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Jogos de Cena: brilha enquanto vive, na Brotéria
DATA
03 Mar 2026
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AUTOR
Tomás Camillis
"De catástrofes e simulacros é composta a exposição brilha, enquanto vive, de Xavier Ovídio e João Timóteo. Adentrando-se a primeira sala da instalação, sente-se nos destroços de alguma calamidade. A cabana fora reduzida a uma quebradiça estrutura, incapaz de abrigar. Há três cabeças murchas espalhadas pelo chão, cobertas por moedas cujo brilho espelha os lampejos amarelos polvilhando nas árvores da paisagem."
A poética de Jorge Luis Borges talvez atinja o seu paroxismo na cena final do conto A Morte e a Bússola, quando o detetive Lönnrot, na simétrica chácara de Triste-Le-Roy, escuta o plano do vilão Scharlach, que construíra um labirinto de pistas para atraí-lo à sua morte. Rendido, o detetive não o ofende numa tentativa desesperada de reaver o seu orgulho. Antes, propõe-lhe outra sorte de labirinto, retilíneo, onde os novos crimes ocorreriam nas metades dos caminhos entre os crimes antigos. Numa próxima vida, aguarde-me em tal lugar, diz Lönnrot, e lá me mate de novo, como agora vai matar-me em Triste-Le-Roy. Qual seria a causa deste arroubo intelectual que menospreza o senso básico de autopreservação? O superar do animalesco em prol da clareza racional é uma trajetória favorita do intelecto, mas que redenção haverá no jogo mórbido, metempsicótico, entre dois indivíduos?
O aparato lógico que sistematiza o mundo, como proposto por Descartes, foi a grande aposta da modernidade. Pensar o sujeito enquanto entidade autónoma, mais confiável que o real ao redor, nos permitiu um senso de solidez, após o esvaziar da religião. Se já não confiávamos na veracidade do além, poderíamos ao menos confiar em nossa clareza mental. Enquanto detetive, Lönnrot deveria representar a razão que disseca o real para dele extrair a verdade dos fatos, mas prefere passar o tempo lendo antigos tomos de misticismo judaico. Não porque é lapso - pois o exercício intelectual é também um jogo abstrato que, ao substituir o real por construções mentais, pode entusiasmar-nos à loucura. Ao fim, Lönnrot compreende ter habitado um simulacro fabricado por outro indivíduo. Pouco importa, pois não pretendia tanto desvendar o crime - é o êxtase do jogo que o atrai. Sua epifania é o desenho de um novo labirinto, ainda melhor. O embate nunca fora entre humano e realidade, mas entre humano e humano. Tudo o que existe quer atingir a sua máxima potência, Nietzsche escreve, e a razão não tem compromisso com nada que não seja o seu próprio deslumbre.
Também pensadores como Kierkegaard e Freud questionaram o sujeito cartesiano, transportando para o nosso íntimo a dúvida antes situada no mundo. Heidegger diz sermos não uma entidade sólida, mas um campo de ser que se expande ao redor, atravessado pelo tudo e pelo nada. William James chega mesmo a questionar o conceito de consciência, argumentando que a unidade mais básica da vida é a mesma para sujeito e objeto: a pura experiência. Ao analisar Cézanne, Merleau-Ponty apresenta-nos um indivíduo que vive esta dúvida, dirigindo-se à experiência do mundo para aprender a perceber melhor.
Mas seria possível, de facto, contemplar a natureza de maneira imediata? Ou estamos sempre atrelados à cultura? O humano é esta estranha criatura que talvez nunca se tenha sentido em casa na natureza, conservando em si um desconforto que haveria de ser o impulso à cultura. Em estágios, foi separando-se, substituindo o ambiente imposto pelo contexto construído. Agora, encontra-se num sistema de representações apelativas que visam contorná-lo, em seu isolamento, de um labirinto de simulacros, retirando a sua agência para torná-lo num mero repositório de discursos. Embora o seu assédio seja arrasador, nada disto é inaudito, pois o humano talvez sempre tenha sido criatura cultural mais próxima de suas representações do que de um suposto real à ele interdito. Parecendo inocente abordar o indivíduo sem estudar as condições sociais que o influenciam, e suspeitando de qualquer discurso que se dissesse objetivo e absoluto, o pós-estruturalismo professou a desconstrução dos sistemas e a rejeição do individualismo. No campo das artes, tais princípios foram traduzidos em procedimentos: a descrença ao génio, a livre apropriação, a mescla de cópia e original, a instabilidade de sentido, o ceticismo crítico, a auto-reflexão, a intertextualidade, o simulacro, o pastiche, a ironia. Se o real não está disponível sem mediação, o artista explora a cultura enquanto contexto no qual as representações são percebidas e pensadas. A arte torna-se mais comentário que criação, e o artista mais um operador cultural que um proponente plástico.
É incerto se tais técnicas são as mais adequadas à exploração de tal temperamento existencial, mas muitos artistas aceitaram-nas, pois acabam por, paradoxalmente, sistematizar a sua prática. Apropria-se de certas representações históricas ou atuais, ironizam-se os seus discursos, misturam-se referências e estilos para criticar o essencialismo moderno dos géneros artísticos, confessa-se a atrofia das artes e, tendo sido “efetuada” a desconstrução, dá-se por satisfeito. Derrida dizia que a linguagem é uma estrutura negativa, um sistema de signos relacionáveis que deferem o seu sentido final. Uma palavra adquire determinada conotação não pelo que ela é, mas por tudo o que não pode ser. O negativo de fato vem penetrando-nos, desde Pascal talvez. Há uma madura impessoalidade em sua aceitação, que não precisa decair em cinismo. Acreditar que tudo é provisório não pressupõe apatia existencial, mas justo um aparato crítico mais atento. Vivermos assolados por representações não significaria justo uma responsabilidade ainda maior das artes? Na ausência de doutrinas, é preciso pensar melhor do que a razão jamais permitiu-nos pensar.
