos ver não só em manifestações artísticas, mas na sua própria mitologia e literatura4. A dedicação à complexidade profunda, à repetição laboriosa, sugere uma predisposição à concretização do sublime de Han, através de um certo hipnotismo do vagar, em que a elaboração de linhas longas, como as malas de Patrícia Geraldes, acaba por nos ligar ao divino negativo, o divino da resistência. Para Han, a perda do sublime (a diferença entre o liso e o atrito) é uma catástrofe espiritual, pois só em confronto com o verdadeiro abismo saímos do nosso ego. É a resistência (a negatividade) do objeto que prova que ele é real e independente de nós. Sem o atrito, não há crescimento, nem expansão do eu.
E então, este discurso, algo pesado (falo do abismo e de forma torneada da nossa desconexão com a natureza) e claramente dentro da categoria verde-escuro na fronteira com o Doomistão - que é salvo com a redenção do ego, todavia-, é exatamente algo que Patrícia Geraldes ironiza também com a iluminação verde-brilhante sobre os lanceolados de porcelana. O verde artificial da iluminação intensifica o maximalismo da instalação: é como uma superfície plana a interagir com uma rogosa, e nesse atrito, confere-se o aspeto sublime de Han. Na instalação de Geraldes, a luz verde brilhante, ou seja, o liso, o normalizador, transforma uma experiência que os sentidos (exceto a visão) sinalizam como multidimensional numa experiência de dissonância cognitiva, em que só o embalo e o ocasional tintilar das algas daquela floresta marinha, denunciavam que não se tratava de um ecrã.
Uma coisa está estudada, que usar linguagem doomista5 em contexto de colapso ecológico (note-se o gracejo jocoso), é contraproducente à eficácia da mensagem e à mobilização coletiva, afirma Per Espen Stoknes, um psicólogo e economista norueguês. Dedicou-se a estudar “se os humanos estão à altura da tarefa (alterações climáticas), ou se somos inevitavelmente pensadores a curto-prazo?”6 e focou-se na linguagem usada para descrever, falar, discutir as alterações climáticas, o nosso meio ambiente, a natureza. Mas é com uma ode irónica a uma certa superioridade intelectual - tão conhecida no meio artístico e nas linguagens que utiliza -, que Geraldes pretende cortinar o seu trabalho com o verde-brilhante, cor que associa ao capitalismo. A crítica reside no oportunismo artístico, no greenwashing, e em práticas artísticas que contribuem para o alisamento da fricção.
E este texto, para que contribui? Escrevo neste tom académico meio rouco, que tenta ser exato e profundo, mas também acessível e honesto, e acredito em pensar a ansiedade climática entre o peso do discurso e a necessidade da leveza, de uma piada. A questão é se conseguirei criar atrito suficiente neste texto para concretizar a auto e meta-crítica.
Patrícia artifica modos culturais e os materiais regem as suas preocupações temporais, executando-as como um mantra plástico. Na montagem da exposição há mais uma ironia final – e poética – e encontra-se na relação entre as duas obras. Confluindo e adicionando ao pensamento de Joana Mendonça, enquanto que em Plantas Medicinais, “através da acumulação d[e] recursos’" que seriam um desperdício alimentar, “a artista projeta abundância”7, em Erva, Fio e Pedra, é não só a materialidade e a forma que lhe conferem essa característica, mas também a sua fundação conceptual nos princípios de Mangala e Purnata (prosperidade e plenitude parecem-me bons sinónimos de abundância). Mais ainda, Plantas Medicinais tem uma profundidade algo cerimonial, aludindo às esculturas a figurinos dos nossos antepassados, pelo que a profundidade de ambas as obras se verifica. É na utilização do verde brilhante como força alisante, em Erva, Fio e Pedra, que se verifica que no seu conjunto se torna o elemento de atrito, diferenciador. Diferenciador, porque utiliza a meta-critica como expressão e se coloca no discurso ecoartístico da esfera do Bad Environmentalism (Mau Ambientalismo). Termo cunhado por Nicola Seymour, implica o uso de formas alternativas de expressão artística (com foco maioritário nas artes performativas) como o humor, a ironia, o absurdismo para abordar temas ecológicos. Com uma prática processual tão importante quanto o objeto artístico, Patrícia Geraldes encontrou na ironia o sublime no seu trabalho, um sublime que torna a obra tão real.
Tão real como a resistência que o mundo exige ao ecocídio... Ah, perdão!... Parafraseando para fugir à armadilha doomista: tão real como a imaginação necessária para reimaginar a nossa existência. Mas não haverá aqui uma contradição filosófica? Tornar a linguagem positiva não será, afinal, remover o atrito? Se seguirmos a lógica de Han até às últimas consequências, o doomismo, com todo o seu peso negativo, poderia ser a via para sublimar a nossa perceção do problema e crescer interiormente. Ao suavizar a mensagem para a tornar inteligível, estaremos nós a alisarmo-nos em verde brilhante? Ou será que nós humanos não temos mesmo a capacidade de lidar com hiperobjetos desta envergadura?
A exposição pode ser visitada na Galeria Nuno Centeno até dia 25 de abril.


1 Ferreira-Norman, I. (2026), Entrevista oral a Patrícia Geraldes, 18 de março 2026, Porto.
2 Mendonça, J. (2026), Folha de Sala da Exposição Erva, Fio e Pedra, Galeria Nuno Centeno, Porto..
3 Han, B.-C. (2018), Saving Beauty, Polity Press, Cambridge / Han, B.-C. (2020), The Disappearance of Rituals, Polity Press, Cambridge
4 Imagino que haja aspetos contemporâneos da cultura índica que se manifestem em normalização, em minimalismo, mas não é o caso nem artisticamente, nem na sua fundação cultural.
5 ‘Doom’ é uma palavra inglesa que significa ‘condenação, ruína, ir ao encontro da morte’ e é utilizada muitas vezes para descrever a moral dos ambientalistas, cientistas que preconização a ação para resolver os problemas das alterações climáticas.
6 https://e360.yale.edu/features/how_can_we_make_people_care_about_climate_change
7 Mendonça, J. (2026), Folha de Sala da Exposição Erva, Fio e Pedra, Galeria Nuno Centeno, Porto
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