article
Habitar uma impossibilidade: Estaleiro Almada/Orozco de José André e Patrícia Portela
DATA
11 Nov 2025
PARTILHAR
AUTOR
António Figueiredo Marques
Em Estaleiro Almada/Orozco, Patrícia Portela e José André cruzam duas coordenadas: ao par de linguagens artísticas (instalação e performance) acrescenta-se a dupla geografia (Portugal e México). Interpelam as realidades sociais e a força da tradição por meio dos motivos pictóricos de José de Almada Negreiros e de José Clemente Orozco.
Em causa estão os painéis da Gare Marítima de Alcântara, do pintor português, e os frescos do muralista mexicano, no Museo Cabañas, em Guadalajara, um antigo hospício. Do lado de cá do Atlântico – de onde, primeiro, partiram naus e, mais tarde, se recebem turistas de 1.ª classe no único destino turístico de eleição na Europa. Do lado de lá, no continente que viria a chamar-se América – local de matanças, pilhagens, com fogo, com sangue, crucifixos, armaduras e rituais assustadores, aquando da chegada dos chamados “Conquistadores”.
O visitante, ao entrar na galeria Appleton, depara-se com três ecrãs na sala. As imagens são uma mescla de cenas representadas nesses dois murais: um cavalo de duas cabeças, embarcações, velas e corpos amalgamados, um eventual unicórnio, desembrulhados numa nuvem de fumo negro e denso. Cada imagem vai sendo transformada noutra, indistinguindo uma pertença original ou qualquer certeza. O território fugidio da instalação digital surpreende, ao mesmo tempo, com espanto e com presteza, passeando pelas cores vibrantes, pelos amarelos, azuis, encarnados dos quadros escolhidos. José André (metade da dupla Irmã Lúcia – efeitos especiais, que trabalhou, por exemplo, com os realizadores Pedro Costa, Gabriel Abrantes, João Botelho) e Portela, criando imagem e texto em interdependência, reconfiguram os dois distintos imaginários dos pintores Almada/Orozco. A mencionar ainda que André e Portela, compinchas de longa data, já haviam colaborado em projetos onde a pintura é a matéria-prima, como é o caso da performance Parasomnia (apresentada na Mãe d’Água das Amoreiras, 2019, e integrada no programa do Teatro do Bairro Alto).
De seguida, na palestra de Patrícia Portela (de que os itálicos neste texto são citações), desfila uma galeria de personagens com que dialoga: uma especial interlocutora de viagem, uma espécie de fada-madrinha (mordaz e inquisitiva), ou seja, a Dúvida, como é nomeada; Odília, uma musa confusa; Pedro Álvares Cabral; Júlio Dantes (justamente, o do manifesto de Almada); Duarte Pacheco; Michelangelo; a Condessa de Alba; as cadeiras de Duchamp e de Salazar; Alexandre O’Neill; a nau Catrineta; Pero Vaz de Caminha; os mancebos rijos de bom corpo; a moça tão bem feita, tão redonda, e sua vergonha, ai, tão graciosa; Bartolomeu Dias; Stanley Kubrick; os sapatos amarelos da adidas; a professora do liceu; a criança que chora; a mãe que amamenta; José Mário Branco; António Câmara; Santa Rita Pintor; Tristan Tzara; um Pessoa; um Donald Trump, ….
A enunciação, ritmada, inventiva e irradiante, da escritora coloca-se perante uma impossibilidade. Fundir, num terceiro local, um corredor, o Almada que se projetaria num lado e um Orozco que se projetaria no outro: um espaço central onde coabitariam em simultâneo duas ou mais realidades. No ponto nevrálgico, o espectador seria três pessoas coetâneas (nem isto, nem aquilo, nem testemunha), mas reunindo em si a capacidade de sentir e de entender vários tempos do continuum da História e sua problematização. Se a partida foi uma promessa, o destino será uma atrocidade. Aliás, intenções essas bastas vezes reproduzidas, como o são o neocolonialismo, o racismo e o fascismo, quotidianos e transversais.