II
Borges é um dos exemplos do intelectual pós-moderno: erudito desafeto de utopias que aceita a vida com maturidade e resignação, não desprovido de um subtom de ceticismo, e jogo. Passamos a preferir os lúcidos solitários, suas incertezas parecendo-nos mais humanas do que as pretensões modernistas. O século passado ensinou-nos: estamos sempre na antecâmara de alguma catástrofe. Um senso da fragilidade inerente a todos os nossos projetos está no cerne da experiência contemporânea.
De catástrofes e simulacros é composta a exposição brilha, enquanto vive de Xavier Ovídio e João Timóteo. Adentrando-se a primeira sala da instalação, sente-se nos destroços de alguma calamidade. A cabana fora reduzida a uma quebradiça estrutura, incapaz de abrigar. Há três cabeças murchas espalhadas pelo chão, cobertas por moedas cujo brilho espelha os lampejos amarelos polvilhando nas árvores da paisagem. De início ponderei Vesúvio, talvez pela sua qualidade plástica, ou pela morosidade das faces que me lembrou a pedra-pome. Mas a destruição é deliberada demais para ser natural - a cabana é descontinuada nos eixos, as faces são um foco compositivo, o fundo não esconde a falsidade, como a janela-pintura da cabana, único elemento sólido ali abrigado. Estamos numa encenação, sua qualidade teatral apenas reforçada pelos outros elementos, dentre eles: uma mesa de banquete onde o ator dispõe o cardápio de cabeças, um fundo falso e desordenado escondendo os utensílios da cenografia, e duas cabeças penduradas na parede às nossas costas, comprimidas numa violência plástica.
A exposição possui um caráter alegórico. O trauma da suposta catástrofe instaura uma apatia generalizada que avança o passado sobre o presente, coibindo o ímpeto adiante. Também a arte contemporânea vive semelhante dilema - após cem anos de experimentação livre e rupturas heroicas, desembocamos não na utopia, mas na destruição em massa. Cansados de futuro, voltamo-nos ao exame “histórico”, à apropriação de escombros e ao hibridismo associativo, à ficção e à ironia. Ao comentar a pós-modernidade, Fredric Jameson qualifica o simulacro como a cópia de um original inexistente. Esta barraca nunca foi um abrigo, e este fundo não evoca paisagem alguma. A coroa ao fim da exposição não é o símbolo do rei, mas do bobo, e tampouco as esculturas são máscaras que pressupõe uma face real para vesti-las, mas cabeças esvaziadas de uma vitalidade talvez nunca real. Mas por detrás do pastiche há sempre uma sombra de desespero, uma vaga revolta contra a apatia. O que qualifica a boa obra talvez seja a sua capacidade de superá-lo.
Também Borges dedicava-se à paródia. Seu livro Ficções revisita géneros, subvertendo-os: o próprio A Morte e a Bússola inverte a lógica da investigação, já no primeiro parágrafo, dizendo-nos o seu desfecho. Mas o seu interesse pelo simulacro não é um fim-em-si - é antes a aceitação de nossa misteriosa experiência da realidade e a partir da qual ele explora os seus temas. O cético duvida apenas, enquanto método para alcançar o sentido. Sabe que se a tudo relativizar, fechar-se-á num círculo redundante que fala apenas de si: é a arte esotérica, que explora apenas o próprio estatuto das artes, assim regressando, paradoxalmente, ao sujeito autocentrado - não enquanto força, mas vazio incapaz.
E o que é encenado aqui? Há duas camadas: encena-se o desastre, e encena-se a própria encenação. Em ambos, o discurso é o mesmo: a impotência da arte enquanto projeto. A casa é incapaz de abrigar, e a sua única janela é um quadro mal pintado, ironizando a concepção renascentista da pintura-janela. O próprio desastre foi encenado, pois sua origem não foi externa, mas íntima - Nietzsche julgou que o humano moderno, nascido numa ruptura existencial, desembocaria na vontade de poder. O seu destino seria o vazio da terra incógnita jamais alcançada, e o niilismo de contemplar a destruição efetuada. A exposição torna-se assim uma ontologia da derrota, e não aleatoriamente a plasticidade de suas obras carrega uma exaustão e uma debilidade. Este fatalismo dobra as coisas sobre si, comprimindo-as em seu estado atual, impedindo a transformação positiva. Algumas das cabeças sinalizam-nos uma possível redenção. Esmagadas entre a consciência e a matéria bruta, parecem querer cristalizarem-se em ouro ou vidro. Mas o vidro é bola-de-gude infantil, e o ouro é falso.
brilha, enquanto vive, de Xavier Ovídio e João Timóteo, está patente na Brotéria até o dia 14 de Março.
BIOGRAFIA
Tomas Camillis é autor e pesquisador baseado em Lisboa. Escreve narrativas fictícias e ensaios no contacto entre arte, filosofia e literatura. Possui mestrado em Teoria da Arte pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Nos últimos anos participou de pesquisas, lecionou cursos em institutos culturais, auxiliou na organização de simpósios e publicou em revistas especializadas. Atualmente colabora com o Serviço Educativo do MAC/CCB e com a revista Umbigo.
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