O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
(Tabacaria, Álvaro de Campos, 1928)
No verão de 2021, dava os primeiros passos no trabalho de campo da minha investigação de doutoramento em arquitetura. Andava pelos Olivais, a tentar conhecer os bairros, sobretudo por fora – no rescaldo dos confinamentos pandémicos, o espaço público era o único que se mantinha aberto à minha passagem.
Acompanhando a cartografia, percorria ruas, identificava edifícios, confirmava moradas, fotografava fachadas, portas e janelas. Numa dessas fotografias apareceu, um dia, uma mulher. Estava sentada numa galeria, mergulhada entre as cores dos vasos, de uma buganvília, do rendilhado de um cobogó e do xadrez de uma manta. O seu olhar, de uma invejável perenidade, estava debruçado sobre o bairro, posto algures para lá da fotografia. Nesse dia, não nos falámos. Não sabia como se chamava, em que casa vivia ou há quantos anos por ali se sentava. Era apenas um rosto humano dentro de uma fotografia de arquitetura.
Atualmente, as regras de ética na investigação promovem o anonimato. As pessoas passaram a chamar-se “moradora, setembro de 2023”, “entrevista n.º 14”. Compreendo as razões. Ainda assim, para mim, que trabalho há anos na defesa de patrimónios ameaçados ou na divulgação de criações e criadores pouco conhecidos, é uma coisa difícil de mastigar. Nesses processos, a identidade é precisamente o ponto de partida e de chegada: documentamos porque reconhecemos qualquer coisa de singular, que merece ser conhecida e preservada; nomeamos porque é o nome que coloca essa singularidade no tempo e no espaço. Quando, durante os caminhos insondáveis da investigação, decidi passar dos edifícios para as pessoas que os habitam, pediram-me para fazer o contrário: que retirasse nomes e coordenadas, e desfocasse os rostos. Numa cidade cada vez mais descaracterizada e desumanizada como Lisboa, esta coisa do anonimato sabe-me a compactuação com o inimigo. Já assistimos à desindividualização do outro que chegue nos telejornais, na política, nas estatísticas.
Por isso, hoje quero falar da Dona Olívia.
Podia inventar um nome e uma morada, fingindo que a Dona Olívia representa uma ideia qualquer que me apetecesse explorar – também! –, mas ela representa-se sobretudo a si própria e à história do lugar onde mora há quase 60 anos. Chegou aos Olivais em 1968, com 32 anos, o marido, um filho de 9 anos e uma filha de 2 meses. Vai fazer 90 anos na próxima semana, apesar de a lucidez no seu olhar nos dizer que tem muito menos. Mora no Largo das Mamas, também conhecido como “o Largo das Tetas – são quatro brancas e quatro pretas”. Nenhum destes nomes aparece no Google Maps, nos registos toponímicos da cidade, ou nos roteiros turísticos. No entanto, nem por outro nome conhecem este lugar os olivalenses, como também não há ninguém no seu prédio que não saiba quem é a Dona Olívia.
Há uma relação especial nos Olivais entre os lugares e os nomes. Talvez porque os primeiros moradores tenham chegado a uma cidade que lhes oferecia códigos urbanos muito diferentes daqueles a que estavam habituados – sem quarteirões, com edifícios isolados, semeados por um território imenso, vias automóveis desligadas dos caminhos pedonais –, começaram eles próprios a meter ordem na coisa. Do “Comboio Parado”, edifício de habitação com 100 metros de comprimento, e da “Aldeia do Frango Assado”, junto à qual se costumavam fazer churrascos, passando pela vasta atribuição de edifícios a diferentes grupos profissionais – ao longo dos vários núcleos do bairro, toda a gente sabe onde ficam os edifícios dos juízes, dos professores, dos militares –, terminando no mítico Largo do Ferrador que assim ficou conhecido por conta das lojas Ferrador que ali existiram e cujo impacto foi tal que o nome ficou impresso no lugar muito além do seu encerramento, no famigerado tempo da Troika.
