Laurinda Branquinho: O teu processo passa pela recolha de terra e restos de destruição que resultam de incêndios. Podes explicar como é que chegaste a este lugar, o que te interessa ou procuras?
João Marques: A terra, a matéria, é a base do meu trabalho, em geral. Está sempre presente. Acredito que os lugares que habitamos nos moldam profundamente. O José Mattoso escreveu sobre este assunto, acreditava que os lugares que o ser humano habita o moldam e que o próprio ser humano acaba por moldar também o território, como que num processo simbiótico. Tive a sorte de crescer num lugar — digo lugar porque nem sequer é uma aldeia ou uma vila — relativamente remoto, no extremo Norte do distrito de Leiria, no concelho de Alvaiázere. Penso nesse lugar como um jardim do Éden, mediterrâneo por natureza. Uma serra polvilhada por carvalhos, azinheiras e oliveiras milenares, enormes, absolutamente lindas. É um dos poucos lugares que conheço no nosso país ainda pouco alterados pelo ser humano. Existem algumas casas, uma ou outra estrada, alguns pequenos muros em pedra e mais nada. É um Paraíso, sagrado para mim.
A minha relação com a Natureza e com a terra, uma certa sensibilidade e predisposição para prestar atenção àquilo que lhes acontece acredito que venha daí, desse contacto direto com um ambiente como esse.
Em 2022, num verão muito quente, quase tudo ardeu num grande incêndio florestal. Durou 7 dias e passou por todos os lugares que me eram queridos. A casa onde cresci, as casas dos meus avós, a casa do meu pai, a escola onde estudei até ao Ensino Básico. Foram dias intermináveis. Em cada dia havia o risco de um lugar que me era querido arder. Embora a serra onde fica a casa onde cresci esteja rodeada de carvalhos e azinheiras, a poucos quilómetros a paisagem muda completamente e fica cheia de eucaliptos e pinheiros. O fogo vinha de Ourém com muita força e as florestas de eucaliptos deram ímpeto suficiente para arrasar por completo a minha freguesia (ardeu cerca de 90% do território). Já antes tinha visto, de longe, os incêndios de 2017 em Pedrogão Grande e os de 2018 que dizimaram o Pinhal de Leiria, mas estavam relativamente longe de mim. Depois das chamas passarem para os concelhos vizinhos, ficaram as cinzas, os trocos das árvores carbonizadas, negros. Toda a paisagem foi completamente negra durante vários meses. Além disto, no mês de janeiro do ano seguinte tive um acontecimento na minha vida que me abalou muito. Fiquei num lugar muito, muito escuro e não consegui trabalhar durante algum tempo.
Por ironia do destino, surgiu uma oportunidade para expor no Museu de História Natural e da Ciência no início de 2024, naquela que veio a ser a minha primeira exposição individual. Não sabia muito bem o que fazer, propus mostrar umas obras que tinha já terminadas, mas não gostei de nada. Parecia-me tudo vazio de sentido. Depois surgiu a ideia para uma instalação, quando não sabia o que fazer. Andava ainda muito frustrado e irritado com tudo aquilo que tinha vivido nos dois últimos anos. Nunca tinha feito uma instalação antes, ou qualquer outra obra com uma dimensão tão grande, mas naquela altura, para mim, estava tudo muito à flor da pele. A Sofia Marçal, curadora dessa exposição que se chamou Divina Terra, foi excelente porque me deu permissão para fazer o que bem entendesse. Foi uma espécie de tudo ao nada. Passei a ver a Arte desta forma a partir daí. Tem de ser uma questão de vida ou de morte e ou é criada com a intenção de mudar alguma coisa, nem que isso se dê pelo simples - belo - facto de criar pensamento, ou então não vale a pena. Eu sempre fui muito idealista, continuo a sê-lo apesar de tudo, por isso o ímpeto para criar é esse. Tentar mudar o mundo.
LB: Vejo nas tuas peças a intenção de dar à terra outro estatuto, quase como relíquia ou monumento. Levantas a terra do chão, dispões na vertical, paralela ao nosso corpo, adicionas pontos de luz focal. Podes falar um pouco sobre este movimento?
