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A vida dentro das casas #01: De portas fechadas
DATA
21 Set 2026
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AUTOR
Zara Ferreira
“O quarto reivindicado por Woolf – que eu sempre interpretei como a possibilidade de uma casa própria – voltou, para muitas pessoas, a ser exatamente isso: um quarto, numa habitação partilhada, de porta fechada. Se sobrar orçamento para um minifrigorífico, uma chave e uns auscultadores com cancelamento de ruído, claro.”
“(…) And on the table inside the room a blank sheet of paper (…).”
Virginia Woolf, A Room of One’s Own, 1929

A palavra casa nasceu pobre. Não tem origem na palavra domus, a residência e o mundo doméstico constituído, onde dominus era o dominador do seu domínio, reservado aos tais que tinham direito a Dom escrito no cartão. Dies dominicus seria o dia do maior de todos eles, naquele dia em que alguns não trabalham. Casa significava cabana ou choupana, o abrigo precário. À solidez da alvenaria da domus opunha-se a fragilidade da madeira da cabana ou da palha da choupana. Alguns dicionários dizem ainda que choupana é uma casa de uma só porta – o que vai ser muito útil para o meu argumento. De casa derivou, com o tempo, também casar. Quem casa, quer casa. A língua conservou a ideia de que unir duas pessoas significa constituir uma casa: amor e uma cabana. E, apesar de todas as transformações sociais, o casal, casado ou não, continua a ser a unidade económica implícita do mercado habitacional convencional: a casa está calculada para, no mínimo, dois salários. Para quem não dispõe de um segundo rendimento, o mercado encontrou outra unidade de medida: o quarto. Os anúncios – quando os há – chamam-lhe “casa partilhada”. Mas, na realidade, o que se partilha é o custo das infraestruturas comuns: a cozinha, a casa de banho, a eletricidade, a água, o gás, e a internet.
Muitas pessoas não entram nessa casa porque decidiram morar juntas. Fazem-no porque cada uma delas, sozinha, não consegue ter acesso a uma casa inteira. No início de 2026, arrendar um T1 em Lisboa custava, em média, 1.539€ mensais – 167% do salário mínimo (920€) e 115% do salário-base médio nacional (1.342€), ainda antes de impostos e contribuições. Comprar não resolve o problema. Uma casa de 200.000€ – que, na maior parte dos (poucos) casos existentes, está próxima do inabitável – exige que uma pessoa com mais de 35 anos receba quase 2000€ mensais. Para quem quer - ou tem de - continuar na capital, arrendar um quarto permanece – por enquanto – como aquele luxo que ainda cabe na carteira de algumas pessoas comuns: 550€ é o preço mediano anunciado.
O viver no coletivo é ancestral. Seja por razões económicas, culturais, religiosas ou ideológicas – quase sempre misturadas. Existem sistemas de co-living – anglicismo-chapéu tão apreciado para designar modos de habitar profundamente diferentes – em que a arquitetura foi imaginada, desenhada ou adaptada para acolher formas específicas desse habitar em conjunto, em função dos vínculos, das regras e das intenções – ou imposições – que as sustentavam. Das casas longas dos Haudenosaunee ao falanstério imaginado por Fourier; dos siheyuan do norte da China às casas-compound da África Ocidental; dos mosteiros e conventos aos kibutzim israelitas e às kommunalki soviéticas… falamos de formas sustentadas por economias sociais específicas e por relações de pertença, responsabilidade e poder – muitas delas fortemente hierarquizadas.
Entretanto, no tal Século do Eu, consolidou-se, pelo menos no Ocidente, a ideia de que cada um de nós seria o centro do seu próprio mundo. Eu, pelo menos – certamente privilegiada e excessivamente egocêntrica – cresci com a ideia romântica da meritocracia: através dos meus estudos e do meu trabalho, seria dona da minha própria vida sem passar cavaco a ninguém – ao nível do quotidiano –, ainda que contribuindo heroicamente para o bem comum.
Lol.
Em alguns lugares mais próximos daquele a que quero chegar – o português contemporâneo –, esta ambição pela autonomia não impediu a construção deliberada de formas coletivas de habitar. Temos nos kollektivhus suecos, nos bofællesskaber dinamarqueses e nos clusterwohnungen suíços, modelos que conjugam a privacidade com a partilha de espaços, serviços e responsabilidades. Mas mesmo que fingíssemos que estes casos têm representação significativa em número e em acesso nos seus contextos, há que reconhecer que, em Portugal, a partilha do espaço doméstico fora do âmbito familiar está longe de ser uma prática apreciada. Permanece a ideia de que a vida adulta só começa quando se tem uma casa própria, e ai do vizinho que olhar na direção da nossa janela. Essa preferência não é apenas uma idiossincrasia cultural: muitos são os estudos que relacionam a centralidade da propriedade privada com um resultado de países em que há pouca intervenção pública no domínio da habitação. A casa própria funciona como uma espécie de segurança social privada: património, proteção na terceira idade, transmissão intergeracional e amortecedor desta instabilidade que não é recente.
