Sartre defende que a existência precede a essência, a realidade precede o pensamento e a vontade humana precede a inteligência. O ser humano nasce vazio no mundo, como um ser indefinível. Forma-se através da sua liberdade, condicionada pela existência concreta. O humano é angústia, medo e pânico. A náusea toma conta dos corpos, que se rebelam e expõem num frenesim de quadros, contrastando a aparente lentidão com a sofreguidão visceral. Onion Fields From Above faz dialogar o excesso com a ilusão.
Este é um espectáculo esdrúxulo (versão completa com duração de 8h) que compreende ficcionalização a partir da biografia concreta do director artístico, Miguel Ferrão Lopes, e dos intérpretes co-criadores. A isso junta-se a hibridização de géneros artísticos: instalação, performance, espectáculo, cada uma convocando o público para distintos papéis, como destinatário, testemunha, cúmplice.
A peça tem dois momentos (a peregrinação e o jantar) e dois ímpetos (a paisagem e o movimento), catapultando o objecto e o corpo como os materiais cénicos essenciais. A primeira parte (4h) corresponde a uma peregrinação, como se o indivíduo fizesse uma viagem desde o seu local de agenciamento (escolhas, descobertas, identidades). Por esse caminho solitário, em ascese, o corpo é mudo, e é acompanhado por uma sonoplastia que faz lembrar pedreiras a escavar, sons metálicos e água corrente (criação sonora de Fábio Musqueira e Afonso Gaspar). Pelo meio, outros corpos são descobertos e a cena transforma-se numa romaria, festa popular e com cunho colectivo, que desagua numa rave profana. O cenário é o de uma casa estropiada. O sujeito é espelhado num recheio de móveis, utensílios, livros, perucas, roupas, papéis, jogo do monopólio, negativos de fotografias. A casa que foi transforma-se num mapa de memórias, emoções, conquistas – tudo revolto. E cada um desses objectos, apalpados (por cor, cheiro, textura) e rememorados, parece supor uma história invisível.
A segunda parte (mais estamina de 4h horas), um longo momento à mesa de jantar, iniciado numa galeria de arte, é pautado por uma voz off que activa e comanda os quatro performers: corram, caiam, gatinhem, falando ao íntimo de cada um. Culminando numa espécie de apocalipse que tudo apaga por cima dos destroços, a última coisa a extinguir-se é justamente a voz, electrónica, que sobrevém até aos corpos. Tudo talvez esteja já previsto; marionetas da sociedade, do desejo ou do poder, cumprimos um discurso tanto interior como exterior que nos anima. As cenas de subjugação, perseguição e escárnio, oscilantes entre o absurdo e a violência, às vezes de modo comovente, expõem a desumanização da contemporaneidade: como posso tirar proveito do corpo e dos sentimentos do outro, e dos meus próprios?
O ímpeto de paisagem assenta na organização espacial, parafernália objectual em tempos caótica e em tempos escrutinada. Guardamos flashes na retina. Um manto pontuado e indefinido que, do terreno, se erguerá em figuras densas, esculturas ao alto. Ou, já na segunda parte do espectáculo, o corpo nu e desfigurado, enquadrado no chariot (qual um frame de cinema), suspenso por um braço. Ao longo das oito densas horas, o movimento é imparável (excepto num único momento irrespirável de still nos corpos frementes). Tudo está em mutação permanente. Mesmo quando parece que o mínimo acontece e a seguir repete, a verdade é que nada nunca está quieto. A aparente imobilidade esconde a impermanência, que é a força motriz, seja da performance, seja da vida. No entanto, essa inconstância apresenta também outra face: o inconseguimento incessante. Os corpos tentam falar, tentam caminhar, tentam incumprir e não o podem. Repetem.
Após a peregrinação da primeira parte, e encontrada uma origem, mais ontológica do que explicativa, na segunda parte, o corpo é um manancial de vitalidade, sem concessões ou bons sentimentos. Faz um mergulho no sensorial, as veias são visíveis, a pulsão que, nascida numa fáscia muscular, é explicitada e exibida sem pudores. A crueldade do corpo masoquista está sempre a dar: é uma dádiva vital. E do corpo mínimo nasce o corpo extraordinário, fora de qualquer quotidiano – mas sempre invocado – é um corpo sublime que se quer expandir, evadir e ressignificar. É um corpo concreto (que urina, fode e cospe) e se associa às suas alteridades, convoca imaginários, a memoração, os anseios.
Por metonímia, condensemos o carácter duracional da performance numa sequência. Quatro corpos, de início, todos acima do nível da terra (como se tivessem algo de gasoso, sem fronteiras definidas) que posam, exibem, arriscam entre balanços e hesitações, num efeito de contiguidade entre eles. O corpo de mulher lava-se na terra. Um banco preto é cavalgado e armazena cebolas. O mesmo banco que é gozo. Carla Madeira, imaculada ou vénus, adorada e condicionada – e tantas telas contidas, examinadas e retorcidas – é rodeada por Julian Sanchez, Gustavo Antunes e Miguel Ferrão Lopes, todos em estado de graça, uivo e viço. É uma lição de história da arte, não fugindo ao promíscuo, ao genital e o male gaze obsceno, amoral.
E, por último, as cebolas (e num espectáculo anterior, o mote foi a batata). As cebolas. Que rebolam, estão em todo o lado, que são pisadas, cozinhadas. As cebolas e os limões são comida que faz chorar. São acres e ácidos. As cebolas mamas, as cebolas testículos; a terra púbis. A existência na essência do desnudamento. E sempre à espreita: o encantamento. Com apoio da DGARTES e da Fundação GDA, Onion Fields From Above, em 2026, será apresentado em 12 de Fevereiro no Teatro Municipal da Covilhã e em 13 de Março na Fábrica da Criatividade de Castelo Branco, instituições co-produtoras. Miguel Ferrão Lopes será artista associado d’A Bela Associação em 2027-2028.