article
Sobre "Intruso no Labirinto", de Jorge Queiroz, e "Pele de Barro", de Flávia Vieira
DATA
24 Nov 2025
PARTILHAR
AUTOR
Daniel Madeira
Mais do que um encontro de linguagens, Intruso no Labirinto e Pele de Barro confrontam-nos com a condição de quem observa e é observado — seja no labirinto pictórico, seja através da pele mineral do mundo.
Não sabemos quem, de facto, é o intruso. Nem conseguimos identificar a dimensão onde o labirinto se encontra. A bidimensionalidade, adulterando a nossa capacidade de alteridade, ofusca a perceção. Vemos e somos vistos. Imaginamos as passagens entre as obras e tentamos compreender o percurso do corpo representado que acompanhamos ao longo desta exposição. É assim Intruso no Labirinto, exposição de Jorge Queiroz no CAV, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez.
Este labirinto percetivo, gerador de uma cartografia impossível — ou pelo menos inacessível — é composto sobretudo por desenhos e pinturas que revelam uma gestualidade evidente e uma paleta maioritariamente vibrante. Intuímos paisagens, fragmentos de momentos, ambiências surrealizantes e a presença de um outro — um corpo que se ausenta da nossa capacidade total de perceção para, nos ambientes pictóricos criados por Jorge Queiroz, velar-se ao entendimento. Ironicamente, é essa ausência que confere ao visitante o papel de intruso. Percebemos, num certo momento, que o intruso somos nós. É ao habitar o mesmo plano desse outro que sentimos que vemos porque somos vistos. De outro modo, esse viajante atravessaria cada fragmento sem se deter no olhar que o observa do outro lado da superfície pictórica. Falamos, afinal, de objetos anorgânicos que incorporam essa ideia de intrusão que só se concretiza na nossa presença — está dentro de nós.
A intrusão acentua-se também em termos plásticos. Nas obras A Day Later 3, A Day Later 5 e A Day Later 2, a pintura parece desferir um gesto intrusivo sobre uma superfície mais destinada à escrita. Em Duende, a imagem parece querer explorar uma textura videográfica. Já em Nó #1, Nó #2, Nó #3 e Nó #6 ocorre uma intrusão mútua entre o trabalho puramente pictórico e o corpo estranho que o ladeia. 1828 Que de Mots Pour si Peu des Choses surge como um corpo alienígena, aprofundando o sentido de intrusão no contexto desta exposição.
Esta proposta expositiva do ciclo a vida, apesar dela completa-se com Pele de Barro, de Flávia Vieira, composta por duas esculturas e uma intervenção in situ. Trata-se de um conjunto complementar que, na esteira da exposição anterior, conduz a uma reflexão sobre o outro numa dimensão mais política, alimentada pelo estado atual do mundo.
Vemos um muro coberto de barro, cuja dimensão telúrica é posta em causa pela luz que o envolve. Essa tonalidade violácea — de que fala Miguel von Hafe Pérez na folha de sala — transporta esta construção divisiva para outro tempo, outra dimensão. Faz-nos crer num museu do futuro onde os muros são mostrados como ruínas arqueológicas; onde se explica que a humanidade foi abandonando, pouco a pouco, essas estruturas austeras e implacáveis. Subitamente, a utopia tem uma cor: violeta.
No exterior deste espaço, dois corpos de barro completam a instalação. Se, à primeira vista, evocam a impessoalidade e a atemporalidade do minimalismo, logo percebemos a tensão entre o barro — gesto, fragilidade, transitoriedade — e o ferro que o sustenta, material de força e oposição. Há aqui uma remissão a um tempo ancestral que recusa o presente digital e algorítmico em que vivemos.
Mais do que um encontro de linguagens, Intruso no Labirinto e Pele de Barro confrontam-nos com a condição de quem observa e é observado — seja no labirinto pictórico, seja através da pele mineral do mundo.
Ambas as exposições podem ser visitadas no Pátio da Inquisição, em Coimbra, até 30 de novembro.

PUBLICIDADE
Anterior
article
Sob influências planetárias: Halo – Os Anéis de Saturno, na Galeria Tereza Seabra
19 Nov 2025
Sob influências planetárias: Halo – Os Anéis de Saturno, na Galeria Tereza Seabra
Por Kaia Ansip
Próximo
agenda
Programação para os 10 anos do MAAT
25 Nov 2025
Programação para os 10 anos do MAAT
Por Umbigo