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Palpite #2: Desejo – Tédio – Desejo
DATA
05 Nov 2026
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AUTOR
Maria Joana Vilela
"E a transformação acontece algures nesta engrenagem, entre o tédio que desorienta o que conhecemos e o desejo que nos põe em movimento até que nos faça, de novo, parar."
Tenho pensado na revolução. É difícil não pensar na revolução por estes dias, a palavra tem regressado com uma insistência difícil de ignorar. Decidi aceitá-la e pensar sobre o que a põe em movimento: o desejo, suponho; é ele que devora o presente e que exige a transformação. Mas se é verdade que o desejo tem com a transformação uma relação forte, tem-na também com a permanência. O desejo leva-nos a ficar obstinadamente junto das coisas, tanto quanto nos faz afastarmo-nos delas. Foi, pois, ao pensar na dimensão de permanência do desejo que esbarrei no tédio. A própria ideia de revolução pressupõe a passagem por um tempo anterior, mais pesado e mais lento, em que, aparentemente, nada ou pouco acontece, e cuja travessia depende de uma vontade ou necessidade primária de ficar. Aqui, encontrei semelhanças com o que vejo acontecer na prática da arte. Interessou-me explorar essa possibilidade.
Há muito que visito ateliers e outros espaços de trabalho de artistas, e o que vejo desfaz qualquer ideia que coloque esse trabalho na esfera da magia, do dom ou da inspiração. O trabalho de criação não está sujeito a condições e a factos metafísicos e misteriosos, antes depende de uma rotina da insistência que pode muito bem angustiar até os mais dispostos. Todos os dias se regressa aos mesmos materiais, aos gestos que já se conhecem, às cores, às formas; repetem-se experiências, procuram-se soluções, abandonam-se umas, recuperam-se outras. Há dias em que as coisas acontecem, de facto, e há outros em que nada se passa e a única coisa a fazer é esperar; são dias em que o tempo se alarga sem que nada aparentemente o ocupe. Já todos passámos por eles. São dias comuns numa rotina de trabalho, nas relações, ou a respeito de tudo o que quotidianamente se repete uma e outra vez. Portanto, sabemos como é fácil, quando isso acontece, privilegiarmos a distração, procurando preencher o vazio, inventando ocupações, fazendo assunto, mudando de assunto ou qualquer outra coisa que nos devolva a sensação de movimento. Já todos o fizemos. Mas há situações em que insistimos e esperamos. O artista parece preferir insistir, o artista espera.
A decisão de ficar sugere uma ligação entre o tédio e o desejo, porque é preciso estarmos realmente vinculados a alguma coisa para decidirmos ficar junto a ela, mesmo quando ela parece já não ter nada para nos dar. Esse compromisso por vontade manifesta-se, por vezes, como um interesse radical, quase ético, e, por isso, capaz de sobreviver à falta de novidade e obrigando-nos a continuar numa situação. Muitos filósofos indagaram o tema do tédio, mas, a propósito, lembro-me da imagem evocada por Walter Benjamin – no seu texto sobre o papel do narrador –, do pássaro que, sem pressa, choca o ovo. A proposta de Benjamin é simples: um pássaro que choca um ovo não se pode apressar, ele não sabe de antemão quando exatamente estará concluído o processo de que se ocupa, por isso, resta-lhe permanecer até que uma nova ação se torne óbvia. O filósofo descreve, assim, o tédio como uma disposição para acompanhar um processo cujo desenvolvimento não controlamos e, nesse mesmo sentido, como uma disposição para desenvolver uma relação com aquilo que vemos e com que existimos; o tédio é-nos apresentado como a possibilidade de um encontro que se dará na duração, na proximidade e na repetição, que resultará da continuidade e da fricção diária com as mesmas coisas no mesmo lugar. É preciso ficar e querer ficar, pois a vontade, aqui, é parte da possibilidade de revelação de alguma coisa, um querer ver. A coisa acabará por se mostrar, uma forma pedirá outra, um gesto conduzirá a um resultado não esperado; e, na descoberta, é possível que o desejo desponte e o corpo se agite – músculos, tendões, intuição, toda a presença –, passando da atenção à ação, da espera ao fazer. Revela-se assim a natureza dupla e misteriosa do desejo (neste caso, como motor da obra de arte). Por vezes, ele manifesta-se na lógica de uma força sôfrega que vai de dentro para fora, uma urgência próxima da paixão, uma fome que não tolera a espera e que vive da pressa e da vontade de dominar, empurrando o artista para a luta com a matéria. Outras vezes, o desejo manifesta-se como essa espera sossegada, como uma força mansa, uma persistência silenciosa que se alimenta do trabalho simples e rotineiro que limpa, prepara, organiza, repete e encontra o seu sentido na própria mecânica da permanência.
