O amontoado de jornalistas, ansiosos por receber Leibovitz, dá o mote e o tom da mostra de uma obra espectacular, barroca, luxuosa, no tratamento que as imagens apresentam, e na grandiosidade iconográfica que lhes é característica. Todavia, o critério expositivo gera uma tensão, em parte irresolúvel, daí instigante, com os moldes fotográficos desta obra. Se a fotografia é luxuosa, pelo virtuosismo técnico inegável, as salas da fundação desdobram-se como se se tratasse, afinal, de uma exposição do estúdio, o lugar onde acontecem determinados fenómenos alquímicos de criação artística, espaço da obra inacabada, normalmente invisível aos olhos do espectador. O gesto é ousado e não pode ser tomado por uma forma de negligência curatorial, não obstante ser nosso dever referir que as vitrines de acrílico comprometem, na maioria dos casos em que essa opção expositiva é tomada, a visualização plena das fotografias. Será que o intuíto de Leibovitz foi o de devolver ao espectador a sua própria imagem reflectida? Revelando, afinal, o efeito indagador, de recuo, que a arte opera nos seus admiradores? Terá uma tal forma de expor obedecido à vontade de remeter para o plano fundamental do acto de olhar uma imagem: a saber, o de nos situarmos a uma distância de nós mesmos, simultaneamente declarando o nosso lugar no mundo, dessa feita conscientemente singularizado? São questões que ficam no ar, igualmente contribuindo para uma reflexão diferenciada de Wonderland.
O enfoque da exposição é, naturalmente atendendo à agenda da própria fundação, a fotografia de moda de Leibovitz - muitas das fotografias expostas foram captadas para revistas como a Vogue e a Vanity Fair -, não obstante o primeiro trabalho exposto ser o de um grande painel composto por centenas de fotografias, a preto e branco, que a fotógrafa americana tirou ao longo de uma tour, no ano de 1975, da banda londrina Rolling Stones. Trata-se de uma primeira forma de olhar, em que a fotógrafa, de uma forma mais espontânea -impossivelmente investida numa montagem pré-fotográfica, jogando na contingência electrizante dos concertos e na suspensão lúdica do backstage - não havia declinado a realidade a um estilo que viria a ser o seu, e que se pautará por uma monumentalização a toda a escala. Isto é, independentemente da dimensão final da fotografia, todos os trabalhos expostos, em Wonderland, apresentam-se num tom grandiloquente, monumental, investindo as imagens de uma dimensão intemporal coincidente com um potencial mitológico. O espectador atento será posto à prova pela tentação da narrativa, ao mesmo tempo que se vê retido no inebriamento plástico das imagens. Apresenta-se, com efeito, uma obra dividida em dois tempos fundamentais: aquele que se lança para o futuro da transmissão, pela narrativa, e outro que só poderá dizer respeito à experiência singularíssima que o espectador faz das e com as fotografias. Não deixa de ser curioso o espanto gerado por algumas imagens, por mostrarem personalidades célebres do mundo das artes e da cultura, a cuja imagem estamos habituados, aqui surgindo sob uma luz diversa, desempenhando um papel outro relativamente àquele em que os encaixámos, arredados que estamos dessas figuras por uma distância necessariamente potenciadora de ficções. Assim, pela montagem cénica de narrativas, de quadros pictóricos fabulosos, Annie Leibovitz expõe-nos à tendência fundamental no ser humano de arrumar esta e aquela figuras segundo uma determinada gramática, por vezes, mais rígida do que gostaríamos de supor. A gramática das narrativas morais. Não nos esqueçamos do terror inerente a esses contos populares e fantásticos, a que, de um modo ou precipitado ou perverso, designamos contos infantis - de Hans Christian Andersen a Lewis Carroll. Ora, a moda e a fotografia coincidem no propósito de experimentar peles que, não sendo novas, estando aí no mundo para serem extraídas, tudo dependendo de um olhar mais ensimesmado do que julgador, surpreendem por irem dar a lugares e formas familiares, mas jamais atentadas. O plano mitificador da infância, enquanto desfile imenso de peles várias, alia-se ao imperativo ético de tomar uma e outra figuras, e de assumi-lo, enquanto resultado da nossa disponibilidade de olhar, bem como de não nos reconhecermos invariavelmente enquanto território fundador, antes fronteira movediça entre um e outro figurino, entre uma e outra história fantástica, entre a boneca de carne e osso e a mulher, o homem ou a criança espectrais.
Wonderland, de resto como o próprio título indica, é a entrada para um lugar sem perímetro definido. É o lugar antes de ser território. É, assim, o inacabado como primeira matéria-prima da arte e, paradoxalmente, do desejo de caber noutra pele. É muito mais uma exposição sobre a consciência de estar diante de figuras, às quais apor o termo o outro é ja umá forma tirânica de dizer eu. A fotografia - enquanto forma artística de reinvenção do próprio, modo de estreitar lonjuras ou de tratá-las atendendo a uma tal distância, sem a desvirtuar - serve uma premissa estética e ética, evidente nesta exposição: a saber, a consciência de que não há forma criativa, verdadeiramente livre, de dizer outro fazendo-lhe anteceder um artigo definido.
Questionámos Leibovitz acerca da conjugação do absurdo e do onírico enquanto princípio estético regente nas suas fotografias, e da consequente impressão de distância, como se as suas imagens nos chegassem de um tempo longínquo, por vezes dando a sensação de que ruinosa é a realidade presente, que habitamos, e não presumíveis fragmentos fotográficos vindos de um passado. Sintetizámos a nossa pergunta pedindo que a fotógrafa nos esclarecesse a respeito da importância da mitologia no seu trabalho. A resposta conciliou curiosamente História e histórias, isto é, a realidade narrada e as narrativas que compõem essa realidade: “I love History and I love stories”, afirmando que carrega em si uma enciclopédia. A sua obra, situa, assim, o lugar da impossível inocência, da soma de aprendizagens a serem, de forma mais ou menos criativa, combinadas, integradas. Talvez o grande êxito de um artista seja o de, por fim, recusar ceder à inscrição de uma conjunção entre os termos História e histórias, assumindo-as enquanto partes componentes de um contínuo irredutível a dialécticas.
Se as fotografias, fora de qualquer moldura, pregadas por pioneses, parecem inscrever a exposição enquanto rascunho da exposição, uma tal forma de expor emerge mais enquanto potenciador de tensões, do que como critério curatorial evidente. A menorização do tom solene das imagens, não sendo claro tratar-se de um princípio irónico de montagem, resulta num apelo ao espectador, para que participe na exposição sem a explicar, para que leia as imagens sem nelas procurar ensinamentos ou moralidades fabulosas. Talvez os grandes monumentos sejam, afinal, grandes dilemas. Não escolhemos deitar-nos à sombra de um símbolo. A sombra de um símbolo é um lugar de terror. A pedra fria contra a carne quente, isso sim, uma bela história, provisória e deformável, isto é, plástica, elegível, a fazer sombra ao sol, sem que haja descanso, num porto belo, com essa beleza dos lugares inóspitos, aos quais sabemos não poder pertencer, nos quais estaremos sempre de passagem. Frente ao mar ou ao rio. Doce ou salgado. Quem saberá? Quem se atrever a provar a maça, antãs mesmo que a despeça a árvore.
A exposição Wonderland, de Annie Leibovitz, pode ser visitada na Fundação Marta Ortega Pérez (Fundação MOP) até 1 de maio de 2026.