Ao longo de mais de três décadas, a Manifesta tem percorrido a Europa enquanto bienal nómada. Cada edição estabelece-se temporariamente numa cidade ou região, procurando responder às especificidades sociais, culturais e espaciais do território que a acolhe. Mais do que transportar uma exposição de um lugar para outro, a Manifesta procura compreender as infraestruturas invisíveis de um lugar, os espaços que pautam a vida quotidiana, as instituições que sustentam as comunidades locais e os edifícios cujo futuro permanece incerto.
Mas como pode, afinal, uma bienal nómada produzir algo significativo para as comunidades que a acolhem? O risco associado ao nomadismo é evidente. Um certo narcisismo disfarçado de cosmopolitismo, uma autocentralidade que tende a sobrepor a bienal à comunidade local e um elitismo que pouco (nada) contribui para as realidades concretas dos territórios onde se instala. Se este é um risco inerente à condição nómada, quando bem executado, o nomadismo poderá, pelo contrário, permitir que a bienal se afirme como um espaço de escuta: um olhar externo, sem que seja, por isso, menos atento ao território. Para que isso aconteça, o processo de construção da MANIFESTA inicia-se muito antes da abertura da exposição ao público, através de um trabalho prolongado de investigação e de colaboração interdisciplinar.
Foi sob esta premissa que aconteceu a 16.ª edição da MANIFESTA, instalada na região de Ruhr, na Alemanha, entre 21 de junho e 4 de outubro de 2026. Projetada em conjunto com o arquiteto e urbanista Josep Bohigas, esta edição parte de uma investigação territorial que procurou compreender não apenas o contexto histórico e cultural da região, mas também o conjunto de transformações que, ao longo das últimas décadas, a têm obrigado a renegociar a sua identidade. Profundamente marcada pela indústria pesada, pela exploração mineira e pela produção de aço, Ruhr é uma das maiores regiões metropolitanas da Europa e apresenta uma morfologia urbana singular. Diferente do modelo monocêntrico de muitas capitais europeias, constitui-se como uma espécie de arquipélago urbano, uma constelação de cidades e núcleos urbanos ligados por uma extensa rede de infraestruturas. Para além desta singularidade geográfica, Ruhr é um território particularmente fértil para pensar algumas das urgências que atravessam a Alemanha contemporânea: as profundas alterações demográficas, a crise industrial e as elevadas taxas de desemprego, a par do desaparecimento gradual da igreja enquanto instituição central na vida comunitária.
A Alemanha possui mais de 40 000 igrejas, e mais de metade terá perdido a sua função religiosa ao longo da última década. A dimensão deste fenómeno ultrapassa, contudo, a preservação de um património construído. Historicamente, as igrejas foram muito mais do que lugares de adoração, constituindo espaços de encontro e sociabilidade, intimamente ligados à educação, à música, à caridade e ao cuidado mútuo, onde se ensaiava um futuro conjunto. O progressivo desaparecimento da sua função religiosa deixa, assim, uma questão que é simultaneamente social e espacial: o que fazer com os edifícios que continuam a ocupar uma posição central nos bairros, mas cuja função original se encontra em declínio?
Em Ruhr, esta questão ganha uma ressonância particular, dada a relação histórica entre a arquitetura religiosa e os processos de reconstrução e transformação da região. A destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial foi seguida por um ambicioso processo de reconstrução urbana, no qual as igrejas assumiram um papel central. Sobretudo nas décadas do pós-guerra, foram erguidos numerosos edifícios religiosos que acompanhavam a reorganização da vida quotidiana. A arquitetura destes espaços traduzia o espírito de uma época: modernista, experimental e, em muitos casos, orientada para o encontro, contribuindo para uma infraestrutura comunitária mais ampla. Hoje, muitas destas igrejas encontram-se abandonadas e/ou dessacralizadas; algumas enfrentam a demolição, outras a privatização ou a conversão em espaços comerciais. A fé parece estar também em decadência, e as igrejas cristãs, embriagadas no seu Código de Direito Canónico, revelam-se incapazes de acolher a crescente população muçulmana instalada na região. Ora, se a Igreja já não cumpre - não consegue ou não quer cumprir - o papel de espaço de encontro que historicamente desempenhou, seja pelo declínio da prática religiosa, seja pelas transformações demográficas da região, a questão passa a ser a de saber como essa dimensão coletiva pode sobreviver para além da instituição. É urgente encontrar outros propósitos para estes edifícios.
