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ARQUEOLOGIA REMIX: Sobre o Tempo e a Sua Incerteza
DATA
27 Ago 2026
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AUTOR
Guilherme Sota
“Com curadoria de Filipa da Rocha Nunes e obras de Xiao Zhiyu, Luís Rocha, Lyz Parayzo e Joana Lourenço, Arqueologia Remix vai muito além de uma simples ilustração dos dois conceitos como aparentes opostos, incitando, antes, a uma compreensão dos mesmos enquanto propostas construtivas à problemática comum de habitar o tempo. Entre as obras reunidas, torna-se claro que em momento algum lidamos com um passado intacto ou um presente singular, pois cada tentativa de preservação implica uma reorganização e cada gesto de criação traz consigo vestígios de outras temporalidades.”
Existe uma impossibilidade irresolúvel em habitar o presente, como se a sua fundamental indefinição nos castigasse com uma fuga eterna, um desfoque constante que se clarifica apenas quando se nos escapa e, enfim, se reformula em história. O presente sempre se ficciona demasiado cedo ou demasiado tarde; jamais se desvela no seu próprio tempo. É evidente que esta relação de impossibilidade resulta da nossa própria condição temporal. A ficção do presente não é mais que a antecipação e a representação de um reflexo fabricado, ou, por outros termos, uma ansiedade crónica herdada à nascença, uma autopreservação genética. Talvez seja precisamente desta condição temporal que resultem alguns dos gestos mais persistentes da nossa história, desde o escavar, arquivar, copiar e transformar, até ao criar e destruir. Mais do que meras operações sobre objetos ou imagens, estes gestos surgem, enfim, como modos de navegar o tempo e de negociar a nossa relação com o que nos precede e com o que ainda não existe.
Embora não seja evidente de forma imediata, é em semelhante paisagem conceptual que a exposição Arqueologia Remix, patente na Galeria Cristina Guerra, se situa e adquire uma ressonância quase ontológica. Com curadoria de Filipa da Rocha Nunes e obras de Xiao Zhiyu, Luís Rocha, Lyz Parayzo e Joana Lourenço, Arqueologia Remix vai muito além de uma simples ilustração dos dois conceitos como aparentes opostos, incitando, antes, a uma compreensão dos mesmos enquanto propostas construtivas à problemática comum de habitar o tempo. Entre as obras reunidas, torna-se claro que em momento algum lidamos com um passado intacto ou um presente singular, pois cada tentativa de preservação implica uma reorganização e cada gesto de criação traz consigo vestígios de outras temporalidades.
Mais ainda se revela pertinente a problemática levantada num momento histórico em que a proliferação incessante de imagens e a circulação contínua de informação parecem dissolver a estabilidade da memória e da experiência. Torna-se incerta uma ideia de arqueologia num momento em que o próprio passado se demonstra instável. Dilui-se o sentido do remix quando este nos chega todo-envolvente. Comprova-se, pois, infrutífero pensar a problemática apenas entre as quatro paredes do espaço expositivo. A arqueologia e o remix designam aqui muito mais do que metodologias artísticas ou esferas temáticas representadas de variadas formas ao longo do território delineado da arte contemporânea, antes, servem um propósito anterior a esse – respondem à nossa condição temporal (essa que Heidegger nomeou como comovente fatalismo) e revelam-se como propostas para compreender e habitar o tempo num mundo onde a origem há muito deixou de funcionar como fundamento absoluto.
Existir é temporalizar-se. Ou antes: é a própria existência que atribui ao tempo o seu significado. O temporalizar manifesta-se, pois, não como a inserção do Ser numa qualquer linha cronológica, mas como o contínuo desvelar do tempo que o atravessa. Porque nenhum gesto arqueológico devolve um passado intacto – escavar é sempre interpretar, reorganizar, reinscrever vestígios numa nova constelação de sentido – e porque nenhum remix parte de um presente absoluto – toda a recomposição trabalha sobre formas, imagens, narrativas e memórias que persistem, ainda que transformadas, no tecido do presente – torna-se evidente que a experiência temporal jamais se organiza como uma sucessão linear de instantes, mas como um incessante entrelaçamento entre o que herdamos e o que projetamos.
Seja o carácter documental de Anthropological Bunker (2025), de Joana Lourenço, ou as semi-ficções visuais de Xiao Zhiyu, as obras reunidas em Arqueologia Remix tornam visível de que modo os materiais deixam de funcionar enquanto testemunhos de um tempo perdido para se apresentarem como fragmentos ativos, capazes de produzir novas relações e novas leituras sobre o tempo. O passado não se estira como paisagem originária estável e fixa, mas como matéria disponível para inúmeras reconfigurações do sensível; o presente, por sua vez, deixa de aparecer como um ponto de partida autónomo: surgindo, antes, como um lugar onde diferentes temporalidades coexistem numa contaminação recíproca.
