O rosa parece uma cor fácil. Domesticada pelo olhar, comporta uma determinada educação. Associada, tantas vezes, à doçura e à inocência, parece conferir às superfícies que cobre um carácter apaziguador, sereno. Não falo do rosa-choque. O segundo termo surge, aliás, para romper o equilíbrio que acabo de mencionar. Falo do rosa. Daquele rosa que, ao fechar os olhos neste momento, conseguirá evocar. Ou talvez já não consiga fazê-lo sem perturbação: o choque, agora nomeado, altera o campo da cor.
Mas entre o choque e a suavidade abre-se um espaço feito de outras tonalidades. Talvez exista, na própria cor, algo que perturbe essa harmonia, como a passagem da superfície da pele para a carne. Sob a pele intacta, os poros desenham pequenas aberturas na superfície, vias discretas e essenciais entre o interior e o exterior. Quando a pele é cortada, essa continuidade é interrompida: a carne emerge, húmida e vibrante, e a cor impõe-se como uma intensidade que já não se deixa reduzir à delicadeza. É nesse corte que se torna visualmente percetível a existência de espaços construídos pelas diferentes tonalidades e intensidades que uma cor admite. A área começa aí: um espaço que nasce da variação, da passagem e do contacto entre superfícies.
Esta ideia transborda o domínio da cor e estende-se pelas salas da Casa de São Roque. Com curadoria de Anthony Huberman, It’s a Pink Area aproxima dois modos de operar distintos: o de Marc Kokopeli e o de Sydney Schrader, dois artistas radicados em Nova Iorque. Uma casa senhorial vira zona de contacto entre imagens e dispositivos familiares e peças cuja forma e finalidade não apreendemos de imediato.
Kokopeli desenvolve uma prática centrada nos modos como a identidade se vai formando através da infância, da cultura mediática e dos objetos de consumo que a acompanham. O seu trabalho parte de um repertório visual reconhecível, desde dispositivos televisivos até figuras da cultura popular. Não é por acaso que recupera personagens de South Park. Nelas, Kokopeli encontra um imaginário geracional. Não as vemos num contexto televisivo (ainda que a sua moldura assim o aparente), mas sim num contexto expositivo. Esta mudança de contexto encerra as figuras numa espécie de solidão cenográfica. Expostas em dispositivos que funcionam como vitrinas, as figuras deixam de pertencer ao fluxo rápido da televisão e ao episódio partilhado no sofá. As emoções que mostram não encontram eco na moldura que as circunda. Fixadas em caixas de luz, estas figuras não nos devolvem apenas uma lembrança, mas também os mecanismos através dos quais fomos aprendendo a desejar e a consumir. Dois verbos que participam na nossa formação e que a obra de Kokopeli ativa com recurso a cenários aparentemente lúdicos, mas que operam como dispositivos de sedução.
A possibilidade de manusear pequenas televisões fixadas a anéis de plástico e metal, cada uma contendo excertos de programas televisivos transmitidos no passado, transporta-nos, a cada mudança, para algo que nos é familiar: a procura, o zapping. Pelo meio, surgem músicas igualmente reconhecíveis, como Talkin’ Bout a Revolution, de Tracy Chapman. Esse gesto reabre momentos passados e, com eles, uma sensação de nostalgia, até mesmo de saudade. Os tempos de hoje já não são esses. A nostalgia prolonga-se no contraste entre o televisor antigo e o dispositivo contemporâneo através do qual voltamos a aceder às suas imagens. Pelas diferentes salas da casa distribuem-se impressões de televisores, ampliadas e apresentadas em perspetivas oblíquas. Mas é na parte inferior da casa que somos convidados a pegar num dispositivo portátil e a apontar a respetiva câmara para uma dessas imagens, ativando, assim, um slideshow narrado. Os olhos não se concentram na imagem ampliada; fixam-se no pequeno ecrã que a torna legível e lhe acrescenta movimento, voz e tempo. É o microecrã que, colocado diante do macro, lhe dá espessura.
Em Sydney Schrader, essa espessura desloca-se para outro lugar. A forma nasce de uma atenção ao que costuma passar despercebido. A artista norte-americana trabalha entre escultura, pintura e escrita, criando obras que não se deixam fixar inteiramente num destes campos. O que parece interessar a Schrader é essa condição instável: o momento em que uma forma se aproxima da figura sem abandonar a abstração; antevemos o gesto, a pose, mas a figura nunca se fixa. A própria artista afirma que as esculturas vieram primeiro: trabalhou nelas até encontrar figuras verdadeiramente cativantes, figuras que não teria imaginado sem trabalhar com a argila. Em Schrader, a matéria vem antes da imagem. E esta origem é importante. A forma que vemos não surge pronta ou obediente; aparece por insistência. Há nela qualquer coisa de informe, como se a figura estivesse presa à matéria. A argila não serve para executar uma ideia prévia, antes obriga a artista a negociar com a superfície e o acidente. O seu trabalho ocorre, assim, numa lógica condicional: se a matéria cede, talvez a forma ganhe consistência.
As esculturas da série Emil escapam também à redução a objeto decorativo. Realizadas em bronze e aço inoxidável, foram concebidas para se equilibrarem na parede. Curvas, suspensas e mais pesadas na parte superior, estas peças dependem da parede para cumprir a sua finalidade e, ao mesmo tempo, pressionam-na: a zona plana e vertical é empurrada contra a parede pelo peso da parte superior, que se projeta para fora e se curva. A sua presença é física, mas não monumental: se, por um lado, não se limita a decorar o espaço, por outro, não se impõe como centro absoluto. Assim, aquilo que são, em termos teleológicos, fica em aberto.
Nós, transeuntes da casa, atravessamos o familiar e o informe. Também nós somos superfície de contacto. Não somos um só tom. Não somos neutros. Somos instáveis. Balançamos conforme o peso.
It’s a Pink Area, de Marc Kokopeli e Sydney Schrader, está patente na Casa de São Roque, no Porto, até 4 de outubro.