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The Great Unknown e O sol quando nasce não é: Pedro Valdez Cardoso na Galeria Fernando Santos
DATA
23 Fev 2026
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AUTOR
Mafalda Teixeira
Qual gabinete de curiosidades - wunderkammer - concebido por Pedro Valdez Cardoso (1974), a exposição The Great Unknown, em exibição no Espaço 117 da Galeria Fernando Santos (Porto), lança-nos numa autêntica viagem na qual a História é (re)criada pelo nosso olhar. À medida que percorremos o espaço expositivo, deixamo-nos seduzir pela coleção de objetos raros, exóticos e pela diversidade de artefactos que, provenientes de uma expedição, evocam regiões polares numa aliança entre arte, ciência, arqueologia e utopias.
O caráter dual e irónico, assim como o sentido crítico e de reflexão que caraterizam a prática artística de Pedro Valdez Cardoso (PVC), induzem-nos numa procura por significados e leituras que o artista nos desvenda nas entrelinhas do seu trabalho, nas costuras dos seus bordados e na duplicidade que nos oferece. A este propósito, importa mencionar que The Great Unknown trata-se, na realidade, de um Museu do Desconhecimento, um museu de objetos falsos, desprovidos de veracidade histórica1. O massivo display expositivo, como se de um antigo museu se tratasse, apresenta-nos uma câmera de maravilhas composta por mais de cem peças que incluem trabalhos antigos, obras inéditas e outras concebidas especificamente para a mostra. Destaque ainda para a inclusão de objetos pessoais pertencentes à coleção privada do artista, nos quais encontramos ligações estéticas e formais com possíveis objetos históricos e artefactos que integram o museu imaginário.
Embora não o assuma como um epílogo, a exposição The Great Unknown é, nas palavras do artista, o culminar de uma travessia iniciada em 2008 sobre a ideia dos polos, mais especificamente do Ártico. Numa perspetiva associada à ideia de procura de outros lugares em paralelo com o seu percurso pessoal e artístico, o projeto Nothing will keep us together (Galeria Módulo - Centro Difusor de Arte, 2008) tratou-se de uma primeira abordagem de PVC às diversas configurações formais e conceptuais do Ártico, com recurso a certas caraterísticas estéticas da fauna da região. Datam deste período os primeiros mapas cartográficos, nos quais Pedro Valdez Cardoso reproduziu a paisagem e o ecossistema do Ártico sobre esponjas de limpeza, numa alusão ao mundo industrializado, assim como as grelhas – costuradas ou desenhadas - que tanto evocam esquadrias clássicas de desenho como as grelhas de fios utilizadas em escavações arqueológicas. Obras que reencontramos na presente exposição e que reafirmam o interesse do artista pelas primeiras explorações do Homem ao Ártico no séc. XIX, pelas utopias associadas ao planeta branco e pelas zonas geladas enquanto lugares de descobertas paleontológicas.
A partir da noção de expedição, seguindo uma lógica documental e museográfica, observamosem The Great Unknown, o conjunto de mapas e desenhos de campo que estabelecem um diálogo com a prática arqueológica, assim como a diversidade de objetos e materiais vários que simulam artefactos: Botas; Máscara; Mochila; Luvas, entre outros. Alguns destes trabalhos, embora reformulados, já haviam sido apresentados em 2015 na exposição Ártico: narrativa e fantasmática (CIAJG), período em que Pedro Valdez Cardoso retorna à questão do Ártico, numa abordagem teórica diferente, com foco nas especificidades geográficas e geopolíticas da região.
