A declaração-manifesto de Jin Suk Suh é tão admirável como vê-lo circular orgulhoso pelas dezenas de eventos do festival que encabeça tomando a tarefa de fomentar diálogo para a produção de novas histórias da arte na Ásia e na Coreia do século XXI. Diretor do Museu de Arte de Busan, Jin Suk Suh é um dos organizadores do Loop Lab Busan, festival de videoarte e novas tecnologias cuja primeira edição aconteceu entre 23 e 26 de abril em Busan, cidade portuária e a segunda maior metrópole da Coreia do Sul. Além de uma feira e de inúmeras exposições pela cidade, a programação incluiu os eventos Future Museum Forum, que trouxe para a cidade 15 museus de 10 países, e o Asia Curators Forum, cujo foco é criar uma rede de conexão entre curadores da Ásia e discutir questões da identidade e cultura na região. Acredite se quiser, mas o epicentro do festival não é um museu ou um centro cultural, mas um hotel, desses bem luxuosos, pé na areia e com vista para o mar. Tudo acontece no 16o andar do Grand Josun Busan Hotel, onde a feira da Loop Lab toma os corredores carpetados labirínticos. Cada um dos quartos é ocupado por uma galeria de arte. Os visitantes são convidados a se sentar nos sofás (ou deitar na cama), e confortavelmente assistir a um trabalho de videoarte. Num momento em que o nosso tempo de atenção é cada dia mais curto, dá para contar nos dedos quem assiste a longos trabalhos em vídeo em um espaço cultural. Aqui, a sessão se transforma num papo com o desconhecido da cama ao lado.
Esta singular experiência artístico-hoteleira é característica do Loop, a primeira feira dedicada a videoarte nascida em Barcelona. Criada em 2003 com o intuito de estimular o mercado e o colecionismo de obras em vídeo, a feira co-fundada por Emilio Álvarez quase não vendeu obras em sua primeira edição, mas aos poucos foi fortalecendo a sua marca e passou a ser frequentada por visitantes assíduos e apaixonados por videoarte como o próprio Jin Suk Suh, então diretor do Nam June Paik Art Center. Em um momento em que a Coreia do Sul nunca esteve tão no centro das atenções internacionais e relevante para os debates sobre o mundo contemporâneo, a versão asiática da feira pretende colocar Busan no mapa internacional da arte contemporânea.
“Há vinte anos, a cena de arte da Coreia não era nada. Hoje suas políticas culturais são incomparáveis”, conta a curadora do Loop Lab Busan, Valetina Buzzi, que vive em Seul há cinco anos e é especialista nas relações culturais entre Coreia e Europa. Ela comenta sobre o modelo de cooperação entre setor público e privado do festival e explica como esse tipo de articulação foi crucial a partir de 1961, durante a ditadura militar, que promoveu o chamado “Milagre do Rio Han”. Após a devastação causada pela Guerra da Coreia (1950–1953), que sucedeu a violenta ocupação japonesa na Coreia (1910-1945), o país era um dos mais pobres do mundo. Em poucas décadas, porém, tornou-se uma das maiores economias do planeta.
"A Coreia do Sul está entre os países com os maiores orçamentos dedicados à diplomacia cultural no mundo. O governo investe fortemente na cultura e depois a exporta de forma estratégica, por meio de uma combinação de iniciativas públicas e privadas”, conta Buzzi.
Diretora da feira Loop Lab, Amy Kim é também uma jovem colecionadora e empreendedora, e quer dar vazão ao ávido interesse da população por arte e ao crescente número de colecionadores entre coreanos da sua geração. A chegada da Frieze em Seul em 2022, seguido da vinda de diversas galerias internacionais, é causa e consequência desse florescimento. "Quando se trata do mercado de arte, a tributação e as regulamentações na Coreia são muito favoráveis para colecionadores. Financeiramente, colecionar arte é um ótimo investimento. Não há cobrança de imposto na compra de obras quando se trata de artistas coreanos vivos”, explica Kim.
Na feira, 25 galerias de 12 países foram cuidadosamente selecionadas pela sua equipa para exibir apenas um, no máximo dois trabalhos em cada um dos quartos do hotel (Portugal estava representado pela Galeria Duarte Sequeira, de Braga). No belíssimo trabalho Veil (2023) apresentado pela Amado Art Space, de Seul, a artista coreana Seo Young Chang filma um cômodo de apartamento em desuso, cujos pertences estão cobertos por fantasmagóricos tecidos brancos, para criar um vídeo poético sobre o envelhecimento do corpo e a perda de mobilidade. Sentados na cama, no quarto, a sensação de depressão e a fragilidade das histórias narradas se torna ainda mais real para quem assiste.
Em outro cômodo, a Galeria Zink exibiu a obra Living Pits (2024) do artista turco Erkan Özgen que, em meio a um cenário árido, cava buracos para colocar água e peixes vivos, mas traz à tona dejetos e uma discussão necessária sobre sustentabilidade e sobrevivência. A galeria Àngels Barcelona apresentou Lightning Dance (2018), da argentina Cecilia Bengolea, conhecida pelos seus vídeos de corpos dançantes em diferentes realidades e contextos, como ferramenta de resistência, empatia, memória coletiva e - sempre! - diversão.
Na nossa era digital, o festival tem o intuito de promover um novo discurso sobre a imagem em movimento. Muitos trabalhos expostos na feira usam inteligência artificial, realidade aumentada e realidade virtual como ferramentas para suas produções. Vale dizer, porém, que apesar de ter uma proposta enfática sobre as novas tecnologias, o evento ainda não usa NFTs para realizar a venda das obras, o que seria uma solução natural para uma feira dedicada à imagem em movimento.
De Jin Meyerson, a Galeria Perrotin apresentou Overview Effect (2025), um vídeo caleidoscópico criado a partir dos algoritmos das suas pinturas pixeladas de técnica primorosa. Em DRMNG (2025), Woonghyun Kim, da coreana Gallery2, usa inteligência artificial para criar uma narrativa sobre jovens coreanos e a crise imobiliária. Selecionada para o Artist Focus a taiwanesa Wenchi Su, é também bailarina e coreógrafa que combina ciência e movimento no trabalho Sensing Dark Matter.
Na terra de Nam June Paik (1932-2006), artista considerado o pai da videoarte, cujas obras visionárias anteciparam a era da internet e das redes sociais, um festival de videoarte ganha ainda outra dimensão histórica. Não dá para não imaginar o que ele iria pensar em 2025, quando seu país natal vive o auge de sua projeção internacional não apenas como potência tecnológica, mas também como força cultural capaz de moldar discursos, estéticas e futuros possíveis.