É espantosa, a capacidade que a arte contemporânea tem de abraçar o anacronismo, de misturar tempos, fazê-los comprimir num mesmo espaço e captar uma memória temporal que é sempre trabalhada pelo olhar de cada um, pelo toque de cada um. Porque a arte contemporânea fez da autoria matéria fragmentária – ou, melhor ainda, partilhada – entre artista e espectador. Não há fronteiras nem apriorismos; tudo comunga da contaminação e perpétua indagação sobre as questões da arte e da vida, plena de acasos, acidentes, coincidências e acontecimentos que acrescentam sempre mais um rasto ao que quer que seja. E se algum a priori existir, é que a arte é um contínuo devir: sempre em formação e para sempre em formação, mercê desse nexo dialógico que estabelece com o espectador, os espaços que a acolhem e as obras que com ela comungam os ares do tempo.
Vem isto a propósito da exposição O tempo maior que o tempo, com a curadoria de Ana Anacleto e as obras de Paula Prates e Rita Gaspar Vieira, cuja monumentalidade espelha essa incomensurabilidade do tempo, ou, se preferirmos, do tempo da arte. Ambas fazem do desenho matéria de investigação, embora com práticas e resultados muito distintos.
A cesura com a diacronia e a sincronia do tempo, dentro de uma atemporalidade que é em tudo omnitemporal, é particularmente notória nas instalações de Rita Gaspar Vieira e nas situações que criou durante a inauguração. Copos com uma mistura opalina de algodão e água aguardam expectantes a entropia da vida e o movimento desordeiro dos corpos. Vários foram os que se entornaram com um tropeção inadvertido de um ou outro espectador, vertendo esse líquido sobre o chão, para assim reclamar um momento de atenção para si e para o que ali nos levou. O tempo e a evaporação tratam do resto… e, justamente, do rasto. A película de papel que resulta destas situações testemunha um dia, uma hora e um momento específico, em que a arte saiu de si mesma para ser qualquer outra coisa – a vida. O modo como as obras estão dispostas sublinha esse “movimento”, como diz Jacques Ranciére em As Viagens da Arte (2024), esse “movimento”, dizia-se, “da vida para a vida”. Não admira que as obras tenham um caráter gigantesco, pois que “o fim da arte”, ainda de acordo com Ranciére, “é abrigar a vida”.
De facto, o chão tem sido o grande plano de trabalho de Gaspar Vieira, que sobre ele espalha a pasta de papel, para depois remover a pele enxuta desse gesto e assim retirar o desenho de uma superfície calcorreada pelo tempo, batida pelo caminhar de transeuntes, gasta pelo arrastar dos corpos. Essa pele é uma película da vida a acontecer. E é também o levantamento de um lugar cheio de identidade, cinetismo, vitalidade. É interessante imaginar o movimento da pasta de papel e da água sobre esses planos; observar de perto a forma de uma fenda coberta pelo papel, a poeira, a cor e a malha reticulada de revestimentos cerâmicos. Ver o movimento da água e da pasta escorrer pelos orifícios do edificado e, deste modo, reter uma infraestrutura que é tanto de construção como de fluxos humanos, ocupações e trabalho.
Há sem dúvida um compromisso sério nestas obras com a materialidade do desenho, mas há também um entendimento profundo sobre a arquitetura dos espaços e o heraclitismo do tempo. Ver as instalações à luz do dia, deixando que a transparência do pavilhão seja parte integrante das obras, é uma experiência em tudo diferente da da noite. De dia, temos os raios solares que penetram os janelões e incidem sobre essas peles de algodão: a finura e delicadeza destes filmes nunca antes foram tão bem expostas. Neste contexto, em Gaspar Vieira há claramente uma leitura que vem de fora para dentro durante o dia. E durante a noite acontece o inverso. A intimidade da obra, os espaços privados que os lençóis e pregas comportam, ganham outra exuberância sob as luzes da galeria e o grande pano envidraçado do pavilhão, que acrescenta um brilho sobre a imagem do olhar de fora para dentro. Há, portanto, um evidente interesse na interpretação do espaço e na experiência percetiva do mesmo.
Em Paula Prates esse entendimento é em tudo diferente. O diálogo com o espectador existe, mas agora de um ponto de vista passivo. A gestualidade das pinceladas sobre o papel é vestígio de um corpo e de um corpo apenas. O desenho serve aqui de registo de uma coreografia ensaiada pelo corpo da artista, desmultiplicando-se entre rolos de papel vários e cadernos. Há, todavia, um interesse partilhado pelo espaço: a performance explora o que não pode deixar de ser visto como um exercício que procura cuidar, emendar, curar um espaço que cede à gravidade e que mostra uma série de fendas e rachaduras no pavimento – marcas da sua ocupação, produtos de um lugar deformado pelos dias. Em Prates há essa tensão muito presente e muito humana de tentar comportar o tempo, para depois nos deixarmos levar por ele. Em certos momentos, o tempo é maior que o tempo da humanidade – é um tempo profundo (deep time), que a artista tenta auscultar com triangulações em tudo semelhantes a cristalizações, como se o tempo fosse, na verdade, uma pedra-testemunho, feita com todos os sedimentos de uma era.
O resultado é uma simetria na forma de ler o tempo e o espaço: se em Gaspar Vieira temos a ossatura e estrutura de uma vida feita de contingências, em que a obra e os levantamentos espaciais transcendem o solipsismo do ato criativo, em Prates temos uma visão individual do processo criativo e da experiência dos lugares. Ambas válidas e ambas complementares.
O tempo maior que o tempo está patente no Pavilhão Branco das Galerias Municipais de Lisboa até 15 de março de 2026 e conta com a curadoria de Ana Anacleto.