É precisamente a partir da compreensão deste sistema íntimo do atelier que penso ser interessante voltar à revolução e repensá-la. Afinal, e apesar da diferença de escalas, a macropolítica partilha, segundo creio, a mesma estrutura disposicional da criação artística: ambas dependem da capacidade de suspender o peso do inevitável. Quando pensamos numa revolução, tendemos a cometer o mesmo erro de quem olha para a arte esperando apenas o golpe de génio, concentrando-nos no instante em que uma ordem é interrompida e a realidade muda de forma. Mas, tal como a obra não nasce do nada na mente do artista, também a transformação social não nasce de um raio no céu; antes do fulgor da rutura, terá existido o tempo mais ou menos invisível da acumulação, da inquietação e de uma atenção demorada sobre o que já não servia, e que só o tédio permite habitar. Digamos que uma revolução só se torna pensável quando a imaginação concebe que as estruturas presentes são casuais e fortuitas, que as coisas poderiam ser diferentes do que são. Tal imaginação exige um tempo na travessia do descontentamento que se dispôs a olhar para a realidade até lhe detetar as fissuras.
É, aliás, por tanto nisto crer que desconfio das afirmações demasiado fáceis sobre o "poder transformador" da arte. Não creio que uma obra substitua uma ação política nem que resolva, por si só, os conflitos do mundo. Creio que a sua eficácia é mais subtil e, talvez por isso mesmo, mais persistente, na medida em que altera o campo daquilo que nos parece possível, demonstrando a contingência da realidade, ajudando-nos a descobrir que aquilo que julgávamos inevitável, afinal, pode não o ser. Ainda assim, julgo que o suspender da inevitabilidade do mundo é apenas um primeiro movimento na ação revolucionária ou transformadora, e que o verdadeiro desafio reside em habitar a contingência. Descobrir que as coisas podem ser diferentes do que são não significa saber imediatamente o que fazer com essa descoberta; a transformação só é consumada na capacidade de dar continuidade e forma à novidade. É o princípio de um ciclo, parece-me. Quando esta nova estabilidade se consolida, quando a rota revolucionária se transforma num novo conhecido, uma volta encerra-se para se abrir de novo. A rotina que inicialmente acolheu o desejo transforma-se lentamente numa nova ordem conceptual, e esse é o momento em que o tédio ganha espaço para regressar e para nos lembrar que nada se estabelece em definitivo, que nem tudo o que tem valor se apresenta imediatamente como uma experiência interessante, que há coisas que precisam de tempo para nos interessar e outras que só conseguimos verdadeiramente conhecer depois de termos deixado de esperar que nos surpreendam.
O meu palpite é que todo o trabalho de criação e toda a imaginação sobre o mundo vive deste movimento pendular. Nele, o tédio é a condição que nos permite experimentar o mundo como impermanente, numa forma de atenção radical e de compromisso ético com as coisas, uma forma discreta de amor, se quisermos, a partir de onde o desejo suspende a pressa para encontrar uma ação adequada às circunstâncias. E a transformação acontece algures nesta engrenagem, entre o tédio que desorienta o que conhecemos e o desejo que nos põe em movimento até que nos faça, de novo, parar.
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