Resistência (substantivo feminino)
Ação ou efeito de resistir, de não ceder nem sucumbir. Recusa de submissão à vontade de outrem; oposição [...] Tendência para suportar dificuldades [...] Qualidade de um corpo que reage contra a ação de outro corpo.
A Independência em Cabo Verde, alcançada em 1975, reafirma-se no âmbito das artes com a inauguração de um novo pensamento: a necessidade de resgate de peças dispersas pelo arquipélago, recolhidas e valorizadas enquanto vestígios verdadeiramente autênticos da identidade cultural do povo cabo-verdiano. Estávamos em 1976, e o ambiente era propício à criação da Cooperativa Resistência, que se erguia hasteando, através do próprio nome, a principal característica de um povo: resistência.
Em julho, mês em que celebramos a Independência de Cabo Verde, o Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design – CNAD, instituição construída sobre a pedra basilar da Cooperativa Resistência, marcou os 50 anos de um movimento que permanece único em Cabo Verde, quer ao nível do seu pensamento, quer através da obra desenvolvida. O seu conceito agregador/arquivístico permitiu elencar e dar a conhecer as artes e os ofícios no país, abrindo caminho para a reinterpretação de formas, técnicas e materiais.
A exposição surge como um ato irreverente.
Seria natural pensar que, no quinquagésimo aniversário da Cooperativa Resistência, surgissem elementos provenientes do levantamento realizado pelo coletivo, bem como obras produzidas nesse período.
Conceptual e interativa, a exposição recebe quem chega com um fundo preto: um grande cortinado negro que delimita um primeiro compartimento da exposição, recordando os extensos panos cenográficos sequenciados que correm ao longo dos palcos, como que reservando entre si momentos diferentes de uma peça.
E, neste caso, o primeiro momento é estático e introdutório, contrapondo dois extensos elementos têxteis, dispostos verticalmente, que representam duas tipologias de tecelagem e simbolicamente nos remetem a duas identidades diferentes existentes no arquipélago: as ilhas do barlavento com o calabedoche e as ilhas do sotavento com o pano de terra. Apesar de dispostas verticalmente, sobressaem da parede branca através de um suporte que lembra um cavalete ou um tear estilizado, sugerindo a continuidade de uma história que continua a ser escrita, um emaranhado que continua a ser tecido. Num primeiro olhar, a composição assemelha-se a dois assentos de costas altas, duas poltronas ou patamares nos quais assenta a realidade de um país que se faz a partir da diversidade.
Na lateral, lê-se um manuscrito de Manuel Figueira, no qual a primeira frase é sublinhada: “Era no dia 20 de janeiro de 1975”. Nesse pequeno texto, Manuel Figueira fala de uma exposição que realizou no ex-grémio, atual museu do CNAD, dando especial destaque a uma importante revelação que teve nesse período e que chegava até si através de dois momentos: o primeiro, uma peça de vestuário e de uma banda tecida em Santo Antão e, em segundo, o livro de António Carreira, Panaria Cabo-verdiano Guineense. No final do manuscrito, lê-se: “Foram tais revelações que contribuíram grandemente para que, mais tarde, um ano depois, viesse a surgir aquilo que chamámos ‘Cooperativa Resistência’”.
Atravessando o pesado cortinado negro - e olhando-o debaixo, na minha pequenez - recordei a (pesada) bandeira negra da fome como um marco omnipresente da história de Cabo Verde, a “resistência” de um povo e a presença de Capitão Ambrósio, que, depois de ler o manuscrito de Manuel, se clarificava na minha memória.
Entramos em um novo compartimento. Aqui, experimentamos outra dimensão - escurecida. O breu instala-se. Estamos entre cortinas, aquelas que, como referia, se sucedem no palco guardando momentos distintos de uma peça de teatro. Neste caso, a dimensão performativa será, como veremos, em crescendo até ao final da exposição, assumida pelo visitante.
Neste compartimento vemos uma edição de vídeo de Grace Ribeiro, intitulada de No antigo consulado inglês (início dos anos 80), realizada com recurso imagens originais captadas pelo coletivo nesse período e que mostram a importância da tecelagem para as artes e ofícios no país e, por conseguinte, para o trabalho do coletivo, desde a recolha da matéria-prima para manuseio, quer para urdir e/ou para tingir, até à reinterpretação das formas, o trabalho no tear e a criação artística. O título remete para o lugar onde se instalou inicialmente a Cooperativa e para um dos edifícios históricos mais emblemáticos da cidade, demolido na última década. Recordava os estilhaços que compõem a obra Ex-consulado Inglês de Manuel Figueira, como fragmentos de memória misturados com fragmentos de matéria e com a típica poeira que se levanta nos usuais dias de vento na cidade de Mindelo.
Transpunha uma nova cortina; era um novo momento. Na projeção, via o pano de terra; porém, não se apresentava de forma estática. Era o pano de terra; no entanto, a sua imagem era dinâmica, transformando-se, estilizando-se, decompondo-se. Era o presente a acontecer; através do digital, a reinterpretação acontecia, representando possibilidades diversas para aquele elemento e promovendo outras formas de olhar, ver, experimentar e testar. Nessa projeção, o pano de terra, tornava-se pano diGiterra, um trabalho do artista português Luis Grifu.
Nova cortina. Entendia; era o 3º ato. Aquela sucessão de cortinados assumia-se, de facto, na minha cabeça como três momentos diferentes, ou três atos, neste caso. Este era o auge da peça; entrava em um espaço maior, em que a projeção contínua acontecia ao longo de 8 metros e onde se sucediam imagens que me remetiam para aquilo que conheço da Cooperativa Resistência. Tentava decifrar o que me parecia menos evidente. Chegava perto, afastava-me, aproximava-me de novo. Estava no centro da imagem. Literalmente, a minha imagem — o meu contorno, a minha silhueta — espelhava-se na projeção, entrava dentro daquele emaranhado que agora não era apenas de fios; era de muitas outras coisas que, mais ou menos evidentes, passavam a contar com a minha presença. Também o áudio remisturado, onde se cruzavam diferentes referências a Cabo Verde - como o som dos tambores de São João - reagia à minha própria presença; assim que o meu corpo se assumia no interior da imagem projetada, ouvia Manuel Figueira - como um eco que começara na introdução da exposição, com o seu manuscrito. Era um eco do passado que se ouvia com nitidez, em comparação com a remistura musical que se encontrava no fundo e inundava todo o espaço expositivo, todos os “entre-cortinas”, todos os atos.
Na minha frente, continuava vendo refletida a minha imagem na projeção, uma silhueta de limites vagos, como o contorno de uma gota de chuva na água, que me repetia simultaneamente no vídeo refletido. Era o futuro. Estávamos num espaço/tempo diferente, apenas ancorados pela voz de Manuel.
Traços de Resistência era o nome daquele momento, pensado por Luís Grifu, em que os traços da resistência inerentes ao povo cabo-verdiano se cruzavam com os fios tecidos pela cooperativa, espelhando o entorno, a matéria e a vida.
A exposição 50 Anos de Memória, Criação e Resistência, apresentada pelo CNAD - Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design, celebra o meio século de história da Cooperativa Resistência (fundada em 1976), que foi o núcleo embrionário e a primeira instituição cultural criada após a independência do país. A exposição pode ser visitada na Galeria Bela Duarte, localizada no Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde.