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A paisagem no Rodamoinho: Marina Rheingantz no ICA de Milão
DATA
04 Fev 2026
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AUTOR
Matteo Bergamini
Rodamoinho, a exposição de Marina Rheingantz no ICA – Instituto de Arte Contemporânea de Milão, é um dispositivo para olhar além da pintura, entrelaçando diferentes memórias e geografias.

Dentro do prédio brutalista do ICA, nas margens da cidade de Milão, encontram-se resquícios de histórias que parecem misturar-se; vieram do interior do Brasil para o cinza da planície mais vasta e poluída da Europa, unindo paisagens: é o Rodamoinho, de Marina Rheingantz (Araraquara, SP, 1983 - representada pela galeria Fortes d'Aloia e Gabriel), a sua primeira individual em Itália.
A investigação da paisagem foi o primeiro gatilho na trajetória da artista: «Comecei a pintar em 2005, quando ainda estudava artes. O meu pintor favorito era o Iberê Camargo, e na época comecei a guardar rolinhos de papel, para fazer composições e pintar depois. Delas, foram aparecendo as paisagens. Fui buscar na memória as de Araraquara, onde eu cresci, onde tem plantações de cana e uma perspectiva vasta», explica-nos Marina, afirmando que, no decorrer do tempo, a sua pintura viveu de muitas, e ao mesmo tempo pequenas, mudanças.
De facto, no salão térreo do ICA, algo se altera na nossa percepção quando nos aproximamos das telas - nem tudo é óleo, aliás, nem tudo o que é cor é pintura: antecipando o que virá logo depois, nos ambientes a seguir, eis uma tapeçaria cujas manchas são bordadas em pinceladas de agulha, áreas de nuanças vindas dos quadros.
Foi em 2015, durante uma residência em Londres, que Marina descobriu a tapeçaria marroquina e começou a usá-la como referência: «Gostava muito, na época, da ideia de paisagem simbólica, paisagens reduzidas, gráficas, com símbolos: por isso, comecei a usar a textura da tapeçaria na pintura. No começo, eram duas coisas separadas: pinturas verticais relacionadas com a tapeçaria, e pinturas horizontais mais de paisagem. Porém, com o tempo, estas juntaram-se, e as coisas foram desenrolando até hoje. Mas nunca deixei de pintar as paisagens, as coisas vão e vêm, misturam-se. Gosto da relação das pinturas com o trabalho têxtil».
Ao deixar o primeiro espaço da exposição, reparamos: a cor dos ladrilhos do chão sobrevive ao tempo e às gentrificações milanesas – de uma tonalidade industrial antiga, entre marrom e vermelho, reflete-se nos próprios tons das pinturas de Marina. Ao subir, no vão principal do ICA, a surpresa, mais do que na esquina, nos espera nas paredes de quatro pequenas salas: as tapeçarias, dessa vez, assumem um formato ambiental, ocupando os espaços por inteiro, trocando idealmente a própria identidade com as pinturas que, por sua vez, mantêm uma dimensão mais íntima, embora o conjunto da produção toda pareça viver em diálogo com a arquitetura.
«Eu não fui conhecer o ICA antes da exposição, então não sabia desses detalhes. Mas foi uma bela surpresa, porque mesmo os jacquards pareciam uma continuação da parede da escada, e o piso das salas menores também. Enquanto instalava os tecidos, pensei justamente isso: esse chão poderia virar um padrão para um jacquard, ou mesmo uma pintura», declara a artista, que nos conta também como as costuras vieram de uma ideia da mãe, que quis fazer um bordado a partir de uma pintura. «É um processo bem lento. Mas os bordados sempre vêm de alguma pintura, ou algum detalhe de alguma pintura. Acho que o maior desafio é entender o sentido a dar para isso. E entender como isso volta à pintura: é um caminho que ainda estou entendendo, é uma pesquisa recente».
A pintura de Marina Rheingantz – seja por tecidos, fios ou tinta, sempre mantém uma dimensão ampla, vibrante e, simultaneamente, diluída: manchas de terra e de céu, revelando a paixão pelas obras de Richard Diebenkorn (1922-1993), principalmente pela série OceanPark, de 1972. São diluições que remetem também à técnica da aquarela, que Marina afirma contribuir muito para o seu processo. Embora cada pintura tenha um caminho muito individual, diferentes pontos de partida que viram fundos desaparecem, tornam-se rastros e fantasmas.
«Acho difícil dizer como acontece o meu processo pictórico, ele é uma mistura de muitas coisas, mas, no fim, sempre acho que tem a ver com o tesão na tinta. Eu brincava muito na lama quando era criança, e muitas vezes sinto que pintar é voltar um pouco para essa desordem e liberdade da infância, onde não se controla nada», revela-nos a artista, cujos títulos dos seus trabalhos nos remetem a uma imagem da natureza, a um material, a uma condição: Maritaca, Sugito, Honey… ou o Rodamoinho por si. A atribuição dos títulos é um processo que vem de anotações, listas de palavras, de lugares, poemas ou sugestões de amigos que a ajudam na escolha: «Eu gosto muito desse processo, porque vem de um olhar de fora, que vê a pintura de outro jeito, abrindo outros sentidos».
Com curadoria de Alberto Salvadori, a exposição pode ser visitada em Milão até dia 7 de março.
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