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Museu das Expectativas, de Pedro Gomes: O que é um museu?
DATA
26 Ago 2026
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AUTOR
Ana Isabel Soares
Entre outubro e dezembro do ano passado, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, a galeria Kindred Spirit, em Lisboa, apresentou a exposição Museu das Microagressões, primeira de três fases em que se estruturam as apresentações desta obra de Pedro Gomes. A terceira, que encerrará a trilogia, é apresentada com o título Museu Pessoal; a segunda é a que agora se pode visitar em Tavira, na Ermida de São Roque – Museu Municipal de Tavira.
Na folha de sala, o curador da segunda fase da apresentação, João Silvério, sublinha o modo significativo como a disposição dos elementos da obra os integra no espaço da Ermida, convocando a “presença da liturgia religiosa”. Mais de uma vintena de cavaletes, dispostos em várias posições, obrigam a visitante a percorrer a nave, como se o vão da ermida dessacralizada se multiplicasse a cada percurso. Uma expectativa poderia ser imaginar que cada cavalete, com as respetivas duas faces distintas, representasse um indivíduo a assistir a um ritual religioso? Talvez, mas tal leitura não faria jus à atmosfera labiríntica a que se convida. O “museu das expectativas” transforma-as em peças museificáveis: o que habita a exposição pode ser um conjunto de expectativas numa espécie de plataforma intermédia, a aguardar ou a reclamar uma reorganização. É quem visita que, por necessidade, procura operar essa rearrumação: para o fazer, tem de abdicar, precisamente, das expectativas, observar de novo cada peça e procurar, em cada uma e no conjunto, o fio da disposição. Na ermida de Tavira, museu e templo convergem para albergar as peças que constituem uma obra e o ritual que instigam transforma o espaço num lugar cuja arquitetura e códigos de comportamento conduzem o visitante através de uma experiência previamente estruturada: um mundo de expectativas que são, afinal, o que se exibe. Visitá-lo é, nesse sentido, uma espécie de performance que o visitante cumpre e na qual vai constituindo a própria exposição: uma fila de cavaletes esconde a seguinte; cada cavalete não sustenta apenas um “quadro”, e para perceber as duas faces, é necessária uma deslocação que reconfigura o que acabou de se ver.
Este Museu das Expectativas é uma obra única, mesmo se se constitui por vários elementos distintos uns dos outros e autónomos. Todos partilham algumas características, seja de suporte, de materiais ou de formato, mas, precisamente nesses traços, cada um gera uma individualidade que o extrai ao conjunto – o interesse está em ver como essa extração, singular e momentânea, não afeta o corpo total (que, aliás, a contenção da ermida ajuda a consolidar).
Desde o Museu das Microagressões, a ideia de Pedro Gomes (n. 1972) tem sido problematizar a ideia de museu, ou de “sistema institucional de apresentação de conteúdos” (para usar a expressão de Fazenda Rodrigues). Aquilo que se exibe num museu nunca é totalmente separável da maneira como se exibe. Selecionar, classificar, ordenar e enquadrar objetos é sugerir, desde logo, uma interpretação: a do curador, a do artista, a dos visitantes, todas dinamicamente implicadas. Na exposição de Pedro Gomes, a possibilidade deixa de ser um mero princípio museológico e transforma-se em matéria da própria obra.
Seja através do trabalho de construção dos cavaletes, que remetem ao desenho com que Carlo Scarpa reimaginou o design de museus, projetando cavaletes, bases e pedestais modernos para peças e artefatos clássicos em museus tradicionais, seja através do recurso a tecido de desperdício, padrões de toalhas de mesa, gravatas ou outros objetos relacionados com uma estética kitsch (Fazenda Rodrigues fala da “aproximação camp a um universo kitsch”), Gomes revisita ambientes da sua infância. Mas, da mesma maneira que a ideia tradicional de museu procura reconstituir épocas e culturas através de fragmentos, também aqui as décadas de 1970 e 1980 se vislumbram apenas entre espaços, em recortes emoldurados em matéria espessa e quase imperscrutável, cintilando em lampejos de textura, visualidade e até odores.
A materialidade de cada peça da complexa obra que constitui este “Museu” faz entrever a dedicação do artista à sua composição: o fabrico das “telas”, para as quais se escolheram diferentes tipos de desperdício, a seleção dos tecidos que funcionam como “tintas”, as cores desenhadas sobre esses fundos e, nada casual, as medidas dos cavaletes e a posição que cada um ocupa na sala. A escolha desses materiais “menores” é tanto mais significativa quanto eles vêm a ocupar o lugar onde o antecipado código museológico tradicional (a “expectativa”) faria esperar objetos legitimados como “arte”. Aliás, na apresentação da exposição, o Museu Municipal descreve-a como uma instalação que simula “o interior de um museu de Belas Artes, na qual tecidos quotidianos, materiais pobres e desperdícios surgem onde seriam esperadas telas”. A expectativa não é, portanto, só tema: ela engendra-se enquanto mecanismo formal, constitutivo do que se instalou e se mostra. Pedro Gomes oferece cada peça como sinal necessário ao reconhecimento de um “museu” – as medidas de cada cavalete, as duplas “telas”, a disposição, a distância entre os elementos, a dinâmica dos enquadramentos. E, no passo seguinte, subtrai à visita qualquer estabilidade museológica que esses sinais pudessem prometer.
Carlo Scarpa projetava cada cavalete não só para enquadrar as peças, mas igualmente para condicionar a atitude dos visitantes perante elas, obrigando-os a posicionar-se consoante a altura e a inclinação do pedestal, ou cavalete. Recordo a surpresa – ou seja, a demolição de qualquer expectativa que levasse comigo – quando encontrei, no Museu Regional de Palermo, no Palazzo Abatellis, o manto de lápis-lazúli da Virgem Antonello da Messina, a mão recatada e o olhar que parecia querer retardar a Anunciação: as sensações exacerbadas pelo enorme fundo branco em que a relativamente pequena imagem se fixava, como se flutuasse. A mão que pintou foi Antonello, mas ali estava também Scarpa. Pedro Gomes parece colocar uma questão semelhante, de forma particularmente instigante: quando se entra num museu, quanto do que se vê é o artefacto museificado? E quanto faz parte do dispositivo que nos dirige o olhar?
Museu das Expectativas, de Pedro Gomes, pode ser visitada até dia 26 de setembro.
BIOGRAFIA
Ana Isabel Soares (n. 1970) é doutorada em Teoria da Literatura (FLULisboa, 2003) e ensina desde 1996 na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (UAlgarve). Integrou a equipa de fundadores da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento. Interessa-se por literatura, por artes plásticas e por cinema. Escreve, traduz e publica em revistas portuguesas e internacionais. É membro do Centro de Investigação em Artes e Comunicação.
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