A arte contemporânea tem as suas palavras de estimação. Usadas até ao desgaste. Liberdade é uma delas. Acaso também. Surgem em textos curatoriais, folhas de sala e conversas de corredor com uma fidelidade quase devocional, como se a sua simples enunciação bastasse para lhes restituir o significado entretanto perdido. Talvez porque ambas guardam uma promessa que o presente tornou difícil, a hipótese, cada vez mais improvável, de que nem tudo esteja já previsto.
Só me saem duques e cenas tristes1 parte precisamente desse vocabulário. O texto de sala fala de algoritmos, probabilidades e sistemas invisíveis; fala da necessidade de resgatar uma ideia de liberdade. É uma formulação curiosa. Resgatar pressupõe que sabemos onde perdemos o que procuramos. Não tenho a certeza de que seja esse o caso. Não sei se a liberdade desapareceu. Talvez apenas tenha mudado de lugar. Há, aliás, uma certa ânsia de explicação na arte contemporânea. Explicam-se imagens, gestos, materiais, relações. Explica-se o arquivo, o corpo, a memória. Explica-se tanto que, por vezes, a interpretação parece anteceder a própria experiência. Não surpreende que palavras como “algoritmo” ou “sistema” tenham conquistado um lugar privilegiado no vocabulário curatorial. Permitem descrever o presente com uma eficácia quase reconfortante. Felizmente, as obras desta exposição parecem desconfiar desse conforto. Não recusam a ideia de sistema. Recusam apenas que o sistema seja suficiente. Há uma diferença.
Hugo Flores trabalha com materiais pesados. Ferro, bronze, metal. Mas a sensação que permanece não é a do peso. É a demora. Uma pequena escultura quase desaparece numa parede demasiado ampla. Não compete com o espaço; altera discretamente a forma como o habitamos. Num vídeo, duas mãos permanecem mergulhadas em água. Esperamos um gesto decisivo, uma transformação, qualquer coisa que justifique a duração da imagem. Não acontece. Durante alguns segundos, damos conta de que fazemos aquilo que tão raramente se faz diante da arte: esperar. E esperar tornou-se uma experiência estranha.
A montagem percebe isso. Não tenta transformar a exposição numa ilustração do texto curatorial. Há espaço entre as obras, entre as paredes, entre os gestos. Num panorama expositivo onde tantas vezes se confunde intensidade com acumulação, esta exposição percebe o valor do intervalo. Obriga-nos a desacelerar. Não porque imponha um percurso contemplativo, mas porque compreende que algumas obras deixam simplesmente de existir quando olhadas com demasiada pressa.
Também Teresa Arêde parece interessada nesse instante anterior ao reconhecimento. A sua formação em ópera torna inevitável pensar nas cordas vocais como o lugar onde a linguagem ainda não aconteceu. Antes das palavras existe apenas ar. Músculo. Vibração. Corpo. As formas em silicone e tecido recusam-se a estabilizar numa única imagem. São pulmão. São lágrima. São órgãos. São paisagem. Durante demasiado tempo a crítica de arte acreditou que compreender uma obra passava por conseguir defini-la. Teresa Arêde faz uma pergunta diferente: O que acontece quando deixamos de procurar imediatamente um nome? A resposta nunca chega, e ainda bem.
As imagens de Luísa Abreu introduzem uma outra hesitação. O corpo regressa continuamente, mas já mediado pelo ecrã. Rostos ampliados até perderem a escala humana. Cores que parecem demasiado próximas para serem naturais. Gestos cuja função permanece suspensa. O vídeo lembra-nos constantemente de que estamos perante uma imagem construída. E, no entanto, há qualquer coisa que insiste em permanecer física. A pele. A respiração. A duração de um olhar.
Talvez seja essa insistência que une os três artistas. O texto curatorial fala de algoritmos; as obras regressam ao corpo. Fala de probabilidades; elas insistem na matéria. Fala de sistemas; devolvem-nos gestos. Não é uma oposição. É uma correção. John Berger escreveu que nunca olhamos apenas para uma coisa; olhamos sempre para a relação entre as coisas e nós próprios. Talvez seja aí que a exposição se torne ainda mais interessante. Não é uma reflexão sobre o acaso enquanto conceito, mas sobre a forma como continuamos a procurar pequenas zonas de indeterminação num mundo que parece querer antecipar tudo. E não é por acaso que as obras mais fortes da exposição resistem a uma leitura imediata. Não porque sejam obscuras, mas
porque recusam a velocidade com que hoje confundimos compreensão com identificação. No fim, talvez o acaso seja apenas o suspeito habitual. O acaso, coitado, tem servido para quase tudo: para falar de liberdade, de erro, de sistema, de destino; uma pequena palavra onde a arte contemporânea tem por hábito arrumar tudo o que prefere não definir. É generosa, disponível, suficientemente abstrata para parecer profunda e suficientemente flexível para nunca ter de responder por completo. Mas o que a exposição deixa é outra coisa, menos apresentável e mais difícil de moldar: imagens que não se deixam fechar, gestos que escapam à explicação. As obras não resolvem o problema. Não têm esse intuito. E essa é uma das suas qualidades. Ficam. Insistem. Demoram. Num tempo em que tudo parece obrigado a justificar-se antes de existir, esse ficar talvez seja a sua forma mais exata de resistência.
E para quem ainda quiser perder algum tempo com aquilo que não se deixa resolver depressa, a exposição está no Palácio Vila Flor, em Guimarães, até 1 de agosto. Com curadoria de Ivo Martins.
1 A expressão «Só me saem duques e cenas tristes» é uma frase coloquial e idiomática associada a jogos de cartas, usada para descrever azar ou frustração. A frase significa que, apesar de esperar ou precisar de cartas mais valiosas, o jogador continua a receber figuras de menor valor (como os duques) ou más notícias.