Aos materiais, desenhos e objetos desenvolvidos nas exposições mencionadas, acrescem-se na mostra atual novas obras, inéditos nunca antes mostrados e objetos pessoais adquiridos pelo artista que configuram o seu museu imaginário, enquanto lugar de procura e de (des)conhecimento sobre as regiões polares. Ao longo da exposição somos acompanhados pela ideia de tempo e de uma suspensão que se eterniza, assim como pela presença de elementos que evocam resistência - tanto a da paisagem polar como daqueles que a habitam. A este propósito destaquemos algumas das obras recentes do artista: The great Unknown (2025), bloco grande no qual se apresenta incrustado um esqueleto “humano” fossilizado, como que proveniente de uma escavação arqueológica; Odobenus rosmarus (2025), peça que em plástico mimetiza o crânio da morsa que habita as águas do ártico; ou Caçadores de Baleias (2025). Nestes trabalhos a ideia de resistência é-nos revelada através das ossadas enquanto armaduras que subsistem ao tempo e à morte. Destaque ainda para o imaginário dos objetos mais recentes que o artista nos oferece e que associamos aos povos indígenas do Ártico: a lança; o trenó; o tapete de pelo; máscaras tribais; Faca Osso e os Ídolos. No momento final do nosso percurso pelo gabinete de curiosidades de Valdez Cardoso observamos hasteada, no plano superior de uma das paredes, a bandeira branca em cujas palavras bordadas, na mesma cor, lemos The end of the world, mensagem metafórica, irónica e humorística do artista ao referir-se a uma região onde a conservação fóssil, possibilitada pelas baixas temperaturas, contribui para a descoberta e conhecimento da origem do Homem e do planeta2. A cor da bandeira, que associamos ao Planeta Branco evoca esse lugar remoto e quase inabitado, espaço de liberdade e sem fronteiras que o Museu do Desconhecimento – não obstante os a falsidade dos objetos que o compõe – nos dá a descobrir.
Da ilusão apresentada em The Great Unknown, deixamo-nos conduzir para um outro espaço e um novo tempo que o artista nos oferece em o Sol quando nasce não é, escultura cuja monocromia e tratamento homogéneo dos materiais acentuam o significado da obra e respetivo título. Em exibição no espaço CUBO da Galeria Fernando Santos, somos atraídos pelo caráter cenográfico e teatral da instalação, cujo vasto conjunto de objetos de uso quotidiano que a compõe, lançam-nos num debate e reflexão sobre problemáticas que extravasam o campo da estética. Visualmente rica, a obra impõe-se enquanto depoimento artístico, social e político de Pedro Valdez Cardoso através da apropriação e acumulação de materiais de natureza diversa e que camuflados sobre uma nova pele - embora reconhecíveis - adquirem novos significados e leituras.
Mencionar desde logo, a ironia presente no título O sol quando nasce não é, quenum jogo de palavras a partir do provérbio o sol quando nasce é para todos, remete para conceitos de desigualdade e desalento. A ilusão, o humor e a crítica estão igualmente presentes na construção cénica da escultura na qual predomina a manipulação de objetos, revelando-se a importância que o artista atribui ao processo construtivo e aos materiais que utiliza. A este propósito destaquemos o carro de mão, que serve de base à escultura, numa clara alusão à ideia de deslocação, de percurso e nomadismo. Transformado numa espécie de casa nómada, integralmente azul, observamos no seu interior objetos utilitários forrados num mesmo tecido azul - sacos, almofadas, redes, cordas, caixas, um balde, uma esfregona, entre outros – e encimados por um telhado de casa de figuração infantil. Embora a obra escultórica, segundo o artista, convoque a ideia de casa, convoca também uma ideia de não-casa, e sobretudo uma ideia de labor constante e perpétuo3, numa referência direta aos vendedores de rua ambulantes. Por outro lado, e à medida que observamos a escultura, parece-nos inevitável uma associação à atual crise habitacional. A acompanhar a obra escultórica destacamos a presença da peça néon que, instalada na parede, reproduz - enquanto linguagem visual - o título da mesma como símbolo da identidade capitalizada do humano4, num trabalho de cariz poético dominado pelo azul do céu, no qual ironicamente não há qualquer referência ao amarelo do sol.
A exposição pode ser visitada na Galeria Fernando Santos, no Porto, até dia 14 de março de 2026.

1 Citação do artista na folha de sala da exposição The Great Unknown.
2 Idem.
3 Citação do artista a propósito da exposição O sol quando nasce não é.
4 Idem.
BIOGRAFIA
Mafalda Teixeira mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d'Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.
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