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A cor e o gesto - um ruído primordial do mundo: Fernando Mello Brum na 3+1 Arte Contemporânea
DATA
25 Fev 2026
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AUTOR
Mariana Varela
Em uma pequena travessa da Rua de São Bento, a 3+1 Arte Contemporânea reserva dois pisos à exposição Horizonte de Eventos, que reúne 12 pinturas de Fernando Mello Brum. Estamos diante de um conjunto de pinturas de respiração cromática, inscritas em um campo de experimentação estética.
Mattia Tosti, que assina a folha de sala, sugere, na apresentação da exposição, a ideia de que os trabalhos de Brum possam ser comparados a um dispositivo de gravação similar à criada pelo jovem físico Karl Jasnky, em 1928. Incumbido de tatear todo o tipo de movimento e sinais que interferiam nas transmissões de rádio, Jasnky recolheu perturbações atmosféricas, tempestades elétricas e movimentos de maquinaria industrial para o projeto, até concluir que um ruído permanecia, independentemente da localização do transmissor; sugerindo uma interferência sonora de fora do sistema solar.
Pode-se, de facto, pensar que as cores e os gestos são uma espécie de ruído primordial do mundo. Anteriores à linguagem e coisa que a linguagem, eventualmente, obscurece e dissimula, a expansão e a contenção do movimento do universo reúnem-se no nosso corpo por meio do respirar das sensações e temperaturas que nos acometem. Meaurleu Ponty dizia que inspiração é, verdadeiramente, um termo acertado: encontramo-nos dentro do movimento do universo e inspiramos e expiramos com ele. Nesse movimento, não há palavra e não há nome: há respiração e destituição de forma, e muitas vezes ruído antes da música.
Na exposição de Brum, as cores aparecem, em um primeiro momento, ainda como expressão de temperatura e movimento, em uma espécie de caos original. Firestorm of stars (2025) é a primeira obra e o nome não nos deixa mentir. As formas não chegam ainda a formar-se: estamos diante de cores veiculadas por meio de gestos, que variam entre o ímpeto e a delicadeza. Sobretudo nas primeiras obras da exposição, Brum usa de forma abundante o espaço vazio dos quadros greige, concedendo respiração e movimento às obras. É precisamente nesse movimento que se forma a paisagem, que é uma paisagem em andamento. O intervalo entre as cores é espaço, tempo e energia - e as cores são formas desgarradas de um alfabeto por desconhecer.
Em latim, sidera é o termo que evoca o desenho das constelações, formando a via láctea ou aquilo que chamamos de o espaço sideral: o espaço dos sidera, dos astros. Na Antiguidade e na Renascença, era possível olhar os astros e pedir uma resposta a respeito do destino. A isto dizia-se considerar - estar na presença dos astros, estar entre os astros. Tantas vezes, entretanto, os astros estavam em silêncio. Esse silêncio e essa separação passam a ser marcada pelo uso do de-. Se considerar é estar com os astros, desiderare é estar sozinho, sem o apoio dos astros, em busca do sentido do seu destino. E é daí que vem desejo, desiderium, que quando se transforma num sentimento de tipo psicológico, passa a significar o sentimento da falta de alguma coisa. O desejo é, neste sentido, o sentimento da falta, definido como o desgarrar do ser na amplidão do cosmos. Aquilo que desejo é aquilo que me falta - e ao desejar, eu avanço.
Sem um ponto central a conduzir, desterritorializado, astrológico, o olhar circula, fazendo-nos movimentar junto do quadro e entre quadros, como se estivéssemos dentro do impulso primordial que habita o movimento do mundo. Estamos inseridos em uma espécie de constelação cosmo-óptica dos gestos, avançando para que o ímpeto, o movimento e as temperaturas intermediárias formem as primeiras imagens. Aos poucos, em alguns quadros, pungente, e em outros casos, delicado, fulgurante e veloz, o pincel passa a transportar de forma delicada os tons escuros, sugerindo profundidades e evocando, constantemente, a incerteza dos contornos.
Poder-se-ia dizer que Brum flutua entre o lírico expressionismo e o expressionismo lírico, apresentando paisagens cromáticas que transcendem a impressão da paisagem estática e dão lugar ao movimento, à impressão e ao vértice. O pintor constrói em primeiro lugar planos de aproximações e distanciamentos, que serão subvertidos posteriormente em outras obras mais concentradas. Dotadas de uma organicidade angular, as obras passam a conquistar paisagens incertas, mais densas e povoadas, dando-nos a desconfiança de havermos ou não encontrado aquilo que julgamos encontrar. Essa desconfiança está diretamente relacionada à densidade híbrida das cores, à sua reunião.
Se no piso superior essa concentração já se apresenta em alguns quadros, no piso inferior os gestos multiplicam-se, povoam-se, formando uma paisagem mais concentrada e estática, em que o movimento está inscrito internamente. Forjam-se, assim, obras com maior impressão de completude e excesso, já dispersas e subtilmente sugeridas no primeiro piso.
É sobretudo pela escolha das cores que Brum conquista certo lirismo, sobretudo em obras como Para encontrar o azul eu uso pássaros (2025) ou Não tem altura o silêncio das pedras (2025). Estão presentes o rosa, o azul, o turquesa, o cinzento e um uso equilibrado de preto. Diferenciam-se em certa medida das obras do piso inferior, que guardam o branco e um clima outonal e gélido. Ainda que não divididas de forma absoluta pela curadoria, entre formas povoadas e vazios avisados por leves rompantes, é possível notar as variações da melodia de Brum na sua forma de habitar o vazio.
Muitas vezes fui acometida pela impressão de me deparar com paisagens naturais – montanhas, folhas secas, inverno. Em outras, estava longe sequer de qualquer impressão. Não há certeza alguma n’aquilo com o qual nos deparamos. A exposição de Brum treina-nos, nesse sentido, para o não-familiar, para o estranhamento e para o inquietante, produzido pelo tensionamento das cores com o pincel, pelo entrelaçamento dos gestos às cores e pela variação entre o vazio e o povoamento das formas.
Se o pintor tateia, à forma dos dispositivos de Jasnky, as formas, os gestos e as texturas à nossa volta, independentemente da sua distância ou dimensão, ensina-nos também a estar preparados para, precisamente, não saber o que encontramos. Mais do que isso, para encontrar apesar disso. Esta será, precisamente, a diferença entre a arte e a ciência. Não se trata de capturar nada, nem de entender nada. Siderar, sideral, avançar com o desejo, pelo próprio prazer de siderar.
Por vezes, é disto que se trata: não há comunicação, objetivo ou ponte na experiência estética; há um mistério que é preciso aceitar. O mistério das ressonâncias é, no fundo, uma metáfora para o eventual papel do artista em tatear o desconhecido. Avançando astrologicamente, planetas distantes, próximos ou mínimos, planetas que, tantas vezes, somos nós mesmos, são capturados pela antena do pintor. Tantas vezes, vêm a nós, como luas murmurando na água.
A exposição Horizonte de Eventos, de Fernando Mello Brum, pode ser visitada na 3+1 Arte Contemporânea, em Lisboa, até dia 14 de março.
BIOGRAFIA
Mariana Varela (n. 1991) é poeta e socióloga. Publicou "Enigmas de Jaguar e Jasmim" (2019) e "Rotativa" (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária "Frente!" e edita atualmente a revista literária "Letra Lenta". Formada pela Universidade de São Paulo, com um mestrado em sociologia pela Universidade Nova de Lisboa, frequenta atualmente o doutoramento em filosofia na mesma instituição. Escreve artigos na Intersecção da Estética e da Filosofia.
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