JM: A ideia é precisamente criar esse gesto, simbólico, de levantar o chão. De fazer com que o espectador se veja confrontado com a terra, com toda aquela matéria que fixei e que, além das suas qualidades materiais, tem uma história específica. A minha investigação artística prende-se muito com a vontade de querer prestar atenção ao que está por debaixo, a esse chão, essa Terra que nos suporta e sustenta. Na cultura ocidental, de modo geral, procuram-se as respostas em cima e espera-se poder chegar aos Céus. Um lugar que certamente, no imaginário coletivo, se imagina ser melhor, mais luminoso. Interessava-me fazer exatamente o oposto, pensar no que está em baixo e procurar as respostas, qualquer espécie de iluminação, aí. Levantar o chão e colocá-lo num plano ao qual normalmente não estamos habituados a vê-lo, de frente para o espectador, vem precisamente dessa intenção de o dar a ver, quase pela força. A escolha de utilizar como médium apenas essa terra sem qualquer tipo de figuração, palavra escrita ou código é uma afirmação. É muito direto e as qualidades da matéria falam por si. A escolha da iluminação é determinante para evidenciar essas qualidades — as texturas, as sombras, os volumes que sobressaem. A ideia é também criar um ambiente relativamente escuro que permita ao espectador sentir-se “dentro” de algo, imerso por toda essa matéria.
LB: A terra que usas na instalação Neste país sem olhos e sem boca é de algum lugar que seja próximo de ti?
JM: Sim. Para a primeira vez que mostrei esta instalação, em 2024 no Museu de História Natural e da Ciência, a terra que recolhi veio toda de um terreno ao lado da casa dos meus avós maternos. O gesto de caminhar até ao local onde se deu o incêndio e recolher a terra é também muito importante no meu processo artístico. A terra - queimada - é recolhida com muito cuidado. Não me interessa escavar grandes buracos nem ter qualquer impacto negativo no ambiente, por isso raspo as camadas mais superficiais da terra, que por ter ardido há pouco tempo está muito escura e cheia de matéria carbonizada — galhos, pedras, folhas, raízes — e faço-o com alguns intervalos de distância, de modo que não esteja a tirar a matéria toda que serve também para fertilizar os solos. Isto demora-me muitas horas a fazer. É um processo solitário.
Esse primeiro momento foi muito pessoal porque recolhi a terra de um lugar que me era muito querido, onde brinquei muito. Mais tarde, para ocupar a sala que me foi cedida no Museu Nacional de Arqueologia de Malta, tive de aumentar a instalação para o dobro. Como já tinham passado dois anos desde os incêndios da minha casa, os solos já estavam relativamente regenerados. Por isso tive de recolher terra queimada de outros lugares. Alguma veio de uma floresta de eucaliptos em Pedrogão Grande, outra de Albergaria-a-Velha. O facto de a instalação ter recebido matéria de territórios diferentes agradou-me muito.
LB: Adoro a poética do título. De onde surgiu e o que significa para ti?
JM: O título da obra é uma apropriação do primeiro e último verso de um poema do Ruy Belo chamado Portugal Sacro-Profano - Lugar onde. Este poema tem uma importância enorme para mim. Em 2023 estava a descobrir este poeta fenomenal e fiquei tão aficcionado que não descansei enquanto não arranjei todos os livros de poemas dele. Senti-me muito próximo dele e, principalmente, deste poema. Tem uma aura que se aproximava muito do estado de espírito em que me encontrava antes e durante a criação desta obra. Estava completamente contaminado, num bom sentido, pela poesia do Ruy Belo e a verdade é que não consegui encontrar um título que exprimisse melhor a ideia desta obra do que este verso. Esta obra, como disse, nasceu de uma série de irritações, frustrações pessoais e este poema e este verso em particular exprimem precisamente isso. A inação de um país - que na verdade não tem de ser um país específico, apenas um lugar-comum - que finge não ver e talvez queira, no fundo, mudar, mas nunca o faz. Que se deixa, todos os anos e de forma tão gratuita, arder, auto-destruir por tão pouco.
