07 Abr 2026
Timur Si-Qin sobre a Exploração da Morfogénese, a Sacralidade dos Sistemas Vivos e as Ecologias Pós-Seculares
Entrevistapor Alexander Burenkov
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Timur Si-Qin é um artista e escritor nascido na Alemanha e radicado em Nova Iorque, cuja prática atua na intersecção entre ecologia, espiritualidade, materialidade e cultura. Ao longo da última década, tem-se destacado como uma voz distinta no seio de uma geração de artistas frequentemente associados à estética pós-Internet, não apenas pelo seu envolvimento com a cultura digital, mas pela forma como reinterpreta as fronteiras entre o tecnológico, o orgânico e o cultural. Em vez de insistir num antagonismo entre natureza e tecnologia — um tropo comum na arte ecológica —, Si-Qin trata estes domínios como simbióticos e coprodutivos, explorando a forma como a civilização humana é, em si mesma, parte da ecologia mais ampla do planeta.
No centro do seu trabalho encontra-se o projeto de longo prazo New Peace, uma iniciativa conceptual e espiritual que procura cultivar uma visão de mundo centrada na natureza e um protocolo pós-secular para compreender a relação da humanidade com o mundo natural. New Peace propõe uma ontologia na qual os seres humanos não ocupam uma posição privilegiada em relação à vida não humana, sendo, pelo contrário, interligados com plantas, animais, minerais e paisagens dentro de um ecossistema partilhado de significados e sentido. Ao reimaginar sistemas espirituais e estruturas simbólicas, Si-Qin desafia o dualismo do pensamento ocidental tradicional que separa a cultura da natureza, ou a mente da matéria. Este quadro conceptual é profundamente influenciado por uma formação multicultural e por experiências de vida — tendo crescido com raízes na Alemanha, na China e no seio de uma comunidade indígena San Carlos Apache no sudoeste dos Estados Unidos — que moldam a sua sensibilidade para com diversas cosmologias culturais e relações com a terra. É também o que dá forma ao seu interesse pela morfologia e morfogénese — o estudo estético e filosófico das formas e estruturas na natureza e na cultura. A abordagem do artista não é puramente crítica ou irónica (como é frequentemente o caso em obras rotuladas como “pós-internet”), mas generativa e especulativa, propondo formas alternativas de ver e de ser.
Alexander Burenkov: O seu trabalho investiga frequentemente a relação entre a natureza e a cultura. Como vê esta relação a evoluir no contexto de uma estética pós-digital?
Timur Si-Qin: De certa forma, contrariamente ao que seria de esperar, penso que estamos a caminhar para uma nova era da natureza — uma época em que a natureza reafirma, ou talvez revele uma vez mais, a sua soberania. Não como algo oposto à cultura humana, mas como o campo mais vasto que sempre a abrangeu. Em última análise, a natureza detém o controlo e tem-nos concedido generosamente a nossa existência.
Nesta perspetiva, a condição digital não constitui um afastamento da natureza, mas sim uma descoberta das possibilidades já latentes no seu seio — nomeadamente através da nossa interação com as propriedades das rochas: sílica, carbono e outros metais. No fundo, um semicondutor é simplesmente um pedaço de rocha organizado e gravado com extrema precisão. E as redes neurais de IA são fluxos padronizados de informação cujos esquemas básicos já existiam no espaço de possibilidades do mundo. Vista desta forma, a condição digital é simplesmente uma continuação do mundo natural.
AB: New Peace atua tanto como um projeto conceptual como um protocolo espiritual. De que forma a base filosófica da New Peace tem vindo a mudar nos últimos anos?
TS: A ideia fundamental subjacente ao movimento New Peace teve início com o reconhecimento de que, nas tradições espirituais ocidentais, há muito que perdemos a natureza como tema central — e que essa perda está intimamente ligada à crise ambiental que enfrentamos atualmente.
A maioria das culturas da Terra tem mantido, ao longo da história, espiritualidades centradas na natureza. Nesse sentido, é a tradição ocidental que constitui a aberração. Tendo crescido num contexto espiritual nativo americano, testemunhei estas diferenças em primeira mão. Como escreve Vine Deloria Jr., os ocidentais estão presos na abstração do tempo. Nas tradições religiosas ocidentais, o que importa é o que aconteceu na história e o que vai acontecer na profecia. Existe uma fixação na escatologia, enquanto maltratamos e destruímos o verdadeiro paraíso que é o mundo vivo à nossa volta.
