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Reaching for fata morgana, de Inês Mendes Leal, na Galeria da Boavista
DATA
13 Ago 2026
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AUTOR
Tomás Saraiva
“Em Reaching for Fata Morgana, que, surpreendentemente, é a sua primeira exposição individual — com curadoria de Francisca Portugal —, tudo isto acontece. Continuando por um forte interesse na magia do ar, a artista estabelece o calor como fonte de pesquisa trabalhada entre uns tempos no deserto de Atacama, no norte chileno, e na residência artística No Entulho, onde explora a matéria a partir do fenómeno da fata morgana, uma ilusão de ótica de inversão de imagem no horizonte proporcionada por diferenças de temperatura do ar e cuja etimologia, segundo se diz, oriunda de lendas arturianas, com a feiticeira Morgan le Fay, suspeita de mudar de forma e iludir marinheiros em alto mar com supostas miragens.”
Fico realmente entusiasmado ao descobrir a existência de um reflexo dos contextos das/os artistas tão bem apontado ao cerne das suas práticas. Quando tal acontece, o trabalho engloba e transparece toda uma profundidade que, a meu ver, estabelece uma genuinidade produtora de um sentido de origem incomparável. Estou, deste modo, a descrever a sensação que tenho sempre que me deparo com o trabalho de Inês Mendes Leal. 
Acompanhando o percurso da artista há já algum tempo, interessa-me de sobremaneira saber que o seu trabalho — pelo menos a partir de um determinado momento em que, creio, tomou um ímpeto bem mais consistente — parte de um recordar dos episódios de vela com o pai. Viajar com o vento, então, levou-a a deter-se numa curiosidade sobre as forças invisíveis das leis naturais do nosso universo que a fazem rumar para uma busca pela forma como pode, eventualmente, dar-lhes um pouco de aparência ao trazê-las para dentro de um espaço expositivo em tom de site-specific ou site-sensitive, ao mesmo tempo que tenta preservar as suas qualidades de sensação e relação através de som e imagem em movimento. Confesso, é realmente estimulante olhar os seus processos e rapidamente perceber que neles encontramos uma organização bastante bem equilibrada entre noções de exploração e investigação, uma união entre diversos campos de conhecimento que permite expandir os seus resultados com um refinamento que se está a tornar cada vez mais próprio. 
Em Reaching for Fata Morgana, que, surpreendentemente, é a sua primeira exposição individual — com curadoria de Francisca Portugal —, tudo isto acontece. Continuando por um forte interesse na magia do ar, a artista estabelece o calor como fonte de pesquisa trabalhada entre uns tempos no deserto de Atacama, no norte chileno, e na residência artística No Entulho, onde explora a matéria a partir do fenómeno da fata morgana, uma ilusão de ótica de inversão de imagem no horizonte proporcionada por diferenças de temperatura do ar e cuja etimologia, segundo se diz, oriunda de lendas arturianas, com a feiticeira Morgan le Fay, suspeita de mudar de forma e iludir marinheiros em alto mar com supostas miragens1.
Sob toda esta premissa, a primeira peça que nos é apresentada, no piso térreo da Galeria da Boavista, é Out of phase, uma instalação composta por uma tubagem de vidro, disposta pela alongada sala que parece sussurrar qualquer coisa. À medida que deles nos aproximamos, os sons tanto se definem desenhando a paisagem com chilreios, reverberações, sons de vento gravados no deserto e a voz de Inês, como se diluem e se apagam. Este apagar sonoro nos tubos - produzido pela inserção de duas colunas frente a frente, em que uma produz a frequência negativa da outra - reflete, de um modo fortemente conceptual, as temperaturas que produzem a miragem e que, no fim, acabam por se anular. 
No andar de cima, mostra-se Concert of fire, um vídeo que apresenta a curiosidade catalisadora da artista com uma demonstração autoral do pirofone, o órgão musical que é, aqui, composto por tubos idênticos aos da obra anterior e que tem o seu som produzido por meio da combustão de chamas. Pelo calor, instabiliza-se o ar e produzem-se reverberações dentro dos vidros, onde as chamas se tornam cantantes, compassando uma melodia com notas poéticas que trazem uma possibilidade da voz da feiticeira, um esboço semi-anatómico das invisibilidades naturais. Quando, há pouco, vos falei das noções de investigação e exploração, estava a pensar na forma como Inês consegue compreender a congruência entre a ciência e a arte como uma possibilidade criativa, sobretudo nítida nestas duas peças. É aqui que o seu trabalho vai primando, num refinamento que parece estar numa constante evolução, entre uma conceção visual de estilo cada vez mais próprio, um atento pensamento teórico e uma capacidade de tornar a sua apresentação suficientemente aberta, que nos dá hipóteses de nos relacionarmos. 
Por fim, apresenta-se o vídeo que dá título à exposição e que mostra, por cerca de oito longos minutos, a artista a caminhar para longe de nós no deserto de Atacama. Indo cada vez mais longe, a figura da artista é distorcida mais e mais pelas ilusões da fata morgana até que, por fim, a sua cabeça aparece nos seus pés e o seu corpo inverte-se, acabando por se diluir pelo ar. Este é possivelmente o clímax deste projeto, quando o ar se adensa com dúvidas… Terá a artista finalmente atingido a fata morgana? Será, agora, ela própria a Fata Morgana? 
Eu diria que nenhuma das opções. Acredito que Inês não pretenda, sequer, uma resposta para tal. A própria exposição, aliás, fundamenta uma resposta não possível; a exposição é ela própria algo impossível. A fata morgana nunca será atingível, tal como o horizonte sempre fugirá de nós. A premissa do trabalho da artista é uma impossibilidade e isso, lá está, é precisamente o melhor que pode acontecer. O trabalho torna-se livre: desprende-se e atinge o seu momento de infinitude ou, de forma um pouco mais radical, transforma-se na própria paisagem. Recordo o dia em que o Principezinho, no seu minúsculo planeta–asteróide, viu 43 pôres-do-sol ao simplesmente mover a sua cadeira lentamente, um pouco mais para a frente, nunca deixando o sol cair para trás do horizonte e o dia terminar. Inês Mendes Leal, de certa maneira, fez o mesmo. 
Reaching for Fata Morgana, de Inês Mendes Leal, está patente na Galeria da Boavista até 6 de setembro de 2026.

1 Aliás, este fenómeno é, quiçá, o principal responsável para a explicação de inúmeros contos e mitos de ocorrências mágicas ou sobrenaturais ao longo dos tempos.
BIOGRAFIA
Tomás Saraiva (n. 2002) é licenciado em Ciências da Arte e do Património pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e Mestre em Estudos Curatoriais no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. O seu trabalho centra-se na possibilidade interseccional entre a prática das artes plásticas e a prática da curadoria e mediação através de uma exploração de mecanismos de relação e a sua consequência no aparato do pensamento — ação. Tem vindo, simultaneamente, a realizar e participar em diversas exposições a nível nacional e internacional.
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