LB: Voltando um bocadinho atrás. Como referiste, na cultura ocidental muitas vezes olha-se para o céu em procura de respostas. Olhar e debruçar sobre a terra será, para ti, uma forma de encarar as respostas que já temos no nosso interior?
JM: Sim, pelo menos uma tentativa de as encontrar. Durante muito tempo a Humanidade tem seguido e procurado na direção oposta. Tem visto a terra, a Natureza, apenas como alimento para um ímpeto tecnológico cuja ideia de progresso, me parece, está assente nos pressupostos errados. Quando se colocou filosoficamente e (teologicamente) o Ser Humano no centro, a Humanidade seguiu um rumo que a fez distanciar-se da Terra e da Natureza. Conseguiram-se, efetivamente, feitos incríveis, ultrapassaram-se obstáculos da Natureza e da própria natureza humana, mas as perdas foram significativas. Criou-se um abismo.
Ainda assim, existem certas culturas que resistem, dificilmente, e se debruçam efetivamente sobre a Terra, sem a posição de superioridade a que o mundo dito Ocidental se habituou a olhar, mas com a intenção genuína de a conhecer, de aprender com ela. Isto não significa que defenda que se volte “à Idade da Pedra”, mas sim que se volte a prestar atenção. Que voltemos a ser mais humildes. Menos pretensiosos. O meu trabalho, de certo modo, e com as suas limitações procura fazê-lo. Procurar, esperar encontrar e dar a ver.
LB: Disseste anteriormente que és um idealista. Qual seria um projeto de sonho que gostasses de concretizar?
JM: Obrigado por me colocares esta pergunta. Tenho um projeto, no qual penso há vários anos, que quero muito concretizar. Não paro de pensar nele, na verdade, mas exige muita logística. Chama-se Uma Floresta depois de um sonho. O título é uma referência à obra de Alberto Carneiro, Uma floresta para os teus sonhos. Sempre quis dar, de algum modo, continuidade ao trabalho que o Alberto começou, nomeadamente àquilo que ele apelidou, já nos anos 70, de Arte Ecológica. Sinto-o quase como uma obrigação.
Desde que o pinhal de Leiria ardeu quase por completo em 2018 que isso me marcou profundamente. Costumava passar por aqueles hectares enormes quando ia à praia no Verão com a minha família e o meu pai dizia sempre que por lá passávamos que um dia faríamos a Estrada Atlântica de bicicleta. Nunca a chegámos a fazer. Passados 8 anos depois desses incêndios apocalípticos - nos dias que duraram estava ainda no secundário, em Pombal, e os dias foram literalmente negros, o fumo que vinha do pinhal era muito intenso - muitos troncos continuam no ar. Queimados. A imagem visual é muito forte. Parecem-se com estacas, cruzes de um cemitério imenso, que fazem lembrar as pinturas colossais de campos do Anselm Kiefer.
Tentarei resumir. O projeto divide-se em duas partes. Primeiro, um grande conjunto de esculturas: os pinheiros carbonizados e decepados instalados num espaço público. Gostava que fosse em Leiria, num lugar central da cidade. Seria um memorial, um memento mori a esse grande pinhal, mas que simboliza muito mais do que um lugar específico. Os pinheiros - esculturas seriam recolhidos diretamente dos pinhais e depois intervencionados. O segundo momento do projeto aconteceria no dia da inauguração do conjunto escultórico. Mas a inauguração aconteceria nos hectares do pinhal. A ideia seria reunir um conjunto tão grande quanto possível de voluntários, centenas, e plantar milhares de árvores nos espaços do antigo pinhal. Criar algo em concreto. Uma floresta. A duração dependerá do tempo que cada voluntário desejasse dar. O objetivo seria alcançar algo próximo da obra When faith moves mountains, de Francis Alÿs, num outro contexto e com um objetivo concreto. Um movimento mínimo que leva a um resultado enorme.