article
FPM #6 | contraste: 1949–2024 — A fotografia na Coleção da Fundação PLMJ: Distância Estética na Fotografia
DATA
16 Fev 2026
PARTILHAR
AUTOR
Ayşenur Tanrıverdi
“Com curadoria do escritor e curador João Silvério, FPM #6 | contraste: 1949–2024 — A fotografia na Coleção da Fundação PLMJ reúne impressões digitais e analógicas através de uma narrativa cuidadosamente construída, que se centra na história individual de cada obra. Moldada pelos seus laços com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a coleção revela de que forma as emoções partilhadas em diferentes épocas e lugares da história podem convergir para um valor estético comum.”
As exposições de fotografia sempre exerceram um fascínio especial sobre mim, por dois motivos principais. Nesta era tecnológica, em que estamos rodeados de imagens, sinto falta do distanciamento estético que as fotografias conseguem ainda proporcionar. A sensação de inatingibilidade transmitida por uma fotografia impactante acompanha, de certa forma, o despertar de uma sensibilidade visual que se tornou insensível.
A segunda razão reside na minha perceção do ato de fotografar como uma forma de performance artística. O olhar do artista, operando por detrás de um mecanismo que fixa uma imagem, marca uma clara transição do material para o abstrato. Neste sentido, o ato fotográfico transcende a observação passiva e torna-se um gesto ativo.
Com curadoria do escritor e curador João Silvério, FPM #6 | contraste: 1949–2024 — A fotografia na Coleção da Fundação PLMJ reúne impressões digitais e analógicas através de uma narrativa cuidadosamente construída, que se centra na história individual de cada obra. Moldada pelos seus laços com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a coleção revela de que forma as emoções partilhadas em diferentes épocas e lugares da história podem convergir para um valor estético comum.
O espaço expositivo, a Torre FPM 41, ergue-se na intrincada malha urbana de Lisboa como uma forma abstrata vertical invulgar, servindo de prelúdio ao título da exposição: contraste. O contacto com as fotografias num ambiente com design de interiores que mantém um certo distanciamento da cidade, a par da filosofia de colecionismo da Fundação PLMJ, onde a fotografia constitui mais de cinquenta por cento do acervo, possibilita a criação de um espaço onde as obras poderão ser plenamente apreciadas.
A única obra em vídeo da exposição, Fazer a Mala, de Maimuna Adam, examina uma disposição infinita de objetos dentro de uma pequena mala trancada. Seriam estes objetos memórias, legados, fardos ou mecanismos de coping para as pessoas deslocadas? Nesta disposição perpétua, nenhuma conclusão “final” é possível; é apenas o ato de se organizar que transporta significado e importância. Estes objetos que surgem incessantemente opõem-se à era digital desmaterializada, enquanto reivindicam a continuidade da tradição.
O urbanista e filósofo francês Paul Virilio compara o “campo de visão” a uma escavação arqueológica. A obra do fotógrafo português Augusto Alves da Silva, Vista do Japão untitled (da série Passage), disposta à entrada da exposição, convida o espetador a um olhar arqueológico. No seio do caos organizado pelas faixas laranja e amarelas da autoestrada, parece até que ninguém presta atenção ou se importa com o movimento, embora exista um anseio por uma ordem absoluta.
Na fotografia Sem título de Maria do Carmo Galvão Telles, de 1984, surge um elegante retrato da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, com óculos de armação redonda e uma mão ligeiramente encostada ao canto da boca, como se se preparasse para contar uma história. Os objetos sobre a mesa e o rosto da senhora brilham sob um belo efeito de claro-escuro. Neste espaço liminar da memória, recordo as reflexões de Samuel Beckett sobre tornar dizível o indizível: “a necessidade de narrar, apesar de não haver nada para dizer, nenhuma maneira de o dizer e nenhum poder ou desejo de o dizer”.
A necessidade de narrar é acompanhada pelo silêncio, não por uma explosão ruidosa, mas por uma presença tranquila. Untitled (da série Lisboa, Cidade Triste e Alegre), de Victor Palla e Costa Martins, recorda-nos que basta olhar em redor numa tarde calma, caminhando pelas ruas. À luz do dia, vemos mulheres a sorrir apesar do cansaço do trabalho, com uma tristeza subtil que se funde com os seus sorrisos.
A exposição oferece ainda uma experiência invulgar ao posicionar o espetador em dois papéis sobrepostos: observador e espetador.
A obra Portugal, de Gérard Castello-Lopes, evoca um profundo sentimento de lamento através de uma rocha gigantesca no meio do oceano. Ao observar a imponente pedra, que parece flutuar no ar, sinto uma enorme vontade de acreditar plenamente nesta ilusão.