Desenhava-se, assim, o mote da 16.ª edição da Manifesta: This Is (Not) a Church. Partindo das propostas apresentadas por uma equipa de mediadores culturais, a Bienal ocupa doze igrejas, não procurando restituir-lhes uma função religiosa, mas ensaiar novas formas de as habitar. Que novas formas de comunidade podem emergir nestas estruturas? Como preservar a generosidade espacial de uma arquitetura concebida para o encontro, abrindo-a a novas realidades sociais? E, se a arquitetura desempenhou um papel central na reconstrução de Ruhr no pós-guerra, poderá a arte contribuir hoje para uma nova forma de reconstrução?
É em torno destas questões que a Manifesta reúne um conjunto de artistas e projetos que desdobram, a partir de diferentes perspetivas, as múltiplas problemáticas que atravessam a região. Destacam-se, desde logo, aqueles que optaram por uma abordagem mais literal, recuperando formas e elementos simbólicos da arquitetura religiosa. Em Duisburg, na Kulturkirche Liebfrauen, Abbas Zahedi parte do antigo órgão da igreja - um instrumento há vários anos inutilizado, com muitos dos seus tubos desaparecidos - para construir Ouranophobia 47051 (2026), uma instalação acústica produzida a partir de tubos de órgãos provenientes de diferentes igrejas europeias. Para o artista, o silêncio deixado pelo antigo instrumento seria um indício do desaparecimento de um sentido de fé e de uma experiência partilhada. A sua resposta passa, então, por reconstruir o órgão a partir de uma lógica distinta. Em vez de reproduzir a sua estrutura vertical e hierárquica, o novo instrumento expande-se horizontalmente pelo espaço, transformando-se numa plataforma de escuta coletiva.
De um modo semelhante, apropriando-se da imagem do sino, Mariana Napushkina apresenta Kein Gelaut (2026), uma escultura insuflável instalada no relvado em frente à Gethsemane Church. A obra recupera a forma de um sino histórico produzido pela Bochumer Verein für Bergbau und Gußstahlfabrikation, que integrava originalmente a igreja destruída durante a guerra, e transforma-o num objeto de natureza radicalmente distinta. A leveza e o carácter interativo da estrutura contrastam com a inscrição We'll never go back!, introduzindo uma tensão entre o jogo e a experiência de deslocação a que a obra alude. Na prática de Naprushkina, marcada pelas realidades políticas da Bielorrússia e pelas condições de deslocação e exílio na Europa, o sino, tradicionalmente associado à convocação e à reunião de uma comunidade, converte-se num corpo instável e suspenso, incapaz de encontrar um lugar onde se fixar. A obra remete, assim, para a experiência de comunidades com percursos migratórios, num contexto europeu marcado pelo endurecimento das políticas de imigração e pela chamada Migrationswende.
Noutras igrejas, a preocupação dos artistas desloca-se para a construção de um momento de encontro. Por vezes (tantas vezes), essa experiência coletiva é recuperada por via do som - anunciado, aliás, na abertura da Bienal à imprensa, que se fez acompanhar pela Orquestra Filarmónica de Duisburg. Outras, esse encontro desenha-se lúdico. Em FAIL LOUDER (2026), o coletivo catalão Cabosanroque transforma a St. Ludgerus num campo de basquetebol. As estruturas desportivas ocupam a sua nave central, e o órgão foi adaptado de modo a que o embate da bola o ativasse. A igreja transforma-se, então, num lugar-comum para praticar desporto, para errar em conjunto, tão alto e melodicamente quanto o órgão de uma igreja. É também o caso de Analı Kızlı — With Mother and Daughter (2026), de Mehtap Baydu, apresentada na Gethsemane-Kirche, situada numa zona de Bochum marcada por uma forte presença da comunidade turca. A refeição-performance envolve onze mulheres da cidade, que formaram um coletivo para cozinhar uma refeição, recuperando uma estreita relação entre comida, linguagem e género. Em turco, vários pratos têm nomes que remetem para mulheres ou partes dos seus corpos, como Dul Avrat Çorbası (sopa da viúva), Dilber Dudağı (lábio da amada) ou Analı Kızlı (com mães e filhas). Neste contexto, a comida torna-se também uma questão de linguagem. A refeição deixa de ser apenas aquilo que se partilha à mesa para se tornar, sobretudo, uma forma de produzir comunidade - e, simultaneamente, de interrogar as estruturas linguísticas que a sustentam.