O comércio de proximidade raramente se resumiu a relações de compra e venda. Por trás de cada pequeno negócio, havia alguém que funcionava como âncora de uma rede quotidiana de informação, apoio, presença e partilha. Alguns desses rostos aparecem no final do último filme de Ruben Alves, em alguns exemplos das Lojas com História. Há anos que vemos esses espaços comerciais a serem substituídos por lavandarias automáticas para dar resposta ao provisório e ao precário, pelas já tão caricaturadas tostas de abacate para turistas, ou por exemplares daquelas lojas multinacionais que têm o mesmo cheiro em todos os lugares do mundo. O capitalismo globalizado fez com que os nossos pontos de referência comerciais – que costumavam ser também lugares de encontro – passassem a existir à escala planetária, e se desligassem dos lugares concretos. Hoje, de pouco serve dizer “encontramo-nos no McDonald's”, mas, estranhamente sentimo-nos em casa quando, no meio do Kuwait, lhe reconhecemos o cheiro. E, precisamente quando precisamos de ajuda – como marcar uma consulta num hospital, por exemplo –, somos atendidos por uma versão robotizada de Franz ou Willem, d’O Processo de Kafka, que apenas funciona quando a vida cabe no menu e, como raramente cabe, ironicamente nos retira um ano de vida em saúde mental.
A Dona Olívia e a galeria de circulação onde passa parte dos seus dias são o contrário de tudo isto. A Dona Olívia é uma das tais âncoras e a galeria, um dispositivo arquitetónico com a ambiguidade necessária para que a vida possa acontecer com todas as suas particularidades e exceções.
A Dona Olívia é uma espécie de centro informal da sua pequena comunidade residente. Desconhecerá, por certo, que vive num edifício projetado por Frederico George e Manuel Alzina de Menezes – no geral, isso da autoria pouco importa aos não arquitetos, na mesma medida em que aos arquitetos pouco importa saber das vidas que habitam as obras depois de concluídas. Recebe correio, guarda chaves, fica com as crianças em situações de emergência, faz pequenos favores, sabe quem entra e quem sai. Disse-me que já não conhece os moradores novos como conhecia os antigos. “E eles também não têm a preocupação de se darem a conhecer.” Quem é que hoje tem tempo para conhecer os vizinhos? Mas não nos enganemos, repetindo a lengalenga de que antigamente é que havia relações de vizinhança e hoje já ninguém quer saber de ninguém. Durante muitos anos, Olívia – provavelmente antes de começar a carregar o título de Dona – foi, naturalmente, alguém que também trabalhava o dia inteiro. Só vinha a casa jantar e dormir. Enganaram-se grosseiramente os arquitetos que desenharam estes bairros no pressuposto de que as mulheres ficariam em casa – leiam As Mulheres do meu País, de Maria Lamas! Em 1960, as mulheres representavam 31,2% da população ativa total de Lisboa. Por outro lado, acertaram na conceção de espaços capazes de acolher diferentes possibilidades ao longo de uma vida. A reforma permitiu a Olívia dar outro tempo aos dias. E a arquitetura deu-lhe o espaço para o colocar.
Esse lugar é a tal galeria de circulação. A designação técnica é enganadora porque só descreve aquilo para que serve quando alguém passa. Talvez por isso o povo, sabedor das coisas, lhes chame tantas vezes varandas: a galeria da Olívia serve, claramente, para estar. Permite sair de casa sem sair exatamente: pôr uma cadeira à porta, cuidar das plantas, trocar duas palavras com quem passa. A porta, deixada por vezes aberta, deixa de dividir tão violentamente a casa do mundo e passa a existir entre ambos uma pequena espessura onde a vida pode acontecer. “Que miséria”, dirão os moradores que substituíram a porta em contacto com a terra da sua aldeia por esta espécie de rua elevada no ar. Mas, para quem escolheu ou teve de trocar o campo pela cidade e vir viver na densidade, a galeria dá-lhe o luxo de respirar mais ar e mais mundo do que o hall fechado de acesso a apartamentos-gaveta, onde se entra e se desaparece.
