article
O que me repugna é ter sido sublime ontem à noite: Onion Fields From Above, de Miguel Ferrão Lopes
DATA
22 Dez 2025
PARTILHAR
AUTOR
António Figueiredo Marques
Do ponto de essência, em Lisboa, a Cebolais de Cima, em Castelo Branco, local de origem, distam 235 km: o espectáculo Digging Deeper On: Onion Fields From Above é uma performance em extensão que faz esse percurso de ida e de regresso, em duas partes com duração simbólica, equivalendo a distância em tempo. Com base no existencialismo (A Náusea de Sartre e ensaios filosóficos de Vergílio Ferreira) e nas linguagens das artes visuais e performativas, a performance de Miguel Ferrão Lopes teve apresentação no Teatro do Bairro em 13 e 14 de Dezembro.
Sartre defende que a existência precede a essência, a realidade precede o pensamento e a vontade humana precede a inteligência. O ser humano nasce vazio no mundo, como um ser indefinível. Forma-se através da sua liberdade, condicionada pela existência concreta. O humano é angústia, medo e pânico. A náusea toma conta dos corpos, que se rebelam e expõem num frenesim de quadros, contrastando a aparente lentidão com a sofreguidão visceral. Onion Fields From Above faz dialogar o excesso com a ilusão.
Este é um espectáculo esdrúxulo (versão completa com duração de 8h) que compreende ficcionalização a partir da biografia concreta do director artístico, Miguel Ferrão Lopes, e dos intérpretes co-criadores. A isso junta-se a hibridização de géneros artísticos: instalação, performance, espectáculo, cada uma convocando o público para distintos papéis, como destinatário, testemunha, cúmplice.
A peça tem dois momentos (a peregrinação e o jantar) e dois ímpetos (a paisagem e o movimento), catapultando o objecto e o corpo como os materiais cénicos essenciais. A primeira parte (4h) corresponde a uma peregrinação, como se o indivíduo fizesse uma viagem desde o seu local de agenciamento (escolhas, descobertas, identidades). Por esse caminho solitário, em ascese, o corpo é mudo, e é acompanhado por uma sonoplastia que faz lembrar pedreiras a escavar, sons metálicos e água corrente (criação sonora de Fábio Musqueira e Afonso Gaspar). Pelo meio, outros corpos são descobertos e a cena transforma-se numa romaria, festa popular e com cunho colectivo, que desagua numa rave profana. O cenário é o de uma casa estropiada. O sujeito é espelhado num recheio de móveis, utensílios, livros, perucas, roupas, papéis, jogo do monopólio, negativos de fotografias. A casa que foi transforma-se num mapa de memórias, emoções, conquistas – tudo revolto. E cada um desses objectos, apalpados (por cor, cheiro, textura) e rememorados, parece supor uma história invisível.
A segunda parte (mais estamina de 4h horas), um longo momento à mesa de jantar, iniciado numa galeria de arte, é pautado por uma voz off que activa e comanda os quatro performers: corram, caiam, gatinhem, falando ao íntimo de cada um. Culminando numa espécie de apocalipse que tudo apaga por cima dos destroços, a última coisa a extinguir-se é justamente a voz, electrónica, que sobrevém até aos corpos. Tudo talvez esteja já previsto; marionetas da sociedade, do desejo ou do poder, cumprimos um discurso tanto interior como exterior que nos anima. As cenas de subjugação, perseguição e escárnio, oscilantes entre o absurdo e a violência, às vezes de modo comovente, expõem a desumanização da contemporaneidade: como posso tirar proveito do corpo e dos sentimentos do outro, e dos meus próprios?
O ímpeto de paisagem assenta na organização espacial, parafernália objectual em tempos caótica e em tempos escrutinada. Guardamos flashes na retina. Um manto pontuado e indefinido que, do terreno, se erguerá em figuras densas, esculturas ao alto. Ou, já na segunda parte do espectáculo, o corpo nu e desfigurado, enquadrado no chariot (qual um frame de cinema), suspenso por um braço. Ao longo das oito densas horas, o movimento é imparável (excepto num único momento irrespirável de still nos corpos frementes). Tudo está em mutação permanente. Mesmo quando parece que o mínimo acontece e a seguir repete, a verdade é que nada nunca está quieto. A aparente imobilidade esconde a impermanência, que é a força motriz, seja da performance, seja da vida. No entanto, essa inconstância apresenta também outra face: o inconseguimento incessante. Os corpos tentam falar, tentam caminhar, tentam incumprir e não o podem. Repetem.
