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Perdurar como Paradoxo, no Espaço Fundação MEO
DATA
29 Out 2026
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AUTOR
Carla Carbone
“Demarcando-se da lógica curatorial tradicional, da mera contemplação passiva da obra, esta abordagem transcende também as barreiras cronológicas das obras, muito embora pese, na seleção exposta, a escolha de duas décadas distintas - de 90 e 2000 - do século XX. Deste modo, Perdurar como Paradoxo destrona e desafia a linearidade da narrativa curatorial, revelando também a diversidade de obras de arte presentes na Coleção de Arte Contemporânea da Fundação MEO."
A prática da curadoria de arte, na atualidade, reveste-se de vários desafios, entre eles o entrosamento de diferentes tipologias numa única exposição, como pintura, escultura, instalação, entre outras formas líquidas de criação artística mais recentes. Uma das linhas decorrentes desses desafios, na exposição Perdurar como Paradoxo, é o critério de justapor e estabelecer, entre obras de artistas, oposições e "dissemelhanças", por um lado, e reverberações e familiaridades, por outro. Em suma, pretende estabelecer-se um elemento unificador, muitas vezes pictórico, que se expande e dilata em conformidade com o espaço da exposição.
É o caso da obra Smoke get in your eyes (2000), de Rosa Almeida. Um emaranhado de delicadas e ondulantes películas transparentes, oriundas de maços de tabaco, surge dentro de uma moldura, perfuradas pelo calor de pontas de cigarros. Ressoando reminiscências de Arte Povera, e talvez, a delicada brandura de Mariza Merz, bem como as obras que realizou na mudez da sua casa e na sombra dos holofotes, enquanto acompanhava a carreira artística do seu marido, Mário Merz. A obra de Rosa Almeida encontra eco também numa outra obra, presente na exposição, intitulada Papel Queimado, da artista Maria José Oliveira. A obra de Maria José Oliveira, realizada em 2000, permite-nos associar, de forma eficaz, todo um corpo de obras dos vários artistas, apresentados na exposição.
Outras familiaridades fazem-se sentir entre a obra Sem título, de Fernando Brito, constituída por um cruzeiro colorido construído inteiramente com peças Lego, e a flamejante peça Fire (2023), de Ragnar Kjartansson. Esta obra comunica com o exterior, quando, imediatamente, no início da exposição, a perscrutamos, virada para a entrada do espaço expositivo. 
Numa primeira sala, observamos um conjunto de desenhos de Martinha Maia (2004), que, posicionados em fileira, demonstram a repetição obstinada de pequenos traços de tinta da China. Como sulcos desferidos sobre a superfície branca do papel, convocam o visitante a uma intrigante averiguação sobre o sentido da gestualidade da artista, concretizada, por fim, por uma ávida fluidez de escrita cartográfica e um fugidio reconhecimento de figuras, ora abstratas, ora figurativas. Obras como "Erros 44"(Mecânico) (1995), de Eduardo Batarda, e a obra Sem título, da série Dez Desenhos Órficos (1997), realizada por Maria Tomás, estabelecem um elo pictórico sobre todo o conjunto.
Nas práticas curatoriais de hoje, os critérios são múltiplos, não bastando estabelecer uma exposição estática de obras de arte, ou uma mera fixação das mesmas, nos termos físicos, mas também traçar um caminho reflexivo, uma tomada de posição crítica sobre a arte, um incentivo à articulação e à comparação das obras de arte. Demarcando-se da lógica curatorial tradicional, da mera contemplação passiva da obra, esta abordagem transcende também as barreiras cronológicas das obras, muito embora pese, na seleção exposta, a escolha de duas décadas distintas - de 90 e 2000 - do século XX. Deste modo, Perdurar como Paradoxo destrona e desafia a linearidade da narrativa curatorial, revelando também a diversidade de obras de arte presentes na Coleção de Arte Contemporânea da Fundação MEO.  
O facto de compreender um corpo de obras de artistas de várias gerações, com linguagens distintas, contribui tanto para o enriquecimento da exposição, agora patente no Espaço Fundação MEO, como para a construção de uma História da Arte Portuguesa viva, respondendo aos desafios atuais da historiografia da arte, bem como às exigências da curadoria contemporânea.
A miscigenação de meios e suportes artísticos, nesta exposição, bem como a imaterialidade da obra, podem ser encontradas na obra digital de Miguel Soares, ARCHIBUNK3R Associates (2000), bem como na instalação Lazy Eye, de Alexandre Estrela, obra realizada em 1998. 
O artista, como vem sendo habitual no seu percurso artístico, convoca-nos para uma experiência imersiva e sinestésica da arte, onde o espectador é desafiado, no sentido perceptivo, a, camada por camada, destrinçar os códigos e deslindar os estímulos provocados pelos vários elementos lumínicos ou físicos que compõem as suas instalações. Em Lazy Eye, o artista explora a cinesia do olho e o movimento sacádico que descreve quando o cérebro procura identificar novos volumes e formas. Como nos diz Terry Smith: o curador atual não se limita à fisicalidade do espaço, mas a todo um corolário de conhecimentos que se densificam no passado e, em simultâneo, se estendem a um futuro. 
A exposição Perdurar como Paradoxo revela-nos também obras de arte assentes na discursividade, e no "statement". Verificamos obras de artistas onde a ideia, a palavra e a frase surgem amplamente representadas e evocativas do conceptualismo de Kosuth, das reinvindicações de Kruger, da poética de Baldessari e Lawrence Weiner.
Sobre um aglomerado de madeira, revestido a fórmica, Cristina Mateus desfere frases como "Mais não tenho a dizer", ou "Estou cansada, estou muito cansada", dirigindo o uso da declaração e da frase para a esfera da expressão da interioridade e da emoção humana. 
Por fim, num entrosamento de obras, que se revelam articuladas de forma sólida e consolidada, podemos ainda encontrar obras de Maria Tomás, Luís Palma, Eduardo Nery, Marta Moreira, Pedro Casqueiro, Pedro Cabrita Reis, e a série Black is Black, de Pedro Proença.
A exposição pode ser visitada até dia 13 de novembro de 2026.
BIOGRAFIA
Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador.
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