A Estação da Luz e a Baixada Santista
Em março de 1901, na cidade de São Paulo, foi inaugurada a Estação da Luz. Construída sob influência vitoriana pela empresa inglesa São Paulo Railway Company, a estação é um exato reflexo do gosto anglófilo e francófilo, que influenciou diretamente a estética brasileira antes da Segunda Grande Guerra, e da ascendência global estadunidense. No caso específico de São Paulo, esta estética foi financiada pelas elites cafeeiras.
Alguns desdobramentos estéticos desta elite podem ser vistos do outro lado da rua da Estação da Luz: na Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde são expostas pinturas de caipiras acadêmicas e realistas do final do século XIX e início do século XX. A Pinacoteca também abriga a obra Antropofagia (1929), de Tarsila do Amaral, artista que talvez seja a maior representante dos filhos dessa elite cafeicultora. Estes “filhos da elite do café” buscaram um tipo de modernidade, uma certa negação ao caipira apresentado na geração passada. Foi diante da problematização deste cenário anglófilo que derivou a célebre frase de Oswald de Andrade: “tupi or not tupi, that is the question”.
Contextualizo este cenário para que o leitor português possa compreender as peculiaridades do solo em que germina o Museu da Língua Portuguesa, localizado justamente na Estação da Luz, que foi vítima de um terrível incêndio em 2015 e, felizmente, reinaugurado em 2021. Um museu que realiza seu gesto curatorial a partir das variações da língua portuguesa.
É neste local que a exposição Funk: um grito de ousadia e liberdade acontece até 30 de agosto de 2026.
À luz deste contexto, e antes de me debruçar sobre a exposição, parece-me pertinente recuperar um paralelismo: enquanto em fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo, os modernistas brasileiros faziam sua famosa Semana de Arte Moderna, no mesmo ano, “os pais, tios e avós desses modernistas”, inauguraram a Bolsa Oficial de Café de Santos, onde hoje se encontra o Museu do Café.
Refiro-me aos Santos e a outros paralelos históricos, pois Funk: um grito de ousadia e liberdade refere, de alguma forma, um tipo de antropofagia. Uma conquista da liberdade que estabelece uma relação direta com passado escravagista sustentado, em especial, por essa elite cafeeira. De igual forma, a exposição também reflete a absorção de uma cultura black e hip hop oriunda dos Estados Unidos que, ao chegar à Estação da Luz, ganhou um recorte contemporâneo.
Códigos e signos sociais na Luz
Com um gesto curatorial sem espaço para ruídos, a exposição mostra uma expografia bem demarcada, com muitos textos e vídeos e fincada em dois núcleos: um primeiro, focado na própria estação vitoriana da Luz, apresentando um contraste poético com os transeuntes e a arquitetura - em especial no palco improvisado com caixas de cerveja (2023) de Deize Tigrona e nas roupas, guarda-chuvas e fotografias que buscam o direito de narrar o seu próprio tempo.
Nesta ideia de reivindicar a narrativa de seu próprio tempo, o funk é apresentado como fruto do maculelê, como tecnologia ancestral reivindicada pela juventude negra.
Este primeiro momento da exposição é um preparativo para o que será apresentado ao visitante após passar pelas bilheterias do Museu da Língua Portuguesa e acessar o segundo e principal núcleo da exposição.
O cubo negro
Com curadoria de Taísa Machado, Dom Filó, Amanda Bonan, Marcelo Campos e Renata Prado, Funk: um grito de ousadia e liberdade apresenta paredes escuras e um ritmo de obras e de informação intenso. O gesto curatorial propõe o exato oposto ao minimalismo e ao white cube, comumente usado em museus, galerias e bienais para valorizar os objetos, construindo um cubo negro - um espaço imersivo que, a meu ver, funciona muito bem.
Neste cenário, a exposição articula a história do funk para além da sua sonoridade, evidenciando sua origem na matriz cultural urbana, periférica, a sua dimensão coreográfica. As comunidades, e os seus desdobramentos estéticos, políticos e econômicos ao imaginário constituído em torno dele.
O contexto histórico da cultura funk é apresentado numa narrativa que começa com uma perspectiva carioca da cultura black nas décadas de 1960, 70 e 80 - período simbolizado pela maravilhosa fotografia de James Brown e Wilson Simonal, registrada em 1973 por Alfredo Rizzutti -, e se estende até os anos 1990, quando o funk passa a consolidar características próprias e a afirmar-se como “funk brasileiro”.
Trata-se de um gênero que dialoga diretamente com referências estadunidenses, mas que, ao longo do tempo, incorpora elementos locais e adquire uma identidade própria, mais abrasileirada, mais “atabacada”. O funk pode ser entendido, assim, como o resultado da transformação de uma música negra estadunidense ao ser recriada no Brasil. Se a própria palavra “Brasil” remete a “brasa”, o funk brasileiro também se apresenta como portador de um calor adicional: mais intenso, mais rítmico, mais marcado por suas experiências sociais e culturais.
Esta exposição, que esteve patente no MAR - Museu de Arte do Rio, ganha em São Paulo um pouco mais de diversidade: somam-se recortes sobre o funk bruxaria, o funk ritmado e a tabacada. Funk: um grito de ousadia e liberdade chega ao Museu da Língua Portuguesa sob uma perspectiva plural, tendo a linguagem como eixo central - palavras, gírias e sotaques - e resultando em um trabalho estético com foco na linguística, na memória oral e escrita e nas múltiplas expressões do dialeto.