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Poderia o amor ser isto? Entre o Céu e a Terra, de Mónica Calle
DATA
24 Jun 2025
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AUTOR
António Figueiredo Marques
Inserida na exposição colectiva "... e o peru fugiu!", com curadoria de Inês Valle, a performance "Entre o Céu e a Terra" de Mónica Calle (Companhia Casa Conveniente), apresentada nas Carpintarias de São Lázaro (22 a 25 de Maio e 7 de Junho), cria um acontecimento sensorial com várias camadas.
Esta performance é a segunda iteração após a sua apresentação no âmbito da bienal de artes contemporâneas BoCA em 2021 nas dunas da praia 19, na Costa da Caparica. É uma viagem com várias viagens no seu interior. Primeiro, uma peregrinação a Santiago de Compostela que as actrizes realizaram, capacitando os seus corpos de um manancial físico, espiritual e terreno. Também o misterioso cubo branco (cenografia de Nadir Bonaccorso), onde os espectadores são convidados a entrar, viaja das dunas para o espectáculo O Lugar do Meio-Dia (Teatro do Bairro Alto, 2021) e instala-se agora na cave das Carpintarias, recebendo os imaginários de liberdade e de imaginação poética. Viagem é também o percurso que o espectador faz, começando no terraço do edifício das Carpintarias, passando pelas peças da exposição patente nas galerias, até ao piso subterrâneo. Percurso arquitectónico, artístico e emocional – o eu é inescapável.
O início no exterior – vista abrangente sobre a cidade, o esplendor da luz, a força do vento – tem continuidade ao atravessar a monumental arquitectura do edifício. Uma impactante geometria de betão povoada de cores, formas, sobreposições. Circulamos pelo meio dos 51 cravos suspensos (Atelier Contencioso – Ana Velez, Joana Gomes e Maria Sassetti), paramos para ver as encadernações dos Diários da República dispostas com a coluna de cimento ao centro (Nuno Nunes-Ferreira). Descemos mais um piso. Reduz o contacto com o bulício lá fora. A viagem, em seguida, dirige-se a um local de penumbra. Viagem que vem a culminar num mergulho dentro de nós. Rapidamente a ambiência muda. Os olhos habituam-se à escuridão. Os nossos gestos ficam também mais lentos. Suavemente, os sentidos são guiados pelo som do marulhar, sempre presente, e pela luz da projecção de vídeo: o adejar das mãos que, como por magia, bailam junto à rebentação das ondas. Um breve temor percorre os olhos dos nove espectadores. Estamos a chegar a um novo território do desconhecido.
As três performers recebem-nos de modo gentil. Ali no canto, o cubo branco chama a nossa atenção – uma mancha alva é o ponto de fuga da paisagem no escuro. Entramos nesse alvéolo. É um abrigo? É um cárcere? Como à superfície pouco parece acontecer, viramo-nos para o dentro, para o mínimo do gesto e da sensação. Um a um, cada espectador vai saindo de dentro deste cubo. Fiquei, por último, a olhar da pequena janela para o espaço escuro. Sozinho. Cada vez mais envolvido pelas ondas.
Posso vendar-te? diz ela. Sabemos que este é um ponto sem retorno. Perdemos o norte, imergimos na dupla vulnerabilidade. Aceitar que alguém pode fazer-nos mal é também uma permissão para o amor e para o prazer. É a aporia do estar em fragilidade: deixo-me estar permeável à aventura da sensorialidade por me encontrar no lado dos vivos.
Entre o Céu e a Terra é uma performance para ver sem os olhos mas com a plenitude dos sentidos, fora de um regime do controlo e do evidente. Exponenciam o toque, o gosto, o olfacto, a audição. Explora-se o mundo sob o amparo de um corpo desconhecido, através dos sentidos considerados menos nobres e fiáveis, e por isso mais íntimos e profundos. O roçar pele com pele – o arrepio. A aspereza da parede – a inclemência. A frescura e o doce do fruto – a libido na língua. As pernas trôpegas, o chão bambo – a infância e o cuidado. Neste passo, de olhos fechados, chegamos à lucidez do sonho, isto é, compreendemos o que a racionalidade sóbria não é capaz.
Sem ver através dos olhos, os canais da visão alcançam lembranças e evocações. A recordação do amor de Verão, o sexo ilícito na duna, a perda de alguém querido, um esconso esquecido do quarto da memória assalta toda a carne em frémito. A mudez das palavras traduz toda uma espiral de sensações e emoções. Estão vendados os óculos da certeza, e estão céleres os instrumentos dos afectos.
Em êxtase de propriocepção difusa e apaixonada, estou deitado e percebo que há uma contiguidade de corpos, membros, ossos. Os teus cabelos, a tua pele, a tua bacia, diz ela. A palavra dita e o livro manipulado tornam-se carne e sussurro. O discurso e a voz volvem-se pulsão e respiração. As histórias que ouvimos são as palavras de Emily Dickinson, Rui Chafes (que empresta título à performance), Fiama Hasse Pais Brandão, Maria João Ceitil que as actrizes Mónica Calle, Mónica Garnel e Mafalda Jara entregam aos seus amantes vendados. Como uma carta, como um segredo. Prenhes de ternura e desejo. Poderia o amor ser isto?

O autor não escreve ao abrigo do AO90.
BIOGRAFIA
António Figueiredo Marques escreve ensaios, folhas de sala e artigos sobre artes performativas, aliando as componentes artísticas e teóricas. Reflecte sobre a montagem dramatúrgica e os modos de composição cénica, estudando as dimensões visuais, sonoras, do corpo e intermédia no plano da performance contemporânea. É Investigador no ICNOVA, doutorado em Comunicação e Artes (NOVA FCSH) e co-editor do site sobre artes performativas e performatividades expandidas CRATERA | Performance & Cognição. Enquanto performer, faz regularmente formação com Mónica Calle, Yael Karavan, Renato Ferracini, Miguel Moreira, Tiago Vieira, Jorge Silva Melo, Miguel Loureiro, entre outros.
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