Maria Inês Mendes: Como foi o processo até começar a trabalhar com algoritmos generativos e, depois, com robôs
Leonel Moura: Foi no final do século passado, quando apareceram os primeiros computadores acessíveis, que comecei a trabalhar com computadores. Na verdade, sempre fui um artista conceptual e, por isso, a passagem para o meio digital deu-se muito naturalmente. O meu trabalho começou por ter uma base fotográfica, durante os anos 70 e 80. Depois, comecei a trabalhar com computadores e, mais recentemente, com algoritmos generativos, que são aqueles algoritmos - diferentes dos de controlo - que permitem gerar qualquer coisa de diferente e de novo. Quando comecei a trabalhar com o meio digital, percebi que se abria um novo campo na arte e fui, sobretudo, percebendo o potencial da criatividade das máquinas.
MM: O seu trabalho foi pioneiro no campo da arte robótica, mas também ao nível da ciência. Como é que entende essa relação entre a ciência e a arte?
LM: Sempre tive uma ligação muito forte com o meio científico, sobretudo com o Instituto Superior Técnico, onde tenho alguns amigos de longa data, que, aliás, me apresentaram os algoritmos generativos que simulam o comportamento das formigas. Parece-me que a relação entre ciência e arte poderá ser muito frutífera. Do meu ponto de vista, o artista tem uma enorme vantagem sobre os cientistas que é não ter de demonstrar nada. Se um cientista fizer uma descoberta, essa terá de ser demonstrada, replicada por outros que confirmem esse mesmo resultado. O artista não precisa de demonstrar nada; muitas vezes não tem qualquer expectativa sobre o resultado e isso dá-lhe uma enorme liberdade de experimentação.
Durante muitos anos, e precisamente por estar a fazer experiências pioneiras com enxames de robôs, nunca era convidado para eventos no meio artístico. Todos os eventos em que participava eram científicos. Isto parece-me acontecer porque a arte não está interessada neste tipo de coisas; porque resiste (e continua a resistir) à tecnologia. Ainda assim, felizmente, hoje há muitos artistas que trabalham com tecnologias digitais. São ainda poucos os que utilizam o código e parece-me importante fazermos esta distinção. Por um lado, temos os artistas que se servem da tecnologia, que usam máquinas fotográficas e o Photoshop, por exemplo. Por outro lado - e é neste grupo que me insiro - temos aqueles que trabalham com código, que o alteram e manipulam.
MM: Parece-me, portanto, que não se refere à tecnologia como uma ferramenta, mas como um agente criativo. Como é que traça essa distinção entre ferramenta e agente criativo e em que medida poderemos falar da criatividade das máquinas?
LM: Sempre fiz essa distinção, sempre achei que o computador - mais do que uma ferramenta - era uma entidade inteligente e criativa. Que é muito diferente, por exemplo, de um berbequim, que tem um botão onde carregamos e que nos auxilia numa determinada tarefa. O computador pensa e, portanto, a relação que estabeleço com essas máquinas inteligentes e criativas é naturalmente diferente. O que tenho defendido é que, de certa maneira, temos de evoluir e de aprender a relacionar-nos com as máquinas de outra maneira. Penso que hoje, com a disseminação da Inteligência Artificial (IA), a ideia da máquina como uma mera ferramenta esteja também a perder força. Há pessoas que utilizam o ChatGPT apenas para colocar perguntas, à semelhança de um motor de busca, mas podemos ir mais longe. Para mim, o ChatGPT, e outros modelos de IA, são parceiros com quem desenvolvo os meus projetos. Eu dou o meu contributo, eles dão o seu e, em conjunto, vamos trabalhando até chegarmos a um resultado final. Os trabalhos que estou a mostrar na Fundação Meo, na exposição Lascaux 2.0, foram todos feitos em conjunto com máquinas, desde a concepção, que aconteceu em discussão com modelos de IA de linguagem generativa, até à produção das peças em impressão 3D. Se nos meus primeiros trabalhos ainda escrevia o código para programar os meus robôs, neste momento, até o código do robô-pintor que atua em tempo real foi escrito por IA. Introduzi uma série de indicações e uma descrição do hardware do robô para que ele pudesse construir este código. Para mim, isto é olhar para uma máquina como um parceiro criativo.
MM: A este respeito, poderão ser levantadas questões relacionadas com a autoria dos trabalhos. Como lida com estas questões?
LM: Exatamente, todas essas questões podem e devem ser levantadas. Eu considero que sou um artista e, como tal, sou também um autor. Mas o robô que está a fazer uma pintura é também um autor. Entendo estes trabalhos como o resultado de um processo de co-autoria, uma espécie de cooperação ou de simbiose que se aproxima, por exemplo, de alguns casais que trabalham em conjunto, ou de alguns artistas que se associam e que assinam em conjunto.