O que pessoas como a Olívia também têm de especial – e que só uma permanência prolongada num lugar permite – é trazerem consigo a história desse lugar. “Os miúdos faziam-se aqui num instante!” Recorda os tempos em que a relva estava sempre verde e a maravilha que eram as noites quentes de verão: “os pais ficavam aqui enquanto os filhos brincavam lá em baixo até ficar o tempo mais fresco para irem dormir”. Noutras galerias do bairro ouvi histórias semelhantes. Na Aldeia da Roupa Branca – edifício da PSP até hoje, projetado por Vítor Figueiredo e Vasco Lobo –, as viúvas dos antigos agentes, que hoje partilham as galerias com alguns jovens polícias em estágio na cidade, contam que aquelas “varandas” sempre foram usadas para tudo: passar e ficar, trabalhar e descansar, ver e ser visto, conversar e estar sozinho. As crianças circulavam livremente entre as casas, formando uma espécie de família alargada à escala do edifício. Ao fim de uma vida inteira no mesmo lugar, as rotinas de uns acabam por entrar nas dos outros. Sabe-se quem saiu, quem voltou, quem ainda não apareceu, quem pode precisar de alguma coisa. Hoje, algumas destas mulheres falam dessa rede como aquilo que lhes permite continuar a viver nas suas próprias casas, em vez de irem para casa dos filhos ou para um lar – por escolha própria.
Em Lisboa, 1 em cada 3 pessoas com mais de 65 anos vive sozinha, o que, dado o envelhecimento da população, corresponde a cerca de 1 em cada 14 habitantes. Entre os idosos que vivem sozinhos, cerca de 75% são mulheres. Num momento em que as galerias têm sido sistematicamente excluídas das políticas públicas de habitação – afastadas por regulamentos que, na prática, as inviabilizam –, custa perceber que se dispense tão facilmente um espaço capaz de funcionar como infraestrutura de saúde. Importa dizer o óbvio: não basta construir uma rua aérea. Uma galeria estreita, escura e virada para uma empena continuará a ser apenas um corredor onde sopra vento. Nos Olivais, estes lugares abrem-se para enquadramentos paisagísticos amplos, ou para lugares de urbanidade. Dali, a Olívia viu crescer os freixos e os plátanos; dali acompanha a mudança das estações. Ao fim do dia, vê as crianças gastarem no parque os últimos restos de energia enquanto os pais descansam antes de subir para casa. Há vida a acontecer diante dela – permitindo-lhe rejuvenescer –, enquanto devolve a quem cresce a referência dos elementos perenes.
Uma pessoa pode ser parte da infraestrutura de um lugar. Tal como uma árvore, uma praça, um edifício. Mas essa pessoa só consegue desempenhar esse papel porque houve condições materiais que lhe permitiram permanecer ali. Não faço a apologia de uma vida inteira passada no mesmo lugar. Há quem queira partir. Há quem queira voltar. Há quem queira viver em cinco cidades. Mas a mobilidade só é liberdade quando permanecer também é possível. A Olívia só pode hoje estar naquela galeria porque pôde permanecer naquela casa. Se tivesse sido expulsa pela renda, por um despejo, ou por uma operação imobiliária, desapareceria também uma parte da estrutura comunitária daquele lugar, como em tantos sítios da cidade está a acontecer há demasiado tempo.
A Dona Olívia já não se lembra de mim, mas eu dificilmente me esquecerei dela. Agora que também eu moro nos Olivais, sempre que passo no Largo das Mamas e a vejo sentada na galeria da sua casa, sorrio. Com ou sem esperança, mais ou menos metafísica, quando ainda encontro, na minha cidade, pessoas como a Dona Olívia, o universo reconstrói-se-me um bocadinho. Mas com algum ideal e esperança porque, embora pessimista, sou ainda utópica.