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Sobre "antes de subir à tona", de Cristina Robalo: preparar um naufrágio, saber amar o lado de fora de um retrato
DATA
17 Abr 2026
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AUTOR
Maria Brás Ferreira
“Em antes de subir à tona[1] — note-se a discrição, e o princípio ético-artístico daí destacável, inscrita na minúscula a nomear a exposição, assumindo-se esta fragmento de um texto maior —, a artista Cristina Robalo desenha no espaço aberto entre a linguagem científica, no que esta terá de misterioso e indagador para si — para nós — e a estranheza que o fazer poético sobre o mundo torna claro, por princípio, o que não significa, evidentemente, tornar óbvio.”
Sou invariavelmente movida por um encanto próximo daquele gerado pelo mistério de alguns poemas, quando confrontada com imagens de mapas, tabelas taxonómicas, ilustrações de fauna e flora, listas de nomes em latim para designar as espécies científicas de bichos, plantas e fungos. Dizer (voz alta) que pertenço à espécie homo sapiens sapiens é algo como a prova desse esquecimento fundamental para avançar: o de chegar à escola e aprender de onde vimos, dizê-lo numa língua estranha — numa língua morta, diz-se —, saber que nos funda o imemorial, como nos inebria, pelo som, o interior de um búzio, onde nunca acederemos. Como uma língua estranha ouvida na rua mais familiar da cidade — se houvesse uma só —, me obriga a deter o passo. Ou como se afiguram obcecantes certas colecções de minudências, objectos desviados da sua função, colados ou pregados à parede, fotografados, remetidos à condição de postais destinados ao desgaste do tempo, à margem de qualquer glória nostálgica ou monumental. Inebriam-me provas de vida, sem necessariamente crime ou drama a descortinar. E comovem-me conjuntos seriais: neles vejo inscrito o prazer de olhar, a vontade de guardar semelhanças, de arrumar, mais do que por pares, por terceiros elementos — tudo é, todos somos, terceiros, pois todos somos depois —geradores de tensão harmoniosa ou agonística. Geradores de uma nova ordem. É o romance nenhum dessas formas listadas, a decorar — a saber com o coração —, a recitar, nas quais caímos como aquele que testemunha um mundo do qual é invariavelmente filho e herdeiro, situando-nos entre a irresponsabilidade lúdica das crianças dispostas ao jogo — o jogador, aquele que está sempre a chegar —, e a responsabilidade daquele que recebe uma história, uma tradição, um idioma do qual toma parte. Walter Benjamin — aliás, citado numa das duas cartas de trabalho presentes na exposição —, em Origem do Drama Barroco Alemão, associa o prazer do coleccionador a um impulso melancólico, de fascínio com um tempo por si habitado através da formação e do reconhecimento de redes alegóricas, que, contrariamente às cadeias simbólicas, não inscrevem qualquer totalidade, antes traduzem, e ao mesmo tempo devêm, a impossível totalidade, permitindo o gozo de iluminações imprevisíveis a cada eventual revelação, da qual se dará essencialmente a descoberta de uma nova luz, mais do que o desvelo aprofundado da coisa revelada: o melancólico é, pois, aquele que goza dos objectos que o rodeiam na assunção explícita da sua circunstancialidade, disponibilizando-se à fruição de uma vida que a qualquer momento é interrompida. Daí, poder-se-ia falar da luxúria do melancólico, tarefa a que Giorgio Agamben, leitor de Benjamin, se lança, ainda que brevemente, em Estâncias: a palavra e o fantasma na cultura ocidental.
Em antes de subir à tona[1] — note-se a discrição, e o princípio ético-artístico daí destacável, inscrita na minúscula a nomear a exposição, assumindo-se esta fragmento de um texto maior —, a artista Cristina Robalo desenha no espaço aberto entre a linguagem científica, no que esta terá de misterioso e indagador para si — para nós — e a estranheza que o fazer poético sobre o mundo torna claro, por princípio, o que não significa, evidentemente, tornar óbvio. Mas quando é que a estranheza se torna operante? Mais correcto seria formular, em interrogação declarativa e com o assombro preciso, a respeito da estranheza: quão operante pode ser um fundamento? Justamente nos termos radicais de ser motivo de encontro entre linguagens distintas, cuja aproximação é motorizada pelo desejo sensível de alguém, neste caso, Cristina Robalo, que nos presenteia com uma pequena maravilha: pequena, não por insuficiência, antes sim pelo recuo que uma leitura apaixonada da história, isto é, da memória, isto é, da língua, isto é, da vida, sempre vista através de uma janela irrepetível e breve, significa.
