article
How to [un]do Things with Words, Numbers, Flags, Maps and Signs: Uma Retrospetiva de Jasper Johns no Guggenheim Bilbao
DATA
06 Jul 2026
PARTILHAR
AUTOR
Benedita Salema Roby
No passado dia 29 de Maio inaugurou, no Museu Guggenheim de Bilbau, uma retrospetiva monográfica do pintor norte-americano Jasper Johns. Com cerca de 140 obras produzidas ao longo de uma carreira que se estendeu por quase 70 décadas, a exposição, curada por Enrique Juncosa, mapeia cronologicamente as várias fases da obra de Johns – profundamente marcadas por questionamentos radicais, aberturas e fechamentos emocionais e relações de trabalho e amizade entre criativos e intelectuais.
Em 1962 foi publicada, postumamente, a obra seminal de John Austin, How to Do Things with Words – proveniente da transcrição de uma série de palestras, proferidas pelo próprio, em Harvard entre 1954 e 1955. Nessa célebre publicação, Austin – filósofo da linguagem – além de debutar a sua célebre teoria dos atos de fala, adianta outra hipótese no contexto da semântica, ao sugerir que o significado das palavras não é intrínseco aos signos linguísticos, mas ao contexto preformativo (i.e., de uso) e à intenção, aquando da enunciação ou escrita das mesmas. Dez anos depois, em Signature, Événement, Contexte (1972), Jacques Derrida – também filósofo – apesar de concordar que o significado de um signo não é intrínseco ao seu significante – contesta Austin com a ideia de que o contexto e a intenção também nunca são totalmente determináveis. Derrida esclarece essa situação ao recorrer àquilo que Austin retirou de toda a sua investigação: os usos “não-sérios” e “parasitários” da linguagem – nos quais estão implicados a citação, a ficção, a ironia e os momentos em que não há sucesso na interpretação hermenêutica da comunicação. Enquanto Austin defendia que essas circunstâncias constituíam desvios, Derrida argumentava que o “não-sério” não se tratava de um desvio, mas de uma manifestação da própria natureza da linguagem. Isto é, aquilo que Derrida alega que anuncia a linguagem é a sua condição de iterabilidade – a força interna de deslocamento e rutura com o contexto, origem e intenção presentes em todas as marcas. Ou seja, para funcionar (isto é, para ser legível e comunicar) uma marca tem de ser iterável, repetível, citável, e por isso, pode ser afastada do seu contexto – isto é, do conjunto de presenças que organizaram a sua origem e produção; e da intenção-de-significado da sua produção, uma vez que ela deve funcionar na ausência radical de todos os sujeitos implicados: o signatário e o destinatário.
Serviu esta descontextualizada introdução para deambular na permeabilidade entre esta última tese e o que Jasper Johns começava a questionar através das suas telas, antes ainda da contestação de Derrida, ou mesmo da publicação de Austin – aliás, justamente nos anos em que decorriam as palestras supramencionadas em Harvard. Nas suas telas de 1954 em diante – uma vez que destruiu todos os seus trabalhos anteriores, em que as suas preocupações eram outras, mais viradas para a corrente estética em voga nos Estados Unidos na época, o Expressionismo Abstrato – vemos reproduzidas reflexões em torno da natureza da linguagem artística e mesmo da linguagem no geral, operando tal como Derrida, numa crítica ao logocentrismo. Isto é, de 1954 em diante, Johns começou a iterar singos comuns ou, pelas palavras do próprio, “coisas que a mente já conhece”1 ao descolá-las do seu contexto e da sua intenção-de-significação original, produzindo “algo que se assemelhava à verdade”2 mas que não chegava a sê-lo. Esta iteração irónica de signos icónicos (como as famosas bandeiras, mapas, números e letras) revela-se “não-séria” ao constituir um desvio do sistema estrutural que vincula um significante a um significado, mesmo quando representado: a bandeira é uma bandeira? Uma pintura de uma bandeira? Um quadro? A citação da palavra vermelho, em cinzento sob cinzento representa que cor? Uma vassoura sob uma tela é uma presença ou uma representação? Os números (0-9) demitidos da sua função, ainda nos remetem à contagem e à contabilidade, ou podemos interpretá-los sem essa responsabilidade? Enfim, no início da sua carreira, Johns empenhou-se em investigar a separação dos ícones da sua função prática, esvaziando-os do significado fixo e designado, procura saber como se comporta a nossa perceção ao concebê-los enquanto objeto visual? É desta forma que Johns des-faz coisas com palavras, números, bandeiras, mapas e ícones reconhecidos – em iteração, sob iteração, sob iteração até à exaustão não só do significado, mas do significante também. A bandeira muda de cores, os números são sobrepostos, os mapas mudam de forma e de legenda, as cores desvinculam-se da palavra que lhes dá corpo. Os motivos são repetidos consecutivamente nas pinturas que desenvolve e nos desenhos a que posteriormente recorre para criar variações (iterações) dos signos nos quais incorre com frequência. Posto isto, a investigação artística de Jonhs é tanto mais filosófica e poética quanto plástica e formal, ao habitar um questionamento radical (do latim, radix, raíz) no cerne da natureza da representação e da perceção visual. Ademais, esta retrospetiva fez-me considerar que a obra de Johns operou uma certa desconstrução nas artes plásticas, antes ainda de Derrida expor essa investigação. Esta é a situação nas primeiras salas da exposição, que mostram as primeiras décadas da obra do pintor em questão.
