Para muitos, o Prémio Novos Artistas Fundação EDP é a primeira oportunidade de trabalhar num contexto institucional, com acesso a um espaço expositivo de maior escala e, sobretudo, mais visibilidade — permitindo que um público vasto fique a conhecer os artistas finalistas. Num contexto em que a maioria dos artistas trabalha à margem das instituições, sem contratos, sem rendimentos estáveis e com recursos próprios limitados, esta oportunidade representa, para o vencedor, um alívio à pressão económica que condiciona a produção artística. O prémio, no valor de 20 000 euros, permitirá ao artista dedicar-se à prática com maior autonomia e tempo, e produzir sem ceder à urgência do mercado.
O prémio que nasceu no ano 2000 teve como primeira vencedora a artista Joana Vasconcelos, seguindo-se de outros nomes que marcam a cena artística contemporânea em Portugal, como Leonor Antunes (2001), João Maria Gusmão e Pedro Paiva (2004), e mais recentemente Diana Policarpo (2019) ou, a última vencedora, Adriana Proganó (2022). Nesta edição de 2024, entre mais de seis centenas de candidaturas, foram seis os artistas finalistas selecionados — Alice dos Reis, Evy Jokhova, Francisco Trêpa, Inês Brites, Maja Escher e Sara Chang Yan.
A exposição que reúne os seis finalistas desta edição, ocupa o MAAT como um organismo vivo que preenche o espaço, mas também o reconfigura — e, nesse gesto, as linguagens tradicionais dissolvem-se para dar lugar a obras multidisciplinares. As práticas que vemos alimentam-se de vários lugares em simultâneo: da terra, do corpo, dos objetos, da história e da ficção. É, sobretudo, um espaço fluído, dinâmico e coletivo, onde as obras conversam entre si.
Caminhar, ajoelhar, tocar — são ações evocadas na obra de Maja Escher, que constrói um ambiente imersivo onde é convocado um envolvimento sensorial do corpo. As suas peças, suspensas ou pousadas no chão, propõem uma aproximação ritual à matéria, evocando práticas comunitárias, agrícolas ou espirituais. O recurso à cerâmica, a fibras vegetais e tecidos tingidos com pigmentos de terra, traduz uma ecologia do gesto: lenta, cíclica, sensível. Há uma recusa clara da linguagem formalista e uma aproximação a praticas ancestrais, onde fazer e saber são inseparáveis. As peças ativam a memória do corpo numa prática de escuta e celebração da natureza que aproxima o espaço do museu à paisagem. Escher não representa o mundo, mas cultiva condições para habitá-lo de outro modo. Inês Brites, por outro lado, trabalha a partir de materiais industriais — silicone, resina, motores — para criar esculturas que subvertem a familiaridade e a funcionalidade associadas aos objetos da casa de banho. Nesse espaço doméstico de manutenção do corpo, a artista transcende o uso comum da torneira, lavatório, banheira ou bidé para dar-lhes uma dimensão sensorial e ambígua, que os torna estranhos e extremamente sedutores. Os objetos parecem emitir uma frequência silenciosa dirigida ao corpo — uma espécie de convite ao toque. As peças articulam-se como se fizessem parte de um circuito fechado, contínuo, sugerindo uma coreografia interna, como se no seu interior operasse uma espécie de sistema secreto que só a artista tem acesso. A lógica do quotidiano é perturbada — as esculturas não organizam o mundo, mas abrem fendas no que nos é familiar. A obra de Francisco Trêpa evoca as torres de alta tensão onde as cegonhas constroem os seus ninhos — imagens de um equilíbrio entre natureza e infraestrutura, entre o ritual de nidificação e os circuitos elétricos dos lugares. As cegonhas que vemos são híbridas, fantásticas, entidades liminares mutantes, alheias a categorias de género ou espécie, que se inserem nos chamados “polinizadores” que o artista tem vindo a desenvolver. A cerâmica emerge como uma tecnologia do cuidado, contribuindo para a construção de um sistema simbólico. Neste gesto, a escultura torna-se uma forma de imaginar outros modos de vida, reinventado as relações entre seres, ambiente e ruína. Reimaginar a cegonha, símbolo da vida e do nascimento, é um ato poético que convida a repensar a ideia de começo, existência e resistência. Questionar o território acontece também com Evy Jokhova, que o interroga a partir de formas de habitar precárias, móveis e transitórias. A artista parte do caranguejo-eremita — um animal que se desloca de concha em concha à medida que cresce — como metáfora para uma pertença instável. Essa imagem convoca quem vive em trânsito, à margem, sem lugar fixo ou direito a uma casa. A escultura têxtil que desce do teto, ampla e ondulante, desenha no espaço uma tenda quase como pele ou membrana, que acolhe e abriga. A leveza do gesto contrasta com a densidade política do que evoca: o direito à habitação. A artista coreografa um lugar provisório que convida à aproximação, um abrigo e gesto escultórico que se torna forma de cuidado. Com um gesto simultaneamente poético e político, Alice dos Reis recupera o olhar de quem, na sombra, mapeou o céu. O vídeo que expõe, narrado na primeira pessoa, apresenta alguém que recorda a sua vida passada enquanto freira envolvida na catalogação da Carte du Ciel (Mapa do Céu) — um projeto astronómico internacional iniciado no final do século XIX, que tinha o objetivo de mapear e catalogar milhões de estrelas. A artista honra este trabalho meticuloso que era em grande parte realizado por mulheres, mas que historicamente permanece invisível. Mostra-nos também uma tapeçaria que acompanha o mesmo imaginário: um grupo de freiras, algumas grávidas, ou acompanhadas por gatos, caminham em direção a uma entidade celeste, não um anjo, mas um ovni. A espiritualidade, a imaginação e a poesia, afirmam-se como formas indissociáveis de resistência e de conhecimento. Sara Chang Yan propõe um desenho expandido que se liberta do papel e orienta o espaço em que habita, exigindo uma meditação do corpo e do olhar. As suas marcas requerem uma atenção desacelerada, que desloca o foco do objeto para a perceção. Há uma tensão entre a escala da parede e o gesto, entre o traço e a luz, o visível e o invisível. O desenho torna-se num dispositivo que transforma o estatuto do espetador: o olhar não basta, é necessário que o corpo se movimente pelo espaço. Essa lógica expande o sentido tradicional do desenho, que vai além da linha que contorna ou representa, para se tornar um acontecimento sensível que emerge da relação entre corpo, tempo e espaço. O Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2024 não só projeta uma nova geração no panorama institucional, como espelha uma urgência profunda: a necessidade de repensar modos de existência em tempos de crise — ecológica, social e política. Se cada proposta habita um universo próprio, há entre elas uma afinidade estrutural: a recusa de categorias fixas, o atravessamento entre disciplinas, a atenção ao que é frágil, comum, mutável ou invisível.
A exposição contou com curadoria de Catarina Rosendo, Luís Silva e Sérgio Mah, e está patente no MAAT até 8 de setembro de 2025.