Mattia Tosti, que assina a folha de sala, sugere, na apresentação da exposição, a ideia de que os trabalhos de Brum possam ser comparados a um dispositivo de gravação similar à criada pelo jovem físico Karl Jasnky, em 1928. Incumbido de tatear todo o tipo de movimento e sinais que interferiam nas transmissões de rádio, Jasnky recolheu perturbações atmosféricas, tempestades elétricas e movimentos de maquinaria industrial para o projeto, até concluir que um ruído permanecia, independentemente da localização do transmissor; sugerindo uma interferência sonora de fora do sistema solar.
Pode-se, de facto, pensar que as cores e os gestos são uma espécie de ruído primordial do mundo. Anteriores à linguagem e coisa que a linguagem, eventualmente, obscurece e dissimula, a expansão e a contenção do movimento do universo reúnem-se no nosso corpo por meio do respirar das sensações e temperaturas que nos acometem. Meaurleu Ponty dizia que inspiração é, verdadeiramente, um termo acertado: encontramo-nos dentro do movimento do universo e inspiramos e expiramos com ele. Nesse movimento, não há palavra e não há nome: há respiração e destituição de forma, e muitas vezes ruído antes da música.
Na exposição de Brum, as cores aparecem, em um primeiro momento, ainda como expressão de temperatura e movimento, em uma espécie de caos original. Firestorm of stars (2025) é a primeira obra e o nome não nos deixa mentir. As formas não chegam ainda a formar-se: estamos diante de cores veiculadas por meio de gestos, que variam entre o ímpeto e a delicadeza. Sobretudo nas primeiras obras da exposição, Brum usa de forma abundante o espaço vazio dos quadros greige, concedendo respiração e movimento às obras. É precisamente nesse movimento que se forma a paisagem, que é uma paisagem em andamento. O intervalo entre as cores é espaço, tempo e energia - e as cores são formas desgarradas de um alfabeto por desconhecer.
Em latim, sidera é o termo que evoca o desenho das constelações, formando a via láctea ou aquilo que chamamos de o espaço sideral: o espaço dos sidera, dos astros. Na Antiguidade e na Renascença, era possível olhar os astros e pedir uma resposta a respeito do destino. A isto dizia-se considerar - estar na presença dos astros, estar entre os astros. Tantas vezes, entretanto, os astros estavam em silêncio. Esse silêncio e essa separação passam a ser marcada pelo uso do de-. Se considerar é estar com os astros, desiderare é estar sozinho, sem o apoio dos astros, em busca do sentido do seu destino. E é daí que vem desejo, desiderium, que quando se transforma num sentimento de tipo psicológico, passa a significar o sentimento da falta de alguma coisa. O desejo é, neste sentido, o sentimento da falta, definido como o desgarrar do ser na amplidão do cosmos. Aquilo que desejo é aquilo que me falta - e ao desejar, eu avanço.
Sem um ponto central a conduzir, desterritorializado, astrológico, o olhar circula, fazendo-nos movimentar junto do quadro e entre quadros, como se estivéssemos dentro do impulso primordial que habita o movimento do mundo. Estamos inseridos em uma espécie de constelação cosmo-óptica dos gestos, avançando para que o ímpeto, o movimento e as temperaturas intermediárias formem as primeiras imagens. Aos poucos, em alguns quadros, pungente, e em outros casos, delicado, fulgurante e veloz, o pincel passa a transportar de forma delicada os tons escuros, sugerindo profundidades e evocando, constantemente, a incerteza dos contornos.
Poder-se-ia dizer que Brum flutua entre o lírico expressionismo e o expressionismo lírico, apresentando paisagens cromáticas que transcendem a impressão da paisagem estática e dão lugar ao movimento, à impressão e ao vértice. O pintor constrói em primeiro lugar planos de aproximações e distanciamentos, que serão subvertidos posteriormente em outras obras mais concentradas. Dotadas de uma organicidade angular, as obras passam a conquistar paisagens incertas, mais densas e povoadas, dando-nos a desconfiança de havermos ou não encontrado aquilo que julgamos encontrar. Essa desconfiança está diretamente relacionada à densidade híbrida das cores, à sua reunião.
Se no piso superior essa concentração já se apresenta em alguns quadros, no piso inferior os gestos multiplicam-se, povoam-se, formando uma paisagem mais concentrada e estática, em que o movimento está inscrito internamente. Forjam-se, assim, obras com maior impressão de completude e excesso, já dispersas e subtilmente sugeridas no primeiro piso.
É sobretudo pela escolha das cores que Brum conquista certo lirismo, sobretudo em obras como Para encontrar o azul eu uso pássaros (2025) ou Não tem altura o silêncio das pedras (2025). Estão presentes o rosa, o azul, o turquesa, o cinzento e um uso equilibrado de preto. Diferenciam-se em certa medida das obras do piso inferior, que guardam o branco e um clima outonal e gélido. Ainda que não divididas de forma absoluta pela curadoria, entre formas povoadas e vazios avisados por leves rompantes, é possível notar as variações da melodia de Brum na sua forma de habitar o vazio.
Muitas vezes fui acometida pela impressão de me deparar com paisagens naturais – montanhas, folhas secas, inverno. Em outras, estava longe sequer de qualquer impressão. Não há certeza alguma n’aquilo com o qual nos deparamos. A exposição de Brum treina-nos, nesse sentido, para o não-familiar, para o estranhamento e para o inquietante, produzido pelo tensionamento das cores com o pincel, pelo entrelaçamento dos gestos às cores e pela variação entre o vazio e o povoamento das formas.
Se o pintor tateia, à forma dos dispositivos de Jasnky, as formas, os gestos e as texturas à nossa volta, independentemente da sua distância ou dimensão, ensina-nos também a estar preparados para, precisamente, não saber o que encontramos. Mais do que isso, para encontrar apesar disso. Esta será, precisamente, a diferença entre a arte e a ciência. Não se trata de capturar nada, nem de entender nada. Siderar, sideral, avançar com o desejo, pelo próprio prazer de siderar.
Por vezes, é disto que se trata: não há comunicação, objetivo ou ponte na experiência estética; há um mistério que é preciso aceitar. O mistério das ressonâncias é, no fundo, uma metáfora para o eventual papel do artista em tatear o desconhecido. Avançando astrologicamente, planetas distantes, próximos ou mínimos, planetas que, tantas vezes, somos nós mesmos, são capturados pela antena do pintor. Tantas vezes, vêm a nós, como luas murmurando na água.
A exposição Horizonte de Eventos, de Fernando Mello Brum, pode ser visitada na 3+1 Arte Contemporânea, em Lisboa, até dia 14 de março.