Se, e ainda na senda de Heidegger, existir significa navegar uma historicidade herdada, então toda a cultura deverá ser entendida como uma prática de temporalização. Muito mais do que simples operações realizadas sobre objetos, arquivar, conservar, restaurar e, enfim, remixar, revelam-se modos de compreender a nossa presença num mundo que nem recebemos intacto nem transmitiremos completo. Arqueologia e remix manifestam-se, assim, como duas modalidades de um mesmo gesto cultural de sobrevivência: o esforço incessante de dar forma à experiência temporal que nos constitui.
Olhando uma vez mais para trás, se o passado deixa de existir como um dado cristalizado por uma qualquer lei divina para se tornar uma construção continuamente reconfigurada pelos nossos próprios gestos terrenos, então a arqueologia não consiste mais na recuperação de uma origem, mas na descoberta das condições que tecem os discursos culturais. (Parece inevitável, e quase ironicamente apropriado, regressar a Foucault quando falamos de arqueologia.) O vestígio arqueológico não conserva o passado. Organiza-o, delimita-o e (re)produz os modos através dos quais pode ser reconhecido e, enfim, compreendido. A arqueologia revela-se ela própria um gesto de montagem – um remix antes do remix – que, ébria de amor pelo passado, sempre tropeça na sua reprodução.
O remix é sempre fruto da arqueologia, seja esta uma arqueologia longínqua ou um olhar atento sobre a anterioridade imediata. Não será, pois, insensato depreender que vivemos rodeados de reconfigurações, reproduções e repetições de uma arqueologia em constante crescimento. Importante será recordar que estes movimentos nada têm de mera replicação, ou que, pelo menos, por detrás desse aparente replicar tornam possível, antes, a emergência de uma diferença (Deleuze, 2000): cada repetição desloca aquilo que se repete, reinscrevendo-o num novo tecido de compreensão. O remix destruiu o original, mas em momento algum o substituiu; evidencia, sim, que qualquer original apenas sobrevive através das sucessivas transformações que o atualizam. Também a arqueologia, enquanto primeiro remix, participa dessa lógica, pois cada nova leitura dos vestígios modifica inevitavelmente aquilo que entendemos como passado.
A contemporaneidade levou esta condição ao seu limite. Numa era saturada de imagens, reproduções e arquivos digitais, o referente, neste caso o passado (ou o seu vestígio), progressivamente perde a sua função de fundamento, tornando indistinguíveis a preservação e a reconfiguração. Perdemos a paisagem que se estendia sob a sua representação cartográfica (Borges, J. L., 2020). Por sua vez, a nostalgia – esse sentimento informe que nos assola sem pedir permissão à medida que percorremos o labirinto de móbiles hostis de Lyz Parayzo (2024) e as reduções pré-objetivas de Luís Rocha (2025-2026), até descermos as escadas em direção ao bunker de onde parece emanar a nuvem nostálgica – não se dirige mais a uma origem remota, a uma paisagem perdida, incidindo antes sobre a própria dúvida da paisagem, convertendo o passado numa realidade incerta, porque em permanente reconstrução. É, assim, mergulhados em tal incerteza que Arqueologia Remix nos comprova que qualquer que seja o gesto empregue, ambos constituem reações indissociáveis a uma mesma ansiedade crónica, subtil mas insistente, perante a nossa condição temporal.
Habitar o tempo nunca foi uma tarefa pacífica. Estamos condenados a existir entre o que se dissolve e o que ainda procura uma forma. Porventura a ansiedade que caracteriza o presente não resulte apenas da aceleração do mundo, mas da crescente impossibilidade de distinguir com clareza entre memória e invenção, origem e recomposição, permanência e mudança. Ainda assim, é precisamente nessa incerteza que a criação encontra o seu lugar. Nunca criar significou começar do zero, assim como recordar jamais significou regressar apenas ao que já foi. Cada gesto de criação prolonga outros gestos, cada imagem carrega consigo outras imagens, cada tempo estabelece uma abertura sobre outros tempos. A criação não interrompe a continuidade, pelo contrário, torna-a visível, reafirmando que o Ser se constitui menos na estabilidade das suas formas do que na incessante necessidade de as reorganizar. Arqueologia Remix convida-nos a reconhecer o ritmo: não o da nostalgia de uma origem perdida, tampouco o da promessa de uma novidade absoluta, mas o movimento contínuo através do qual nos tornamos aquilo que somos, redescobrindo, sem cessar, a matéria temporal que nos constitui.
Com curadoria de Filipa da Rocha Nunes, a exposição Arqueologia Remix pode ser visitada na Galeria Cristina Guerra até dia 26 de setembro de 2026.
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