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Quando fecho os olhos na minha horta, é fácil perceber como coisas verdadeiramente maravilhosas estão a acontecer ali, onde a vida brota a cada segundo, emoldurada por uma natureza exuberante, repleta de animais, pessoas, veículos, água, ar… uma paisagem sonora incessante que se estende por toda a parte à volta de quem se detém para escutar.
E não é só isso; o balanço suave da existência tranquila da vida rural provoca uma agitação interior que se move lentamente entre o que está a acontecer fora e o que está a acontecer dentro, uma comunicação silenciosa que nos transporta organicamente e, ao mesmo tempo, nos ancora à terra.
As vozes nas aldeias soam dez vezes mais altas, e não apenas porque o ruído não as silencia ou porque não estão confinadas entre quatro paredes, mas porque o vínculo humano, impulsionado pela perda cada vez mais irreparável de vizinhos, é o elo fundamental na formação das suas comunidades.
A Rosalía chorava ao despedir-se da pequena horta que tanto amava, e não me surpreende. Se alguma de todas as que percorrem esta paisagem sonora não tiver uma horta, convido-a a vir à minha e a regressar a ela sempre que queira.
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[versão original em galego]
As aldeas quedan baleiras, van esmorecendo pouco a pouco grazas ao incesante traballo urbanizador do capitalismo e o estado, pero, aínda así, o rural está morto?
Pechando os ollos na horta da miña casa é sinxelo percibir como alí pasan cousas realmente marabillosas, onde a vida brota a cada segundo enmarcada nunha natureza desbordante, tinguida por animais, persoas, vehículos, auga, aire… unha incesante harmonía sonora que se estende arredor de quen para a escoitar.
E non só pasa isto, o doce mecer da calma existencia do rural provoca un remexer interno que vai pasando paseniñamente entre o que ocorre fora e o que ocorre dentro, unha comunicación silenciosa que de xeito orgánico te transporta e te amarra á terra ao mesmo tempo.
As voces nas aldeas soan multiplicadas por dez, e non só porque o ruído non as acale ou non estean encerradas entre catro paredes, senón porque o vínculo humano, impulsado pola cada vez máis irremediable falta de veciñas, é o elo fundamental na conformación das súas comunidades.
Rosalía choraba cando se despedía da hortiña que quería tanto, e non me estraña. Se algunha das que camiñades por esta paisaxe sonora non tedes horta, convídovos á miña, e que volvades a ela cantas veces queirades.
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A rubrica Soundscape tem coordenação de Fernando José Pereira