Adiante. A mostra cronológica pouco importa para o delinear de uma narrativa sequencial ou para o evidenciar de um estilo predominante, importa, porém, para entender a alternância de direções e a abundância de proposições ao longo da carreira de Jasper Johns. Além das reflexões em torno da natureza da linguagem artística, pelas quais o artista é largamente reconhecido e às quais volta recorrentemente – também vemos pequenas esculturas; a cenografia para um espetáculo coreografado por Merce Cunningham; gravuras em entalhe numa colaboração para um livro com Samuel Beckett, onde cada um aborda de forma autónoma a expressividade da linguagem e onde Johns transpõe alguns dos seus desenhos abstratos, porém contradizendo a tendência da época, com os elementos meticulosa e quase matematicamente organizados; bem como uma série de presenças familiares em referências ou evidências ao longo das várias décadas de produção, desde iterações de elementos e motivos de Magritte (de quem era um avido colecionador), a Duchamp (de quem era amigo), mas também mas também Frida Kahlo, Edvard Munch, Cézanne ou Picasso – entregando-nos referências da História da Arte modernista europeia e latino-americana. Iterações à parte, a retrospetiva consegue evidenciar que as relações de amizade, proximidade e reciprocidade criativa que mantinha com nomes como John Cage, Frank O’Hara, Hart Crane, Robert Rauschenberg, entre outros supracitados, foram determinantes para o desenvolvimento e amadurecimento artístico do pintor, tal como o pintor foi determinante para as dinâmicas dos mencionados.
Apesar de me ter demorado, ao longo dos primeiros parágrafos, nas divagações filosóficas e formais em torno da natureza das artes visuais (apenas porque vai ao encontro dos meus interesses pessoais) – o curador titulou a retrospetiva Night Driver, nome de uma pintura que dá início a uma fase onde o artista introduz, de forma altamente controlada, “sentimentos baseados em memórias e experiências que nem sempre são claramente especificadas ou admitidas”3. Apesar dessa obra não estar presente na exposição, abriu o caminho para muitas outras que estão e que daí em diante refletem e retêm (há exatamente esse jogo de abertura sentimental e clausura emocional) os exercícios mais melancólicos, lucífugos, românticos e, portanto, autobiográficos, da sua obra. Os cinzentos, que já vêm de trás, ocupam a maioria desta fase de tensão, secrecia e melancolia, mas importa retornar a mencionar que a forma como manuseia este campo emocional (quer seja em cinzento, preto, branco, ou numa variação tonal) é comedida e controlada – aquilo que Juncosa apelida de “expressionismo congelado”, em oposição aos gestos quentes e espontâneos do Expressionismo Abstrato.
A retrospetiva, acolhida num complexo que questiona as regras da arquitetura, tanto quanto Jasper Johns questiona as da pintura – empenhou-se em ir além da conversa habitual sobre o pintor, ao mostrar a sua vertente mais íntima, emocional (que também só poderia provir de uma fase filosófica, mesmo que formal). Enrico Juncosa informa-nos sobre a poética da impermanência criativa de Johns – admitindo que um grande pintor faz-se de constelações estilísticas e relacionais.
A exposição Jasper Johns: Night Driver está patente no Museu Guggenheim de Bilbau até 12 de outubro de 2026.
1 Tradução livre: “Things the mind already knows”.
2 Tradução livre: “Something resembling truth”.
3 Nas palavras do curador.

A autora não escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.
BIOGRAFIA
Benedita Salema Roby (n. Lisboa) é licenciada em História da Arte (2019) e mestre em Estética e Estudos Artísticos (2022) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa com a dissertação "Graffiti: Considerações Acerca da Estética da Transgressão no Espaço Público da Cidade". Actualmente, encontra-se a realizar o doutoramento em Estudos Artísticos — Arte e Mediações na mesma instituição, onde desenvolve, com financiamento da FCT, uma investigação centrada no potencial de libertação societal e coletiva em torno de práticas (artísticas) transgressoras, como o graffiti e a pichagem política. Sobre este tema, também participa na realização de documentários e organiza oficinas de prática e pensamento orientadas para jovens. O seu projeto de tese, intitulado "A Desconstrução da (experiência da) Cidade e a Construção da Esfera Contra-Pública: Escrita Criativa Transgressiva, Estética e Política", é orientado por Cristina Pratas Cruzeiro e Joana Cunha Leal. Para além de publicações académicas, escreve sobre artistas emergentes e exposições de artes plásticas e performativas para revistas independentes, como a Umbigo e a Sem Título.
PUBLICIDADE
Anterior
article
Técnica mista sobre papel #11: O estio das palavras cruzadas
01 Jul 2026
Técnica mista sobre papel #11: O estio das palavras cruzadas
Por Luísa Salvador
Próximo
article
Entrevista a Silvestre Pestana, autor da capa da Umbigo.space
07 Jul 2026
Entrevista a Silvestre Pestana, autor da capa da Umbigo.space
Por Mafalda Teixeira