Se a discussão sobre o uso da inteligência artificial (IA) em setores científicos já não é novidade, com uma série de protocolos e diretrizes amplamente debatidos e concertados, no setor cultural e artístico o panorama é diferente. Haverá, porventura, algo na arte e na produção cultural que resiste à aparente inevitabilidade da IA: a arte desafia certezas, caminha num campo movediço de contradições e indaga as sombras da experiência humana, as suas conquistas e as suas falhas. A criação é o fenómeno mais humano das civilizações. E delegar essa possibilidade aos algoritmos e às máquinas parece abrir um cisma ontológico no propósito humano.
Com o objetivo de atender a um debate que parece sinuoso, Towards an Automated Art? Learning Machines, Human Creativity And Uncertainty é um e-book que investiga criticamente os tópicos mais relevantes deste atravessamento da IA com a arte, a teoria, a crítica e a História da Arte.
Editado por Luis D. Rivero-Moreno e Helena Barranha, no âmbito de uma conferência internacional com o mesmo título, Towards an Automated Art? é, no entanto, muito mais que uma compilação de notas e sequências abertas durante a conferência, convidando os autores e participantes a alargar determinadas questões, para, assim, conceberem uma importante adição à ainda curta bibliografia sobre estes temas. Esta é a segunda publicação organizada pelo cluster Arte, Museus e Culturas Digitais, que, depois de Art, Museums and Digital Cultures → Rethinking Change, reforça o seu compromisso com a criação de edições e debates que consigam alargar os campos da arte e da museologia, numa era em que se tornou impossível pensar o mundo sem as tecnologias digitais.
O ângulo inverte-se segundo a proposta de Meredith Tromble: a questão passa agora a ser não sobre o que a IA pode fazer pela arte, mas sobre o que a arte pode fazer pela IA. Resiste-se à simplificação, encontram-se referências necessárias da história e da estética, para então se propor uma nova visão crítica dos tempos da arte. Nesta perspetiva, ao desconstruir a ideia de neutralidade ou de neutralização, ao recentrar o debate não na substituição, mas na convivência entre arte e tecnologia, ao desafiar a autoria, Towards an Automated Art? convida os seus autores e conferencistas a refletir sobre as múltiplas ramificações da transdisciplinaridade que alimenta estes dois polos. Integram este volume ensaios e textos de Adelaide Rossi, Andrés Burbano, Anna-Lisa Scherfose, Helena Barranha, Jasmin Pfefferkorn, Juan Martín Prada, Luis D. Rivero-Moreno e Rita Cêpa, bem como um ensaio visual de Rodrigo Gomes.