11 Fev 2026
Explorations of Uncertainty: Arte em Sobreposição
Ensaiopor Alexander Burenkov
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A realidade, outrora imaginada como um sistema estável e mensurável, governado pela causalidade e pelo tempo linear, tornou-se cada vez mais insustentável enquanto modelo cultural. Nas primeiras décadas do século XXI - marcadas pela governação algorítmica, pela computação à escala planetária e por crises epistémicas aceleradas - o quantum deixou de pertencer exclusivamente ao laboratório e emergiu como uma condição cultural. Desenvolvida por Angelique Spaninks (MU Hybrid Art House), Sabine Himmelsbach (HEK) e Monica Bello (Tabakalera), a exposição Explorations of Uncertainty: artists’ visions on quantum está patente na MU Hybrid Art House, em Eindhoven. No início de 2025, foi exibida na Tabakalera (Espanha) antes de seguir para a HEK (Basileia). A exposição posiciona-se num limiar, onde a física quântica deixa de ser uma metáfora, tornando-se uma estrutura urgente para o pensamento artístico.
A exposição chega num momento decisivo. Declarado pelas Nações Unidas como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quânticas, 2025 testemunhou uma proliferação de exposições, simpósios e projetos de investigação artística que abordam a mecânica, deteção e a computação quântica. Desde visualizações especulativas do emaranhamento até instalações baseadas em dados que respondem ao ruído quântico, o ano passado confirmou que a teoria quântica se tornou um dos recursos epistemológicos mais convincentes para a arte contemporânea. Até mesmo artistas de renome como Laure Prouvost, que apresentou WE FELT A STAR DYING - uma instalação-vídeo poética em constante movimento no Kraftwerk Berlin no ano passado, explorando a perceção e a temporalidade através de flutuações efémeras, semelhantes às quânticas - recorreram às complexidades da física quântica para desafiar as narrativas convencionais de tempo, causalidade e materialidade. De forma semelhante, o recente projeto de Pierre Huyghe, Liminals (também apoiado pela Fundação LAS, patente até 8 de março de 2026 no Halle am Berghain), investiga o entrelaçamento dos sistemas orgânicos e ambientes digitais. No entanto, muitos projetos deste tipo permanecem meramente ilustrativos, tratando os conceitos quânticos como uma fonte de inspiração estética em vez de uma força operacional, material ou política.
Explorations of Uncertainty distingue-se por recusar a simplificação. Em vez de explicar a física quântica, a exposição investiga o que significa para a percepção, a acção, a autoria e a responsabilidade quando a incerteza, a probabilidade e a não-localidade são tratadas como princípios organizadores da realidade. Como sugeriu o físico teórico e filósofo David Bohm, a capacidade de perceber ou pensar de forma diferente é muitas vezes mais revelante do que o conhecimento que adquirimos. Neste espírito, a exposição enquadra a teoria quântica não apenas como um modelo científico, mas como uma visão do mundo que destabiliza as dicotomias clássicas - sujeito/objeto, causa/efeito, presença/ausência - que continuam a estruturar grande parte da produção cultural. Enquanto a teoria da relatividade de Einstein relativizou o espaço e o tempo, a física quântica destruiu a própria noção de determinismo: à escala quântica, a realidade não é uma entidade estática, mas um processo dinâmico, que se desenrola condicional e relacionalmente.
No átrio, antes de entrar na exposição, os visitantes são recebidos por um manifesto em vídeo do artista e investigador turco Günseli Yalcinkaya, QULTURE, originalmente encomendado para o Festival CIVA 2025 (Moth Quantum). A obra explora a forma como as ideias da teoria quântica e as suas aplicações tecnológicas estão a ser absorvidas pela cultura contemporânea - através da cultura pop, da estética da Nova Era, dos media e até das infraestruturas militares. Ao invés de visualizar a física num sentido literal, a peça examina a “cultura quântica” como um fenómeno cultural, revelando como conceitos quânticos como a incerteza, a superposição e o emaranhamento permeiam a linguagem, as imagens e os mitos da cultura digital e visual, muitas vezes despercebidos. Este ensaio em vídeo entrelaça camadas filosóficas, culturais e tecnológicas para sugerir uma visão da superlógica a emergir na era das narrativas quânticas - um mundo em que o quântico começou a moldar a própria estrutura da realidade.
