A selecção de peças de um período inicial da carreira do escultor não obedece mais a um critério temático ou cronológico do que ao desejo de revelação do negativo de uma obra já conhecida do público, contrariando a “espécie de cegueira” que pode abafar um trabalho artístico justamente pela sua consagração mediática, tendencialmente repetitiva no olhar que sobre uma determinada obra debruça. Parece forjar-se um ciclo pela aliança da escolha de peças de um período embrionário do trabalho de Cutileiro e a condição póstuma desta exposição, a qual surge, com efeito, enquanto símbolo da resistência que uma obra significa para além da morte do artista. Essa resistência é parte da matéria-prima e da filosofia artística do próprio escultor. Veja-se, a este respeito, as peças que Cutileiro faz em homenagem pré-póstuma a Helder Macedo. Com elas declara o valor da amizade a Macedo e a sua resistência em face da morte, mergulhado, é claro, no mistério sobre o instante em que virá a sua e a morte do amigo, desconhecendo portanto a quem caberá sobreviver. Embora tratando-se de uma evidência, veja-se que o desconhecimento do instante da morte se trata de uma condição de relacionamento afectivo e de existência criativa. E se isto é verdade, também o será que todas as criações são a morte colocada em perspectiva, a invenção de termos provisórios que igualmente de forma ilusória vão adiando a morte, justamente aquilo que extingue todos os termos, toda a invenção, todo o provisório e circunstancial.
Na sala única da exposição, há peças a meio da parede, à altura do corpo do visitante, no limiar entre parede e tecto, em plintos assentes no chão, uma escultura no interior de um cubo preto, reminescente de uma câmara mortuária, bem como uma mão/luva branca à entrada, o que figurativamente tanto pode sintetizar a experiência de visualização enquanto promessa de clarificação à saída e/ou enquanto crítica, de partida, a uma pureza que é tão-só ilusória e povoada de imagens, em primeiro lugar as que compõem a mostra. Eis a prova da grande e vitoriosa tentação das imagens. Na sala da galeria, a luz é baixa, as paredes pintadas a cinza. Há qualquer coisa que nos parece mais humano do que a habitual configuração museológica, porventura pela sugestão de escuridão, de cegueira, do fim que nos é constitutivo, a morte firmada nessa tonalidade parda — quase-confortável —, assumindo-se a mancha, a contaminação instalada como tom, arquitectada como lugar a habitar. A supramencionada pureza significa-se como mito, à partida, deturpado, e refundado, a cada narrativa afluente. Os objectos expostos assemelham-se tanto a ruínas de civilizações antigas — as “figuras sentadas” reminescentes a capacetes de guerra com cornos de Minotauro, as formas arredondadas semelhantes a ventres grávidos e peitos femininos — como à disposição de elementos para compor uma cena lúdica, atemporal.
A justaposição de objectos representativos de temáticas diversas e pertencentes a períodos distintos da vida do artista situam esta mostra num plano limiar relativamente a quaisquer formas de categorização curatorial, o que, naturalmente, não aponta no sentido de uma arbitrariedade negligente quanto aos critérios expositivos. Todavia, não podendo facilmente determinar um tema da exposição — o que dirá do mistério que é salutarmente conservado, contrariando lógicas curatoriais explicativas — o espectador é obrigado, de forma participativa, a reconhecê-la enquanto possível gramática de re-elaboração da obra de Cutileiro. Uma mão, figuras de formas primitivas, situadas aquém género e tempo historicamente datável, uma gárgula, três maquetes para túmulos, dois corpos em posição fetal virados um para o outro, um corpo jacente no interior de um câmera escura compõem o cenário simbólico do espaço intervalar habitado pelo artista, aquele que se dispõe a pensar no tempo presente, sabendo, de antemão, ser participante de uma esteira incomensurável de histórias, mitos e matrizes várias. Veja-se que a própria noção de fragmento, de ser parte de um todo inapreensível, misterioso, tão generoso quanto tirânico na sua imensidão — o absoluto da morte como fim e razão de inebriamento — é mimetizado pela forma como as peças estão dispostas na galeria, bem como pela mancha gráfica das entradas de texto na folha de sala.
Sondar a morte é a única forma de nela nos aproximarmos, assim como só é possível habitar essa distância fecunda pela máxima defesa da vida, do amor, da amizade e do desejo. É uma inevitabilidade. Ora, João Cutileiro, sob curadoria de Frederico Portas, ilumina essa inevitabilidade. ‘Dádiva’ será a melhor forma de designar um tal gesto. E não é para menos. Trata-se de não se saber quem sobreviverá, a quem caberá recuperar uma vida, continuá-la, esquecer aquilo que foi para que possa vir ainda a ser qualquer outra coisa, e mesmo assim, e também por isso mesmo, encetar o gesto criativo e amoroso (aqui talvez resida uma redundância) de se colocar frente à morte. Eis a seriedade e graça do jogo da homenagem pré-póstuma a Helder Macedo, um seu amigo. Eis o gesto lúdico — não desprovido da gravidade dos teatros infantis construídos sobre a assunção da efemeridade — de voltar, de outra forma, à obra de um homem que nasceu, viveu e morreu. E só depois de tudo isso, e apesar dessa circularidade biológica igualitária, um homem criou.
Maurice Blanchot diz sobre o acto de escrever aquilo que poderia dizer-se do acto de criar, a partir das palavras de Kafka: “Escrever para poder morrer — Morrer para poder escrever [Kafka]. Estas palavras fecham-nos na sua exigência circular, obrigam-nos a partir daquilo que queremos encontrar, a procurar apenas o ponto de partida, de tal como que fazemos desse ponto algo de que só nos podemos aproximar distanciando-nos, mas autorizam esta esperança: a de apreender, de fazer surgir o termo, aí onde se anuncia o interminável”. Nesta exposição, sentamo-nos ao lado da morte. E, no entretanto, enceta-se conversa com uma série de figuras, seres habitantes de universos estranhos, combinações inusitadas de naturezas várias. O destino é uma maquete e não um monumento. A exposição são as suas peças e estas bem poderiam chamar-se esperança. E é prenhe o que essa palavra contém. E é ensurdecedora a solidão que uma palavra dissimula. E a festa que vibra — uma constelação resiste e é, afinal, pouco provável um corpo desabitado.
Resultado de uma co-produção entre a Appleton e o Centro de Artes João Cutileiro, a exposição fica patente até dia 31 de julho.