Não sabemos quem, de facto, é o intruso. Nem conseguimos identificar a dimensão onde o labirinto se encontra. A bidimensionalidade, adulterando a nossa capacidade de alteridade, ofusca a perceção. Vemos e somos vistos. Imaginamos as passagens entre as obras e tentamos compreender o percurso do corpo representado que acompanhamos ao longo desta exposição. É assim Intruso no Labirinto, exposição de Jorge Queiroz no CAV, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez.
Este labirinto percetivo, gerador de uma cartografia impossível — ou pelo menos inacessível — é composto sobretudo por desenhos e pinturas que revelam uma gestualidade evidente e uma paleta maioritariamente vibrante. Intuímos paisagens, fragmentos de momentos, ambiências surrealizantes e a presença de um outro — um corpo que se ausenta da nossa capacidade total de perceção para, nos ambientes pictóricos criados por Jorge Queiroz, velar-se ao entendimento. Ironicamente, é essa ausência que confere ao visitante o papel de intruso. Percebemos, num certo momento, que o intruso somos nós. É ao habitar o mesmo plano desse outro que sentimos que vemos porque somos vistos. De outro modo, esse viajante atravessaria cada fragmento sem se deter no olhar que o observa do outro lado da superfície pictórica. Falamos, afinal, de objetos anorgânicos que incorporam essa ideia de intrusão que só se concretiza na nossa presença — está dentro de nós.
A intrusão acentua-se também em termos plásticos. Nas obras A Day Later 3, A Day Later 5 e A Day Later 2, a pintura parece desferir um gesto intrusivo sobre uma superfície mais destinada à escrita. Em Duende, a imagem parece querer explorar uma textura videográfica. Já em Nó #1, Nó #2, Nó #3 e Nó #6 ocorre uma intrusão mútua entre o trabalho puramente pictórico e o corpo estranho que o ladeia. 1828 Que de Mots Pour si Peu des Choses surge como um corpo alienígena, aprofundando o sentido de intrusão no contexto desta exposição.
Esta proposta expositiva do ciclo a vida, apesar dela completa-se com Pele de Barro, de Flávia Vieira, composta por duas esculturas e uma intervenção in situ. Trata-se de um conjunto complementar que, na esteira da exposição anterior, conduz a uma reflexão sobre o outro numa dimensão mais política, alimentada pelo estado atual do mundo.
Vemos um muro coberto de barro, cuja dimensão telúrica é posta em causa pela luz que o envolve. Essa tonalidade violácea — de que fala Miguel von Hafe Pérez na folha de sala — transporta esta construção divisiva para outro tempo, outra dimensão. Faz-nos crer num museu do futuro onde os muros são mostrados como ruínas arqueológicas; onde se explica que a humanidade foi abandonando, pouco a pouco, essas estruturas austeras e implacáveis. Subitamente, a utopia tem uma cor: violeta.
No exterior deste espaço, dois corpos de barro completam a instalação. Se, à primeira vista, evocam a impessoalidade e a atemporalidade do minimalismo, logo percebemos a tensão entre o barro — gesto, fragilidade, transitoriedade — e o ferro que o sustenta, material de força e oposição. Há aqui uma remissão a um tempo ancestral que recusa o presente digital e algorítmico em que vivemos.
Mais do que um encontro de linguagens, Intruso no Labirinto e Pele de Barro confrontam-nos com a condição de quem observa e é observado — seja no labirinto pictórico, seja através da pele mineral do mundo.
Ambas as exposições podem ser visitadas no Pátio da Inquisição, em Coimbra, até 30 de novembro.