Após a peregrinação da primeira parte, e encontrada uma origem, mais ontológica do que explicativa, na segunda parte, o corpo é um manancial de vitalidade, sem concessões ou bons sentimentos. Faz um mergulho no sensorial, as veias são visíveis, a pulsão que, nascida numa fáscia muscular, é explicitada e exibida sem pudores. A crueldade do corpo masoquista está sempre a dar: é uma dádiva vital. E do corpo mínimo nasce o corpo extraordinário, fora de qualquer quotidiano – mas sempre invocado – é um corpo sublime que se quer expandir, evadir e ressignificar. É um corpo concreto (que urina, fode e cospe) e se associa às suas alteridades, convoca imaginários, a memoração, os anseios.
Por metonímia, condensemos o carácter duracional da performance numa sequência. Quatro corpos, de início, todos acima do nível da terra (como se tivessem algo de gasoso, sem fronteiras definidas) que posam, exibem, arriscam entre balanços e hesitações, num efeito de contiguidade entre eles. O corpo de mulher lava-se na terra. Um banco preto é cavalgado e armazena cebolas. O mesmo banco que é gozo. Carla Madeira, imaculada ou vénus, adorada e condicionada – e tantas telas contidas, examinadas e retorcidas – é rodeada por Julian Sanchez, Gustavo Antunes e Miguel Ferrão Lopes, todos em estado de graça, uivo e viço. É uma lição de história da arte, não fugindo ao promíscuo, ao genital e o male gaze obsceno, amoral.
E, por último, as cebolas (e num espectáculo anterior, o mote foi a batata). As cebolas. Que rebolam, estão em todo o lado, que são pisadas, cozinhadas. As cebolas e os limões são comida que faz chorar. São acres e ácidos. As cebolas mamas, as cebolas testículos; a terra púbis. A existência na essência do desnudamento. E sempre à espreita: o encantamento.
Com apoio da DGARTES e da Fundação GDA, Onion Fields From Above, em 2026, será apresentado em 12 de Fevereiro no Teatro Municipal da Covilhã e em 13 de Março na Fábrica da Criatividade de Castelo Branco, instituições co-produtoras. Miguel Ferrão Lopes será artista associado d’A Bela Associação em 2027-2028.

BIOGRAFIA
António Figueiredo Marques escreve ensaios, folhas de sala e artigos sobre artes performativas, aliando as componentes artísticas e teóricas. Reflecte sobre a montagem dramatúrgica e os modos de composição cénica, estudando as dimensões visuais, sonoras, do corpo e intermédia no plano da performance contemporânea. É Investigador no ICNOVA, doutorado em Comunicação e Artes (NOVA FCSH) e co-editor do site sobre artes performativas e performatividades expandidas CRATERA | Performance & Cognição. Enquanto performer, faz regularmente formação com Mónica Calle, Yael Karavan, Renato Ferracini, Miguel Moreira, Tiago Vieira, Jorge Silva Melo, Miguel Loureiro, entre outros.
PUBLICIDADE
Anterior
article
A dupla Miguel Teodoro & Shuang Xu é a vencedora da OpenCall para a residência artística UmbigoLAB @ Loulé Criativo
22 Dez 2025
A dupla Miguel Teodoro & Shuang Xu é a vencedora da OpenCall para a residência artística UmbigoLAB @ Loulé Criativo
Por Umbigo
Próximo
article
O céu, sol, chuva, chuva, chuva: Luísa Correia Pereira no Panteão Nacional
23 Dez 2025
O céu, sol, chuva, chuva, chuva: Luísa Correia Pereira no Panteão Nacional
Por Dela Christin Miessen