Ocupando este espaço desde 2019, María inicia, em 2025, um projeto que almejava, desde a sua abertura, a realização de residências artísticas anuais com artistas que não possuem experiência em cerâmica. A primeira residência, distribuída por quatro estadias ao longo de um período de um ano, foi dedicada ao artista Miguel Sánchez Lindo. Na sala de entrada do espaço, encontramos várias peças do artista, que dão continuidade à sua prática na pintura e no design. Deste modo, assim como a sua estadia foi dividida em quatro momentos, María refere que poderemos observar uma clara transformação na abordagem de Miguel à cerâmica, que, tendo aprendido consigo os fundamentos iniciais, rapidamente começou a desenvolver trabalho autonomamente.
Sendo assim, vemos como alguns trabalhos – maioritariamente os primeiros – assentam não só na aprendizagem das técnicas básicas da cerâmica, mas também num olhar maioritariamente pictórico. Ao transportar para a cerâmica a sua prática mais natural, esta tornou-se um suporte intuitivo para uma nova pintura, sendo os painéis de azulejos especialmente reveladores desse percurso. Dando-lhe continuidade, na segunda estadia, o artista interessou-se particularmente pelo azul-cobalto, presente de forma generalizada em toda a exposição. Assim, é possível ver como a prática da residência não apenas reitera as preocupações pictóricas do artista madrileno, como as reorganiza num novo contexto, incorporando no seu vocabulário visual elementos provenientes do quotidiano portuense, como é o caso dos legumes que surgem nos seus painéis.
Por outro lado, como o próprio artista relata, se nas experiências iniciais a novidade do meio limitava o seu controlo, com o tempo, as explorações afastaram-se da simples utilização da cerâmica como novos planos para pintar e tornaram-se experiências com a própria tridimensionalidade e especificidade da cerâmica. São os desenvolvimentos no seio desta abordagem que culminam nas peças que dão nome à exposição: A Mesa Posta. Aqui, encontramos uma mesa para uma refeição inteiramente composta por peças em cerâmica, onde o trabalho sobre a sua materialidade se desdobra em pratos, garfos, facas e até guardanapos. Se podemos pensar que estes objetos são apenas representações da sua função original, interessa referir que os artistas organizaram um jantar, utilizando os objetos produzidos como um complemento à sua exposição. É precisamente esta relação de intimidade que caracteriza o espaço, bem como os diversos vetores que dele emergem. Cruzam-se contactos entre pessoas e práticas e criam-se diálogos através da constante aprendizagem.
A exposição A Mesa Posta pode ser visitada no Atelier 968, no Porto, até dia 14 de fevereiro.