As religiões indígenas, em contrapartida, tendem a dar menos ênfase a passados distantes ou futuros especulativos, e mais ênfase a relações concretas com animais, plantas e ecossistemas reais. Neste sentido, as religiões indígenas são muito mais realistas e com base material. No entanto, não podemos esperar que as sociedades ocidentais se convertam subitamente às cosmologias Lakota ou Yup’ik. Pelo contrário, a tarefa mais produtiva é começar a articular como poderia ser uma espiritualidade contemporânea da natureza. Hoje, suspeitamos, com razão, das dinâmicas de poder e do dogmatismo da religião organizada. E, no entanto, enquanto espécie, evoluímos para utilizar estruturas espirituais partilhadas para coordenar o comportamento à escala social. Há muito que sinto que a arte contemporânea poderá ser uma das tradições capazes de evoluir nessa direção. Na sua melhor forma, a arte é um reservatório de espiritualidade, e a arte contemporânea poderá ser uma das primeiras expressões orgânicas de uma espiritualidade global e pós-secular. Inicialmente, achava que essa expressão tinha de ser estritamente secular. Mas, após anos de envolvimento com as tradições da ayahuasca, considero o rótulo “secular” menos importante — e, em última análise, mais complicado do que outrora pensava.
AB: Na exposição A Vision of You, no Magician Space, onde apresentou obras de escultura que funcionam como iconografias sagradas da vida vegetal da Cordilheira de Hengduan — uma região rica em biodiversidade no oeste de Sichuan —, as plantas transformam-se nos ícones centrais da sua linguagem visual. O que revelam estas formas sobre a sua visão em evolução da ecologia e da espiritualidade pós-secular?
TS: Colocar as plantas no centro da exposição como ícones é uma forma de alterar discretamente o eixo da representação sagrada. Em vez de projetar a transcendência em figuras antropomórficas, interessa-me situar a sacralidade nos próprios sistemas vivos. As plantas personificam uma espécie de inteligência distribuída e de tempo profundo que se aproxima mais da forma como hoje compreendo a continuidade espiritual. Não são símbolos de algo além do mundo — são, por si só, expressões de complexidade relacional, interdependência e devir.
AB: De que forma é que a exposição evocou as cosmologias indígenas e a reverência das culturas antigas pela natureza, substituindo figuras antropocêntricas por plantas como pontos focais da veneração espiritual?
TS: Muitas cosmologias indígenas encaram as plantas, os animais e as paisagens como pessoas, agentes e mestres, e não como objetos. Através da adoção de formas vegetais como centros iconográficos, as obras fazem eco desta visão do mundo. Trata-se menos de citar cosmologias específicas e mais de criar uma situação visual na qual os espectadores são convidados a vivenciar a vida não humana como digna de reverência e atenção. Nós, primatas, pensamos que governamos o mundo, mas suspeito que continuam a ser as plantas a fazê-lo.
AB: Em que medida é que trabalhar com materiais como o bronze e os ecrãs LED o ajuda a navegar entre o orgânico e o sintético?
TS: Numa perspetiva pós-antropocêntrica, sinto-me inclinado a tratar todas as coisas como se existissem num plano ontológico de igualdade — aquilo a que os filósofos Ian Bogost e Graham Harman se referem através da ideia de uma “litania de Latour”.
Esta abordagem coincide fortemente com visões de mundo animistas, nas quais os seres humanos são simplesmente um tipo de animal entre muitos, e os objetos e tecnologias que criamos são fenótipos alargados da nossa espécie — não diferentes, em princípio, de formigueiros ou conchas marinhas. Tudo isto se desenrola no domínio da natureza. A partir desta posição, o meu trabalho recorre livremente a diversos materiais e tecnologias, desde o bronze aos ecrãs LED, sem atribuir hierarquias morais a nenhum deles.
AB: De que forma é que a tecnologia digital influencia a sua prática material?
TS: Fundamentalmente, não acredito na tecnologia como uma categoria ontológica rígida em si mesma. Desde o uso do ocre na pintura rupestre, a arte sempre esteve na vanguarda da exploração tecnológica. As ferramentas digitais funcionam como extensões do meu pensamento percetivo e morfológico. Utilizo a digitalização 3D, por exemplo, como forma de trabalhar com formas encontradas na natureza sem ter de as extrair ou destruir fisicamente, como os processos tradicionais de escultura muitas vezes exigem.
O que me interessa é a forma como os processos digitais espelham os biológicos — iterativos, generativos e, muitas vezes, semiautónomos. Este paralelo reforça a ideia de que a computação em si pode ser entendida como uma propriedade da natureza.
AB: Como descreveria a ligação conceptual entre morfologia/morfogénese e a sua prática artística?
TS: A morfologia diz respeito ao estudo da forma; a morfogénese diz respeito à origem da forma. Interesso-me tanto pela aparência das coisas como pelos processos que as geram.
Nos meus primeiros trabalhos, concentrei-me nos processos morfológicos da cultura visual contemporânea. Tal como muitos dos primeiros artistas pós-Internet, investiguei o imaginário comercial e da cultura de massas, bem como os sistemas latentes que o produziam, em busca de paralelos mais profundos com a morfogénese evolutiva. Encarava isto como um projeto fundamentalmente político. Com o tempo, estas investigações conduziram-me ao que considero a camada mais profunda da morfogénese cultural: a religião e a espiritualidade. Por volta de 2016, esta mudança coincidiu com a transformação da minha marca-como-escultura Peace naquilo que se tornou New Peace.
