A superstição é um adereço útil para esta visita. De aí, a entrada com o pé direito ser inevitável no antigo Casino de Sintra — agora o Museu das Artes de Sintra —, que, na verdade, não chegou a cumprir a sua função por falta de obtenção da licença de jogo. À entrada, mesmo em frente, está a construção que nunca foi, num suposto início marcado pelos pedaços de mármore encaixados uns nos outros por José Pedro Croft. A linha ténue em que se decide a sorte e o receio de um infortúnio que paira no ar, que não deixa de fazer cócegas a um certo presságio…
Terá o jogo perdido contra si mesmo? É a pergunta que se esconde entre as ruínas, na labuta e no charme do edifício, agora recuperados pelas fotografias históricas provenientes do Arquivo Municipal de Sintra, em mostra no seguimento do percurso, já no 1.º piso. É assim que Hugo Dinis evoca a construção do novo plano de ação, da atmosfera de jogo, o campo pronto a estrear, cujas linhas criativas nos fornecem estratégias e manhas. Em constante atividade, exploram-se as nove mutações entre o limite do lúdico e do formal, o ócio e o negócio em que o jogo muitas vezes pode tornar-se e em que, independentemente do lado em exercício – e que me perdoe Jorge Perestrelo —, somos nós quem andamos e corremos para ditar o final da partida (se é que o há), e não o tempo.
E, por definição, se há jogo, existirão regras…
Aqui, no entanto, não será tão linear quanto isso. Seguindo pelas salas onde as jogatanas se adensam, rapidamente se descobre que não existem normas que governem tamanha arena, mas, se assim o quisermos, construímo-las. Seja por baixo ou por cima da mesa, são fornecidas chamadas, pistas, sinais diretos ou indiretos, jogos dentro de jogos, que, de quando em quando e perspicazmente, nos vão convencendo com o seu bluff… Na verdade, jogar é de facto estar num mundo fora deste, ilusório, inventivo. Recordando Italo Calvino, que olhava o jogo como vitamina essencial para o ato de criação, ou cocriação, este será um espaço para se assumirem narrativas, novas histórias a partir de cartadas ou das contas que saem nos dados. Somos adversário também.
É precisamente neste ato colaborativo, que define a ideia de jogo, que se integra o projeto New Age Kids, de Pauliana Valente Pimentel. A primeira artista convidada para o ciclo Joga o Jogo tem vindo a desenvolver este trabalho desde 2023, no âmbito do seu doutoramento em Arte Contemporânea pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, começando por documentar/retratar fotograficamente um grupo de 12 jovens queer — que são o círculo próximo do próprio filho —, em processos de metamorfose identitária. No trabalho conjunto com o grupo, ainda em progresso, através de trocas de cartas, desenhos de autorretrato e máquinas fotográficas descartáveis que a artista dá aos jovens, estabelecem-se relações de proximidade e intimidade, gritantes nas imagens ao longo da exposição. O dia a dia, a integração e relação com os ambientes que rodeiam o grupo e a busca pelos pormenores que moldam os processos de transformação e descoberta contam um entrelaçar de histórias que vão construindo estes novos tempos.
O exercício de incorporar as fotografias ao longo da exposição para o diálogo com outras peças esboça o “jogo curatorial” com Hugo Dinis, que vai além de escolhas visuais, empáticas, existenciais ou de relações mais ou menos próximas. Afinal, o fazer exposições não é apenas mostrar peças, mas sim cuidar essa atividade e respeitá-la como máximo trunfo que é.
Com obras de Ana Jotta, Ana Vieira, Ana Vidigal, Bruno Pacheco, Bruno Zhu, Fernanda Fragateiro, Gaëtan, Helena Almeida, João Penalva, João Vieira, Joaquim Rodrigo, José Pedro Croft, Júlia Ventura, Leonor Antunes, Lourdes Castro, Luísa Correia Pereira, Luísa Cunha, Noronha da Costa, Pauliana Valente Pimentel, Pedro Cabrita Reis e Susanne Themlitz, a exposição Partida…, primeira parte do ciclo de exposições Joga o Jogo, com curadoria de Hugo Dinis, está patente no MU.SA — Museu das Artes de Sintra até 31 de agosto.