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O ângulo preferido de um peixe (e outras hipóteses para arquitetar mundos interespécies)
DATA
09 Jun 2025
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AUTOR
Laila Algaves Nuñez
Em ´Interespécies´, a arquitetura serve de mote para o pensamento especulativo mais-que-humano, convidando as demandas dessas e outras existências ao centro de uma reflexão multidisciplinar sobre o convívio e a responsabilidade que partilhamos — em distintas medidas, mas sem exceções — na Terra.
Recentemente, uma série de leituras têm insistido em mim, quase sem querer, uma ideia: a de que a linguagem e as cidades partilham interesses e organizações comuns. A ideia não é minha, é claro. Dentro do (mais ou menos) conciso grupo de autores e autoras que me têm feito companhia, atribuo-a a Jacques Derrida, em Gramatologia: “seria preciso meditar conjuntamente a possibilidade da estrada e da diferença como escritura, a história da escritura e a história da estrada, da ruptura, da via rupta, da vida rompida”[1], das “vias de comunicação”, no português de Portugal. Noutro texto, Giorgio Agamben — valendo-se, por sua vez, de Ingeborg Bachmann — escreve que tanto a língua como a cidade têm “o seu centro antigo a que se seguem as partes mais recentes e as periferias, […] as vias circulares e as bombas de gasolina […]. A cidade e a língua comportam a mesma utopia e a mesma ruína, sonhamo-nos e perdemo-nos na nossa cidade como na nossa língua, ou antes, uma e outra são somente a forma desse sonho e dessa desorientação”[2].
Eu, que ando mais à procura dos mapas da linguagem e da literatura do que de Lisboa — a minha casa — ou do Rio de Janeiro — a minha primeira casa —, sobretudo num esforço de encontrar nestes as fronteiras da humanidade, comecei a perguntar-me o que significava, então, habitar uma língua e um território pensados apenas para uma solitária espécie. Afinal, qual será a casa ideal para uma abelha sem família (Bee Home, 2020, Space 10)? O relógio para marcar os ritmos de um dia na pele de uma flor (Relógio floral de Linnaeus, 1897)? O ângulo preferido de um peixe (Fish Cube, 2024, estúdios residentes SUPERFLEX e KWY.studio)? Ou, ainda, as reivindicações políticas do rio Tejo (Mala Diplomática, Confluence of European Water Bodies, 2018, Embassy of the North Sea)?
Em Interespécies, a arquitetura serve de mote para o pensamento especulativo mais-que-humano, convidando as demandas dessas e outras existências ao centro de uma reflexão multidisciplinar sobre o convívio e a responsabilidade que partilhamos — em distintas medidas, mas sem exceções — na Terra. A exposição, curada por Mariana Pestana, marca o primeiro ciclo programático do Centro de Arquitetura do MAC/CCB — com projeto arquitetónico de BUREAU —, num ânimo de abertura processual e experimental que reúne investigações em livros, mapas, desenhos, instalações e uma miríade de materiais e obras. São muitas as preciosas pesquisas e trabalhos de campo aqui apresentados, frutos, antes de mais, de pequenas (grandes) revoluções nos nossos modos de atenção, fruição e interação com o mundo — bem como nas nossas metodologias para produção de pensamento e conhecimento. Para aprender a dividir, a viver e a morrer bem neste planeta[3], convocam-se todas as nossas ficções pessoais e coletivas, aproveitam-se todas as nossas ferramentas críticas e sensíveis: novas cidades (ou, quem sabe, novas línguas) se fazem, necessariamente, com novos professores, cientistas, legisladores, arquitetos, artistas, humanos.
Passear pelos seus três núcleos expositivos — intitulados aproximar, coabitar e conspirar — como quem se põe à “margem das estradas onde se circula a grande velocidade”[4], entregue ao “mistério da presença”, faz-nos participantes de uma (re)descoberta em curso de futuro. Sentimos que estamos, de facto, no meio de algo que se produz — atravessados pela intimidade e novidade das ideias, dúvidas e perspetivas arriscadas, conexões inacabadas, presságios intuídos. Sentimo-nos, com efeito, menos desamparados, menos em silêncio — talvez, até, menos condenados a um destino triste. Há novos mapas para orientar a vida e a não-vida, novos atlas ferais (Feral Atlas, 2021, Anna L. Tsing, Jennifer Deger, Alder Keleman Saxenae Feifei Zhou), grafias para sedimentar mundos instáveis: aprendemos a tornar visível o invisível, a deambular por diferentes escalas (aquelas que cada cruzamento de problemas solicita, à sua própria maneira), desviar dos desertos algorítmicos e das minas da imaginação em direção aos estratos da solidariedade ou à floresta dos fantasmas amistosos (The Map of Empathic Society, 2020, The Rodina).
Interespécies, patente até 31 de agosto, contempla ainda um programa público de atividades e a atribuição de duas bolsas de investigação e dois espaços de residência a projetos selecionados através de uma convocatória aberta.
[1] Derrida, J. Gramatologia. Perspectiva, 2017, p. 133.
[2] Agamben, G. “Da Utilidade e dos Inconvenientes do Viver entre Espectros”. In: Nudez. Relógio D’Água, 2010.
[3] Haraway, D. Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene. Duke University Press, 2016.
[4] Frédéric Gros na contracapa de Caminhar, uma filosofia. Antígona, 2024.
BIOGRAFIA
Laila Algaves Nuñez é investigadora independente, escritora e gestora de projetos em comunicação cultural, interessada particularmente pelos estudos de futuro desenvolvidos na filosofia e nas artes, bem como pelas contribuições transfeministas para o pensamento social e ecológico. Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Cinema (PUC-Rio), mestre em Estética e Estudos Artísticos (NOVA FCSH) e doutoranda em Estudos Artísticos - Arte e Mediação (NOVA FCSH) com bolsa FCT, pesquisa o potencial da escrita e da ficção como ferramentas para a salvaguarda dos Direitos da Natureza, propondo e participando em projetos de investigação-ação que atravessam as intersecções entre palavra, performance, imaginação e ativismo ecológico.
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