AB: Em exposições recentes, estas obras sugerem uma “desantropocentrificação” do sagrado. Como concebe o sagrado em relação à vida não humana?
TS: Para mim, o que é sagrado é muito simples e muito concreto: esta Terra, os animais, as plantas, as rochas, os solos, as águas, o pôr-do-sol e o nascer do sol, e todos os demais elementos.
AB: De que forma é que a sua educação multicultural influenciou as suas ideias sobre a era pós-digital e as narrativas ecológicas interculturais?
TS: O facto de ter crescido em diversos contextos culturais fez com que me fosse difícil aceitar qualquer cosmologia específica como universal. Essa instabilidade revelou-se produtiva — abriu espaço para conceber os sistemas de crenças como modulares, em evolução e adaptáveis.
AB: Nas suas esculturas, há frequentemente uma tensão entre o intemporal e o tecnologicamente novo. Como faz para equilibrar estas temporalidades?
TS: Não as vejo como opostas. As tecnologias são simplesmente a forma mais recente de magia. Por outro lado, o desejo humano de criar significado, ritual e forma simbólica é ancestral. Ao combinar tecnologias emergentes com linguagens materiais arquetípicas, procuro honrar a própria Mãe, recorrendo às várias formas de magia que tenho ao meu dispor.
AB: Como encara a ideia de “sistemas de significado distribuídos” e de que forma isso se reflete nas obras que tem apresentado recentemente?
TS: Em vez de atribuir um significado único e fechado a um objeto, encaro cada obra como um nó dentro de uma ecologia simbólica mais ampla. O significado surge através das relações — entre materiais, imagens, espectadores, contextos e o tempo. Isto reflete os sistemas ecológicos, em que nenhum elemento isolado contém o todo.
AB: Muitas das suas obras incorporam ideias habitualmente abordadas na filosofia ou na ecologia. Como vê a sua prática como uma forma de investigação filosófica?
TS: Nos meus primeiros trabalhos, senti-me muito atraído pelas correntes contemporâneas da filosofia, uma vez que a arte é, na verdade, uma forma de pensamento incorporado. Senti-me especialmente cativado pelos novos materialismos e pelos realismos especulativos, porque os reconheci como momentos em que as tradições intelectuais ocidentais começaram a aproximar-se do pensamento indígena. Este caminho acabou por me levar de volta à importância da espiritualidade.
AB: Uma vez que a cultura pós-Internet é frequentemente associada à ironia e à crítica, qual é a razão pela qual considera que o seu trabalho se inclina, pelo contrário, para a sinceridade e a reflexão espiritual?
TS: Quem tem tempo para ironia? A ironia é uma ferramenta poderosa, mas tende a transformar-se numa postura defensiva. Interessa-me mais o que se pode construir do que o que se pode desmantelar.
AB: Que novos rumos ou questões está atualmente a explorar no seu estúdio — especialmente no que diz respeito à condição pós-digital e à consciência ecológica?
TS: De momento, estou a treinar modelos de IA com as minhas fotografias da natureza de ecossistemas específicos e a produzir trabalhos fotográficos a partir desse processo. Trata-se de uma modalidade emergente da fotografia, na qual o que é captado é o espaço latente de uma paisagem, e não a própria paisagem. Acredito que esta modalidade vai tornar-se um novo paradigma fotográfico. Num plano mais amplo, questiono-me sobre a forma como a arte se pode envolver na formação de novas gramáticas espirituais adequadas a uma era de crise planetária.
BIOGRAFIA
Alexander Burenkov é um curador independente, produtor cultural e escritor sediado em Paris. O seu trabalho estende-se para além das funções curatoriais tradicionais e inclui a organização de exposições em espaços não convencionais, enfatizando frequentemente a multidisciplinaridade, o interesse pelo pensamento ambiental e as sensibilidades pós-digitais, abrangendo projetos como a Yūgen App (lançada na Bienal de Design do Porto em 2021), uma exposição num ginásio ou uma exposição online sobre serviços na cloud e modos alternativos de educação, ecocrítica e estética ecofeminista especulativa. Destacam-se os seguintes projetos recentes: Don't Take It Too Seriously na Temnikova&Kasela gallery (Tallinn, 2025), Ceremony, o projeto principal da 10ª edição da feira Asia Now (juntamente com Nicolas Bourriaud, Monnaie de Paris, 2024), In the Dust of This Planet (2022) no ART4 Museum; Raw and Cooked (2021), juntamente com Pierre-Christian Brochet no Russian Ethnographic museum, São Petersburgo; Re-enchanted (2021) na Voskhod gallery, Basel, e muitos outros.
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