Na série Casa das Sete Senhoras de Tito Mouraz, instalada em espaços de reunião com paredes de vidro, observa-se uma espécie de técnica de “narrador não fiável”, tal como descrita pelo crítico literário Wayne C. Booth, que oferece aos espetadores um prazer enigmático. Os contrastes dramáticos entre os tons de preto e branco, a imagem onírica de dois cisnes brancos em sucessão e o motivo da floresta aguçam a nossa curiosidade para desvendar o que a imagem está prestes a revelar.
No seu livro On Photography, Susan Sontag escreve: “As pessoas privadas do seu passado parecem ser as fotógrafas mais fervorosas, tanto em casa como no estrangeiro”. Como dispositivo de registo, a fotografia funciona como uma voz, uma prova de existência.
A obra 67. emb (da série Confidencial/Desclassificado: Emboscada), de Manuel Botelho, apresenta um homem em traje militar, carregando uma espingarda ao ombro, confrontando o seu próprio reflexo civil. Embora as duas figuras estendam as mãos uma em direção à outra, não se ligam nem se separam completamente. A obra ilustra, de forma impactante, o efeito destrutivo da guerra na psique humana e a forma como a vida se enreda em teias invisíveis de luta. Podemos senti-lo no olhar profundo que nos observa por cima do ombro na obra 4º Congresso da FRELIMO, de Moira Forjaz, de 1983, fotografada em Maputo.
A obra Sem título (da série Hiato), de Daniel Blaufuks, apresenta uma visão de grande escala que incorpora a tensão entre o efémero e o permanente. No meio de uma cena desolada com viadutos intermináveis que se estendem até ao horizonte, o reflexo de um homem solitário sentado num quarto aponta para uma perspetiva dupla, simultaneamente olhar e reflexo. Um homem alheio à história, simplesmente relegado para as margens como um resquício do tempo, muito semelhante ao Meursault de Camus.
Em The Arcades Project, Walter Benjamin fala do fotógrafo como um historiador materialista. De certa forma, as fotografias criam uma “pré-história” e servem como testemunhas-chave de como o presente se transforma em memória. Se uma fotografia simboliza a derrota ou o triunfo é irrelevante; o que se apresenta diante de nós é uma imagem que suscita reflexões e permanece sempre aberta à interpretação.
Em Sem título (da série Depois) de André Cepeda, uma das obras que mais me impactou na exposição, as duas cadeiras vazias junto a uma mesa-redonda e branca criam um jogo brilhante de luz e sombra. A fotografia destaca-se como um exemplo impressionante de como o mundo pode ser representado de forma “simples, emoldurada e precisa”. Oferece espaço suficiente para que as faíscas descritas por Benjamin se acendam na mente do espetador.
À sua maneira, todas as obras da exposição resgatam o simples prazer de contemplar e oferecem uma forma de qualidade visual transcendente, cada vez mais rara nos dias de hoje.
FPM #6 | contraste: 1949–2024 — A fotografia na Coleção da Fundação PLMJ pode ser visitada mediante marcação prévia na Fundação PLMJ até dia 4 de junho de 2026.
Entre os artistas presentes na exposição contam-se: Albano Silva Pereira, Alfredo Cunha, Ana Janeiro, André Cepeda, António Júlio Duarte, António Sena da Silva, Augusto Alves da Silva, Augusto Brázio, Bruno Sequeira, Carlos Lobo, Cláudio Melo, Daniel Blaufuks, Dora Nogueira, Eurico Lino do Vale, Fernando Lemos, Gérard Castello-Lopes, Inês Gonçalves, João Penalva, Jorge Guerra, Jorge Molder, José Luís Neto, José Pedro Cortes, Kiluanji Kia Henda, Luís Pavão, Maimuna Adam, Manuel Botelho, Maria do Carmo Galvão Telles, Mauro Pinto, Moira Forjaz, Noé Sendas, Nuno Calvet, Nuno Cera, Patrícia Assis, Paulo Catrica, Paulo Nozolino, Rita Barros,  Tito Mouraz, Valter Vinagre, Victor Palla e Costa Martins.

BIOGRAFIA
Ayşenur Tanrıverdi é uma escritora sediada em Istambul. Vive em Lisboa desde setembro de 2022. Estudou na Universidade de Istambul e é autora de duas obras de ficção literária publicadas. Colaboradora regular do Cumhuriyet, um importante jornal turco, onde escreve sobre a cultura portuguesa. Os seus ensaios e textos críticos sobre teatro, literatura e arte contemporânea também têm sido publicados em várias revistas de arte.
PUBLICIDADE
Anterior
article
Conferências 'Trajetórias', na Galeria Reverso
16 Fev 2026
Conferências 'Trajetórias', na Galeria Reverso
Por Kaia Ansip
Próximo
article
Anne Imhof: Fun ist ein Stahlbad, em Serralves
18 Fev 2026
Anne Imhof: Fun ist ein Stahlbad, em Serralves
Por Katya Savchenko