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Sons sustentados de flauta, prolongados e processados, formam um plano sonoro contínuo, no interior do qual se desdobram pormenores electrónicos mais finos, distribuídos por diferentes escalas temporais. Estas durações simultâneas convidam a um modo de escuta que oscila entre a imersão e a atenção periférica, contrariando a exigência de constante concentração e consumo rápido, característica dos ambientes digitais. Com o tempo, o som substitui a referência visual, tornando-se o principal meio através do qual o espaço é percebido.
Os sons do piano aparecem na peça de forma recorrente e estável, atravessando passagens mais densas e mais tranquilas. Ao invés de funcionarem como um primeiro plano expressivo, eles contribuem para uma sensação de continuidade em meio a condições sonoras variáveis. Na seção central, mais reduzida, o silêncio torna-se estrutural, permitindo ao ouvinte perceber o peso do tempo em si, em vez da sucessão de eventos. Esta transição não funciona como um contraste dramático, mas como uma recalibração da atenção – uma mudança na forma como a presença e a ausência são vivenciadas.
No contexto de um site, esta paisagem sonora funciona como uma intervenção discreta. Não ilustra o conteúdo nem se retira para a neutralidade. Em vez disso, propõe um ambiente sonoro no qual a continuidade e a fragmentação, a estabilidade e a tensão latente coexistem. Através da resistência à aceleração e do privilégio da duração, a obra convida a uma forma de escuta alinhada com o vagar, em vez da navegação, permitindo que o ouvinte se torne parte da paisagem, em vez de apenas observá-la.
O significado permanece aberto e contingente à vontade do ouvinte de se envolver. A paisagem sonora não oferece nenhuma narrativa ou imagem fixa; cria um campo temporal no qual a escuta pode desacelerar, demorar-se ou flutuar – permitindo que o próprio tempo surja como o material principal da experiência.
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A rubrica Soundscape tem coordenação de Fernando José Pereira