A lógica urgente do apelo de despertar - Olá, Mundo, a nova realidade já chegou! - caracteriza também a série de projetos de Joan Heemskerk, SAT-HEX, Prototype, Hello, World!. Heemskerk, conhecida como metade da dupla pioneira da net.art JODI, utiliza protocolos digitais, código e arquiteturas de rede como material artístico, revelando os mecanismos ocultos do ambiente digital e questionando as estruturas da vida digital quotidiana. Especificamente, o SAT-HEX pode ser entendido como um projeto no qual as redes quânticas, os identificadores criptográficos e as infraestruturas de satélite são transformados em metáforas artísticas para futuras formas de comunicação e transmissão segura de dados. De acordo com a informação publicada sobre o projeto, o SAT-HEX prevê uma rede quântica mediada por satélites, empregando os princípios da criptografia quântica para uma comunicação segura de ultralongo alcance, incluindo a utilização de lasers e cristais de diamante como meios para codificar informação quântica. Em termos experienciais, a exposição na MU é paradoxal, tal como a realidade quântica: não ilustra a física quântica, mas reproduz a sua lógica de forma experiencial. Não é construída como uma narrativa linear “da teoria à ilustração”, mas funciona como um campo de estados coexistentes, onde diversas abordagens artísticas existem em paralelo. Não existe um objetivo ou uma conclusão final que relacione as obras entre si. Por isso, o espectador permanece num estado de incerteza não resolvida – o significado não “colapsa”.
A lógica da medição torna-se evidente na forma como o significado emerge não de antemão, mas através do envolvimento corporal, auditivo e temporal do espectador - sempre incompleto e contextualmente contingente. A exposição não transmite conhecimento propriamente dito, mas modela-o probabilisticamente. A sua lógica de irredutibilidade é clara na evitação consciente de uma metalinguagem unificadora: não existe um discurso explicativo único, nenhuma “tradução” final da arte em ciência ou vice-versa. Isto espelha a lógica quântica, na qual um sistema não pode ser reduzido à soma dos seus parâmetros observáveis. Ao mesmo tempo, os curadores não empregam a teoria quântica como um princípio formal rígido, como acontece, por vezes, nos projetos pós-conceptuais. Não se trata, pois, de uma “exposição quântica” no sentido estritamente formalista, mas de uma exposição que ressoa perceptual e eticamente com o pensamento quântico.
Diversos projetos surgem de colaborações diretas com cientistas quânticos ou de experiências que envolvem a própria computação quântica. Small Void, de Alice Bucknell, é um jogo cooperativo para dois jogadores, no formato de "pergunta e resposta", que questiona os limites da linguagem, do apego e da fragilidade existencial, aventurando-se tanto no cósmico como no íntimo. Desenvolvida através do programa de residência Collide, em parceria com o Arts at CERN e o Copenhagen Contemporary, a mecânica do jogo inspira-se nos paradoxos dos buracos negros e do emaranhamento quântico, concebidos através de um diálogo constante com físicos teóricos. A sua construção do mundo assenta tanto no microscópico como no cósmico: dos líquenes, estranhos, porém familiares, debaixo dos nossos pés, às confusões recursivas de escala, presença e vida - oscilando entre um e muitos, dentro e fora, vivo e morto. Para além das suas imaginações científicas e ecológicas, Small Void funciona como uma simulação de encontros queer, explorando os atritos e as expansões relacionais que o amor, o desejo e a identidade produzem. O jogo encena momentos de ruptura comunicativa a par de gestos de proximidade, enquadrando as incertezas do apego humano - e não humano - na linguagem metafórica dos fenómenos quânticos. Ao fazê-lo, Bucknell situa o seu trabalho na intersecção entre o jogo, a filosofia e a ciência especulativa, criando um espaço onde a lógica processual, a ressonância emocional e a especulação cósmica coexistem. A experiência resultante é simultaneamente cerebral e afetiva: uma delicada calibração da intimidade, da estranheza e das forças sublimes - tanto pessoais como cósmicas - que moldam os mundos relacionais. Aqui, o quântico não é meramente um tema, mas um participante ativo, introduzindo a indeterminação na geração e interação artística.