São variadas as formas que este encontro pode assumir, e é curioso que este seja tanto humano como interespécies. The School Non-Cyclopaedia — A Living Language Archive of the Classroom (2026), de Julia Nitschke, por exemplo, reinterpreta a ideia de dicionário e de enciclopédia a partir de uma perspetiva feminista, queer e poética. Substituindo as definições normativas que organizam o conhecimento, o projeto propõe um arquivo vivo a partir da subjetividade, da contradição, do humor e da criatividade. Estudantes, famílias e vizinhos tornam-se autores de uma linguagem comum, produzindo textos que registam a realidade multilingue da sala de aula e celebram línguas, dialetos e socioletos quotidianos. No livro Tudo do Amor, bell hooks escreve sobre a importância de encontrar uma linguagem comum para pensar o amor: “Imagina quanto mais fácil seria aprender a amar se começássemos por uma definição partilhada”. De um modo semelhante, Julia Nitschke recupera a ideia de construção de uma definição comum como uma primeira forma de entendimento. Definir e nomear é, afinal, um primeiro ato criativo - e é tanto necessário encontrar uma linguagem comum quanto reconhecer que essa não é fixa, mas construída e negociada coletivamente.
Essa negociação ultrapassa, aliás, a linguagem humana. Em Antifascist Bird Communication System V02.1 (2026), parte do projeto Radical Climate Action Bird (2025–em curso), Dennis Siering investiga o potencial da comunicação entre humanos e pássaros através de birdsongs. Em colaboração com investigadores da área da ornitologia e designers de som, e recorrendo à inteligência artificial, o artista desenvolveu um conjunto de instalações sonoras alimentadas por energia solar que traduzem melodias antifascistas e músicas de protesto em “artificial birdsong”. O melro-preto, conhecido pela sua capacidade de aprendizagem e pela presença persistente do seu canto no espaço urbano, transforma-se numa espécie de voz de resistência que pode ser escutada e reinventada. Ao inscrever o protesto na natureza, Siering imagina uma outra forma de comunidade, para lá das fronteiras da espécie.
O encontro - múltiplo na sua essência -parece convergir, de diferentes maneiras, numa mesma questão: a construção de uma casa. Na igreja de St. Marien, Annika Kahrs apresenta Le Chant des Maisons (2022), uma instalação de vídeo que combina som, movimento e arquitetura. Gravado numa igreja dessacralizada em Lyon, o trabalho documenta uma performance conjunta entre músicos e carpinteiros que constroem uma casa de madeira no interior de uma igreja. A estrutura vai tomando forma ao som dos martelos, dos parafusos e das ferramentas utilizadas na sua montagem, transformando o gesto de construir numa composição sonora. Entre os muitos trabalhos apresentados pela Bienal, talvez seja esta uma das imagens que melhor sintetizam a sua proposta. Le Chant des Maisons relembra-nos de que os espaços podem ser transformados coletivamente e de que, dentro de uma arquitetura que parece ter perdido a sua função, podem ainda surgir outras formas de habitar. Há, afinal, uma casa possível dentro de cada uma destas igrejas.
Depois de Ruhr, a Manifesta continuará o seu percurso por outras geografias. Em 2028, instalar-se-á em Coimbra, num modelo inédito de cocriação com a Anozero - Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra. A escolha de uma parceria com uma bienal já enraizada no território prolonga, de algum modo, a premissa desta edição, fomentando a longevidade das propostas apresentadas. Se em Ruhr a resposta passou pela escuta das estruturas existentes e pela sua reativação através da arte, em Coimbra o desafio será dar continuidade a esse trabalho em colaboração com uma comunidade e uma instituição que já habitam o território. A casa, neste caso, não terá de ser construída de raiz, somente habitada em conjunto.