Sobre o fundo cinza de uma série de peças da exposição, intituladas Raiar, cosem-se linhas a delimitar regiões, restam, entrevistas, imagens do que se supõe tratarem-se de fotografias do fundo do mar; traçados territórios, cuja razão ou regra é rejeitada em prol de um princípio de movimento, proto-coreográfico, ou antes, definidas enquanto desenho — apelo de resposta, incitamento à continuidade. Antes mesmo de qualquer herança, na língua babélica dos sonhos ou dessas memórias infantis, cuja revisitação implicaria um redimensionamento do corpo na relação com o espaço. O desenho como caminho, e o caminho como a prova errática do destino enquanto impossibilidade, porque irreproduzível. Não há destinos a copiar, há caminhos a percorrer. Os tais fundos cinza erguem-se como profundidade aplanada, isto é, o espectador confronta-se com a imagem como se a partir de uma perspectiva aérea, forçando o seu corpo vertical a posicionar-se em posição de mergulho, parede adentro, isto é, sabotando os perímetros convencionados. Assim, não é a mesa de trabalho, exposta nas cartas de trabalho, que é verticalizada, quando afixada na parede, somos nós que somos forçados a assumir o próprio corpo em estado de queda — o que se coaduna com a teoria benjaminiana sobre o exercício obsidiante de leitura de um mundo que, para o melancólico, é todo ele escritura, não a ser decifrada, mas a ser lida, ou, nos termos de Cristina Robalo, desenhada. Em momento algum a artista deixa de nos lembrar que estamos perante representações, maquetes, emblemas, confrontados com arte, esse imenso código desinteressado de gramáticas. Se a artista nos lembra que se tratam invariavelmente de representações, tal não significa que a nossa experiência da exposição seja asséptica. Pelo contrário, o que antes de subir à tona nos lembra é justamente a história escrita em minúsculas, não descritível por um arco evolutivo, positivamente linear: a história que decorre, que não progride, não desliza a um só ritmo e velocidade, avança movida por atritos, encontros e encontrões, por enlace e oclusão. Cristina Robalo lembra-nos a história como experiência sensível.
Se mergulhamos no mar, ele surge inevitavelmente numa imagem decepada, para cujos despojos encontramos a geometria — no caso, quadricular — possível. Os mergulhos são seccionados, pois não há nada como um mergulho total. Daí ser possível e urgente o desenho. Daí também a sua inevitabilidade como forma de ser do humano. O azul escolhido para as fotografias dispostas em série, em Fundo, não homogeniza, antes gera zonas várias, criando um quadro diferencial de imagens semelhantes. Ora, é esse princípio de variação que subsume as várias peças desta exposição à condição, ou melhor, ao estado do desenho. Não há unidade original a saudar nostalgicamente, não há aceno para um paraíso perdido. Há o convite à declaração do nosso olhar como uma dicção singular. Olhamos com a boca e o corpo todo. Com o corpo todo tomamos a cor como coisa em si, mesmo se distraídos das tinturas a cobrir a própria — a própria? — pele. Mesmo sem nos darmos conta se é dança, se camuflagem. E podia falar-vos, ainda, dos Faroleiros, dispostos em cinco paredes. Que tarefa a sua? A de vigiarem o labor apaixonado de justapor “tu”, “natur” e “histoire”, em três quadros, não idênticos, mas análogos? Enquadramentos em que o fundo cinza permanece, desta vez acolhendo despojos, como barbatanas, olhos de peixe, uma linha solta. Os faroleiros vigiam, seguem vigiando, e nós, claro, somos náufragos, à espera do dia em que nos nasçam guelras, e desenhamo-las, entretanto. Vigiam os faroleiros, desde um tempo antigo, são gárgulas libertadas da pedra, são os sobreviventes de um teatro, os despedidos de um circo, a energia bruta de uma comunidade por vir. Nesta estética-ética do mínimo, não serão nunca, já sabemos, o monumento — em declinação épica ou elegíaca — de uma antiguidade. Que estratégia a daquelas constelações, daqueles cardumes de máscaras? Serão, afinal, um exército de gnomos e faunos? Que coisa lembra, que coisa surpreende, que coisa acorda no nosso rosto volante, no fundo de um poço, essa Babel conversacional? Qual o tom das suas vozes? Qual o ritmo das suas falas? Chegam ou partem, a cantar? Sons de uma torneira mal fechada, um martelo a bater (talvez afixando um dos quadros), o foco activado de uma máquina fotográfica prestes a disparar? Como preparar um naufrágio? Como amar o lado de fora de um retrato.
A exposição antes de subir à tona, de Cristina Robalo, pode ser visitada até dia 9 de maio.
[1]Com uma curadoria irrepreensível de Sérgio Fazenda Rodrigues.
BIOGRAFIA
Mestre em Estudos Portugueses, pela Universidade Nova de Lisboa, com uma tese sobre Nuno Bragança. Encontra-se a escrever uma tese de doutoramento sobre Agustina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira e a melancolia. Bolseira FCT, participou em antologias, tendo publicações, de poesia e ensaio, em revistas nacionais e internacionais. Publicou dois livros de poesia: “E o Coração de Soslaio a Todo o Custo” (2025) e “Penhasco” (2025). É co-editora da revista Lote. Faz crítica literária no jornal Observador.
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