Mas toda esta conversa, que já vai longa e confusa, é para aqui chegar: muita da partilha habitacional que acontece em Portugal – seja com os pais, com a pessoa de quem já nos divorciámos há cinco anos, com estranhos, ou até com aquele senhorio muita porreiro com quem moramos, ignorando a relação de dependência que existe na mesma – não acontece por escolha de uma vida em comum, mas por inacessibilidade financeira a uma habitação autónoma. E acontece em espaços desenhados para outras formas de vida, sobretudo apartamentos concebidos para famílias nucleares. Não é o coletivo que desenha a casa; é o preço da casa que fabrica um coletivo que se desenha em esforço.
Até entramos nessa casa nova com boa vontade – não estivéssemos já todos habituados a transformar cada resposta numa nova aventura, naquela lógica de estarmos eternamente a trabalhar para um currículo em construção. A palavra flexibilidade está para a precariedade como o colaborador está para o trabalhador. Sim, entremos. Fica ao vosso critério imaginar se é um apartamento com doze quartos (sim, existem vários em Lisboa) ou com cinco. Às vezes há regras, como a de não podermos levar lá ninguém; outras vezes, apenas um quadro geral de “senso comum”. Rapidamente percebemos que os padrões de limpeza, comunicação e gestão da vida quotidiana variam muito de pessoa para pessoa. Há quem nunca limpe a cozinha depois de a usar. Começamos a comprar refeições pré-feitas no supermercado para não termos de limpar a cozinha toda antes de conseguirmos fritar um bife. Não temos tempo para isso. Passamos a guardar a comida no quarto por causa daquela vez em que alguém comeu o que estava na nossa prateleira do frigorífico. E, para podermos fazê-lo, passamos a viver de comida que não se estraga. Há também aquela pessoa que vai para a casa de banho fora da hora combinada. Começamos a acordar mais cedo para conseguirmos tomar banho antes dos outros e não perdermos o emprego por estarmos sempre a chegar atrasados. Antes de a sala se ter transformado em quarto, havia dias em que encontrávamos desconhecidos no sofá, pela manhã. Nessa sala faziam-se festas para as quais não tínhamos sido convidados. Deixamos de nos sentir seguros. Começamos a viver apenas dentro do quarto, de portas fechadas, e cada vez mais cansados. Tentamos trabalhar mais para um dia podermos viver numa casa nossa, mas o corpo deixa de ter a saúde necessária para responder a essa vontade. Com os anos, e nas casas seguintes, já nem tu nem os outros tentam sair dos quartos.
É tentador, enquanto ainda existe energia para transformar a necessidade numa narrativa de esperança, chamar a comunidade a esta forma de residência. Mas, com 40 anos, já longe vão os tempos em que moravas num quarto porque tinhas ido estudar para outra cidade. O mercado corrobora a fantasia: a precariedade adquire um nome em inglês, fotografias de uma mesa comum e a promessa de novas amizades. Uma comunidade pode nascer entre pessoas que não se escolheram. Mas pressupõe mais do que várias rendas na mesma morada: participação nas regras da vida comum, responsabilidades recíprocas e a possibilidade real de permanecer ou sair. Sem isso, a palavra serve apenas para embelezar a escassez. Não é novidade, dirão os velhos do Restelo. E, em parte, terão razão. As classes populares sempre partilharam casas, quartos e até camas. Os alojamentos eram mais pequenos e insalubres; agora até têm água canalizada, vejam bem! Mas, durante uma parte importante do século XX, aumentar o acesso à habitação, com condições de habitabilidade, foi considerado uma conquista social. Hoje, o movimento inverso é apresentado pelo mercado como estilo de vida contemporâneo.
A “situação temporária” prolonga-se. Fazem-se malas sucessivamente. Aprende-se a viver sem nada que dificulte a próxima mudança. Os livros tornam-se digitais, as memórias imateriais e o enxoval herdado dos avós permanece guardado numa arca que continua a ocupar a casa dos pais. Chamamos-lhe desapego, minimalismo ou consciência ambiental; mas, por vezes, é apenas uma biografia que deixou de caber no próximo quarto. Para quem nela arrenda uma divisão, a casa voltou a aproximar-se da choupana de uma só porta. O quarto reivindicado por Woolf – que eu sempre interpretei como a possibilidade de uma casa própria – voltou, para muitas pessoas, a ser exatamente isso: um quarto, numa habitação partilhada, de porta fechada. Se sobrar orçamento para um minifrigorífico, uma chave e uns auscultadores com cancelamento de ruído, claro.
O problema não é vivermos juntos, mas sermos obrigados a fazê-lo sem que o espaço, os vínculos e os sistemas tenham sido pensados para essa vida em comum. Uma comunidade digna desse nome precisa de portas – de podermos abri-las aos outros, fechá-las sem medo e atravessá-las quando a vida em comum termina. E se a fechadura da porta significa, como escreveu Woolf, o poder de pensar por si mesma, quantas folhas permanecem em branco por tanta gente já não conseguir fechar uma porta verdadeiramente sua?


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