E, além da impossibilidade, outra questão brota em Portela. Ao visitar hoje os painéis da Gare Marítima, é assolada pela dúvida. Incisiva e perguntadora. Quando observamos algo com um olhar renovado, podemos perder um grande amor. A confessa almadiana apaixonada dá por si a interrogar-se. Portela enfrenta Almada. Quem são, afinal, estas pessoas nas cenas? Que riso sai destes cenários? Que força e que grito imprimiu Almada nestes painéis? Esgrimindo argumentos com a Dúvida, chega à conclusão de que o pintor não foge a retratar as vidas dos miseráveis durante o Estado Novo, mas pouco faz para as elevar ou salvar. Denúncia aquém. Mas isso não chega. Recuemos.
E vai distribuindo farpas para todos os gostos (piscadela de olho à sátira de outros dois vultos – Eça e Ortigão). Rebobinando aspectos da história, buscando uma tal portugalidade pequenina, surge assim a Carta de Pero Vaz de Caminha em Vera Cruz: a audácia de se achar que se funda um país, e para si. E também as escolas hoje onde se ensina não mais do que modelos cristalizados, locais em que não se enfrenta a violência entre os jovens, para os pais continuarem num regime de exploração laboral.
Vivemos para manter a fraude, para manter a cartilha. Manda-se para as urtigas a razoabilidade e a urgência humanamente partilhada.
Os dois modos característicos da artista, o modo paisagem e o narrativo, entrelaçam-se numa proposição: Portela requer de um artista tanto a sua arte como a humanização.
Talvez habitar não seja uma ligeireza, mas também não à força. A narrativa tuga pequeninos, sem agitar ondas, pedindo favorzinhos aos déspotas, de qualquer Estado ou época – cheira a farsa. O fado trágico da alma lusa não chega a comédia nem a tragédia.
Talvez, à sua maneira, Portela esteja a querer matar a tradição, como aliás os manifestos artísticos do século passado (mesmo assim, nem estes escapam ao crivo da escritora que cita com desdém: Nós queremos glorificar a guerra, o militarismo, o patriotismo, (…) e o desprezo pela mulher). Refaça-se o espírito da época – com os nossos corpos quotidianos, tal as peixeiras na Gare Marítima – porque isto é, afinal e sempre, um embate. Ponha-se, sim, o dedo na ferida. E, portanto, qual é o poder de um artista, e como usá-lo? Orozco em sangue e fogo, Almada em melancolia amedrontada. Com martelo e pincel: o ícone, o espaço, a palavra.
O espetáculo foi apresentado na Galeria Appleton, dias 24 e 25 de outubro de 2025, no âmbito da programação do festival Festival Temps d’Image.


BIOGRAFIA
António Figueiredo Marques escreve ensaios, folhas de sala e artigos sobre artes performativas, aliando as componentes artísticas e teóricas. Reflecte sobre a montagem dramatúrgica e os modos de composição cénica, estudando as dimensões visuais, sonoras, do corpo e intermédia no plano da performance contemporânea. É Investigador no ICNOVA, doutorado em Comunicação e Artes (NOVA FCSH) e co-editor do site sobre artes performativas e performatividades expandidas CRATERA | Performance & Cognição. Enquanto performer, faz regularmente formação com Mónica Calle, Yael Karavan, Renato Ferracini, Miguel Moreira, Tiago Vieira, Jorge Silva Melo, Miguel Loureiro, entre outros.
PUBLICIDADE
Anterior
article
Nem pena nem paixão: Paulo Serra, na Salto
10 Nov 2025
Nem pena nem paixão: Paulo Serra, na Salto
Por Dela Christin Miessen
Próximo
article
Encenar é Amar: to love and devour, de Tolia Astakhishvili
13 Nov 2025
Encenar é Amar: to love and devour, de Tolia Astakhishvili
Por Tomás Saraiva