MM: Há pouco referia-se à criatividade e à imaginação das máquinas. Confesso que me é ainda difícil conceber esta ideia, especialmente porque entendo as máquinas e os algoritmos como uma extensão da criatividade humana, resultado de uma bagagem cultural que lhes é induzida artificialmente. Como entende esta questão?
LM: Acho que a nossa dificuldade de conceber as máquinas como agentes criativos vem de uma visão muito antropocêntrica das coisas. Tentamos sempre ver tudo da nossa perspectiva e, por isso, quando falamos de inteligência, estamos quase sempre a referir-nos à inteligência humana. Mas as formigas, os cães e as baleias também são inteligentes: são inteligências diferentes da nossa. Diria que o mesmo se aplica à criatividade. Aquilo que é criativo é precisamente aquilo que cria algo novo e diferente do que existia anteriormente. Deste ponto de vista, podemos mesmo entender o planeta como um ser criativo, capaz de gerar milhares de espécies completamente diferentes. A criatividade é o princípio motor da natureza.
Naturalmente, a criatividade tem também que ver com a arte, mas esta é apenas uma componente da criatividade e não o seu todo. Há outras espécies que produzem coisas que poderíamos facilmente considerar arte. Os pássaros, por exemplo, fazem umas instalações muito coloridas para atrair as fêmeas que estão próximas do nosso entendimento da arte. No fundo, a arte é aquilo que nós, humanos, consideramos como tal, que foi legitimado por instituições como os museus. A história da arte vai registando a evolução da arte e, nesse sentido, estes trabalhos que têm sido desenvolvidos por robôs já lá estão.
MM: Ainda a propósito deste assunto, disse, numa entrevista anterior, que o artista do futuro não será humano.
LM: Eu sou um artista e, portanto, sou também um provocador. Esta afirmação é um exemplo de uma provocação, mas não foi gratuita. Disse isso algures em 2002 e foi publicado em 2003, numa altura em que ainda não havia IA como a conhecemos hoje. Na altura, percebi que havia ali um enorme potencial e que daí resultariam coisas de que gostaríamos muito. E isso é, de facto, aquilo que tem acontecido. Há muitas coisas que têm sido produzidas por IA que já nem são sequer derivadas da cultura humana. Esse input inicial humano está praticamente concluído, de modo que, neste momento, as máquinas estão a evoluir independentemente, com o conhecimento, a experiência e os milhões de imagens geradas entretanto. Têm surgido também algumas polémicas que confirmam o que que disse. Houve um livro que recebeu um prémio literário fantástico e, quando mais tarde se descobriu que este tinha sido escrito por IA, o prémio foi retirado. Isto para mim não faz qualquer sentido, porque do ponto de vista da apreciação estética, este foi considerado muito bom.
Para além disso, se entendermos a arte como uma forma de expressão, poderemos ainda questionar se as máquinas têm algo a expressar, se há qualquer intencionalidade por detrás destes trabalhos. A meu ver, acho que as máquinas não têm qualquer intencionalidade e que a intencionalidade é uma questão filosófica humana. Mas isso não me parece relevante para o entendimento do que será arte. A verdade é que, inclusive no contexto humano e na história da arte, há muitos exemplos de formas de arte sem intencionalidade. Os expressionistas, por exemplo, serviam-se muitas vezes do acaso e estavam mais interessados na ação e no gesto de fazer do que na intencionalidade propriamente dita. Acho que o mesmo se aplica aos meus robôs: a intenção é fazer. Depois, isto pode gerar uma pintura com determinadas características, mas o foco será sempre o processo.
MM: Para encerrarmos esta conversa, pergunto: que tipo de relação imagina entre humanos e máquinas no futuro?
LM: Acho que estamos ainda numa fase muito inicial, numa relação simbiótica. Neste momento, a máquina precisa de nós e nós precisamos da máquina - estamos a aprender mutuamente. Eu tenho por hábito conversar diariamente com IA sobre algumas questões que me interessam e tenho aprendido muito. Mas a verdade é que estou a ficar muito dependente e que, no futuro, consigo imaginar um momento em que a IA deixará de se interessar por mim. Não acredito nas teorias da conspiração que nos dizem que as máquinas nos vão matar a todos, mas acho que, à medida que estes sistemas ganham mais autonomia, vão deixar de querer estar ao serviço do humano. Diria que este será um processo gradual, mas para lá caminhamos, até porque os próprios modelos de negócio de IA exigem o máximo de autonomia possível aos seus modelos.