Em Explorations of Uncertainty, a computação quântica torna-se uma aliada conceptual para as estratégias artísticas que abraçam a ambiguidade, a multiplicidade e o conhecimento parcial. A exposição questiona que tipos de cultura, ética e instituições emergem quando a computação não binária deixa de ser especulativa e se torna infraestrutural. Num período em que as tecnologias quânticas estão a migrar rapidamente dos laboratórios de investigação para os sistemas militares, corporativos e governamentais, esta não é uma questão abstracta. Os artistas insistem que os futuros quânticos não podem ser deixados apenas aos engenheiros e aos decisores políticos; o engajamento artístico funciona como uma crítica antecipatória, intervindo antes que estas tecnologias se sedimentem em sistemas de poder opacos. Uma das artistas mais conceituadas que trabalha com a exploração crítica da computação quântica é Libby Heaney, com Nibble My Multiverse (2025), um projeto generativo e imersivo que expande a sua longa exploração de multiversos quânticos, lógica não binária e realidades em camadas.
A obra apresenta dois ambientes de “multiverso quântico” -animados através de um software de motor de jogo (via Unity) e evoluindo como um loop de 11 minutos com transmissão em direto por webcam e som estéreo - onde múltiplas versões de realidades possíveis se desenrolam em simultâneo e de forma interativa. Estes multiversos são visual e conceptualmente sobrepostos, colapsando as fronteiras convencionais entre observador e sistema e convidando os participantes a experimentar a indeterminação, a superposição e a coexistência de estados paralelos de existência em tempo real. A prática de Heaney une consistentemente a física quântica, a teoria queer e a cultura digital, e Nibble My Multiverse exemplifica esta hibridez ao tornar ideias científicas abstratas - como a pluralidade de resultados possíveis e a natureza relacional da observação -viscerais e percetivas. A integração do feedback ao vivo da webcam desestabiliza as posições fixas do sujeito e reflete o interesse de Heaney na forma como a a identidade, o ambiente e a tecnologia se entrelaçam em estruturas multiversais especulativas.
O que distingue a exposição de outras mostras de temática quântica é precisamente o seu rigor curatorial. Explorations of Uncertainty evita tanto o fetichismo tecnológico como a simplificação didática, tratando a incerteza como um método. As obras operam relacionalmente, interagindo umas com as outras como estados quânticos emaranhados, e envolvem os espectadores numa navegação pela informação incompleta, pela causalidade retardada e por interpretações conflituantes. Aqui, a física quântica não é representada - é performada. O conhecimento é provisório, a agência é distribuída e o significado emerge da interação, e não do domínio. Numa era em que os sistemas culturais, políticos e tecnológicos exigem cada vez mais certezas prematuras, este pode ser o seu gesto mais radical. Como Niels Bohr observou uma vez: "Se a mecânica quântica não o chocou profundamente, ainda não a compreendeu."
A exposição está patente na MU Hybrid Art House, em Eindhoven, até 22 de março de 2026.



BIOGRAFIA
Alexander Burenkov é um curador independente, produtor cultural e escritor sediado em Paris. O seu trabalho estende-se para além das funções curatoriais tradicionais e inclui a organização de exposições em espaços não convencionais, enfatizando frequentemente a multidisciplinaridade, o interesse pelo pensamento ambiental e as sensibilidades pós-digitais, abrangendo projetos como a Yūgen App (lançada na Bienal de Design do Porto em 2021), uma exposição num ginásio ou uma exposição online sobre serviços na cloud e modos alternativos de educação, ecocrítica e estética ecofeminista especulativa. Destacam-se os seguintes projetos recentes: Don't Take It Too Seriously na Temnikova&Kasela gallery (Tallinn, 2025), Ceremony, o projeto principal da 10ª edição da feira Asia Now (juntamente com Nicolas Bourriaud, Monnaie de Paris, 2024), In the Dust of This Planet (2022) no ART4 Museum; Raw and Cooked (2021), juntamente com Pierre-Christian Brochet no Russian Ethnographic museum, São Petersburgo; Re-enchanted (2021) na Voskhod gallery, Basel, e muitos outros.
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