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complexo brasil, na Fundação Calouste Gulbenkian
DATA
15 Jan 2026
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AUTOR
Ana Grebler
"Com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, complexo brasil reúne obras de arte, arquivos históricos e instalações audiovisuais produzidas para a ocasião, que conta com uma ampla programação paralela e um catálogo com cinco ensaios. Numa temporalidade não linear, a exposição se desenvolve em núcleos que conversam entre si, costurando diálogos entre gerações de artistas e movimentos da arte brasileira, bem como fissuras e dicotomias que marcam a construção do Brasil e a sua relação com Portugal."
No saguão do edifício principal da Fundação Calouste Gulbenkian estão as cores da bandeira brasileira. Como prólogo da exposição complexo brasil, a escolha pela literalidade provoca uma sensação ambígua. A Bandeira (2011), de Emmanuel Nassar, desconstruída e reorganizada, introduz a ideia de uma nova leitura - um outro modo de ver - abrindo espaço para perspectivas fundamentais. Carta ao velho mundo (2018-2019), de Jaider Esbell, inicia a mostra.
O enorme painel - um livro de quatrocentas páginas sobre a história da arte europeia, ressignificado e sobreposto com arte indígena contemporânea - coloca a questão elementar: quem sempre narrou a história? O destaque à arte e à cosmogonia indígena neste primeiro momento traz, junto aos objetos ritualísticos e obras contemporâneas, o registro em vídeo do Manto Tupinambá (1500), cujo retorno da Dinamarca ao Brasil, em 2024, é um marco histórico e convoca a ancestralidade, a memória e a força do povo Tupinambá, inscrevendo a presença e a resistência dos povos originários. Em contraste, a pintura Índio Tarairiu (Tapuia) (1641), de Albert Eckhout, aborda o olhar etnológico-colonial sobre quem já habitava o território muito antes de se chamar Brasil. Não passa despercebido que as peças ancestrais de diversas etnias - que persistem em uma intensa luta pela sobrevivência, pela demarcação de terras e pela preservação das florestas - seguem em posse de museus europeus.
Com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, complexo brasil reúne obras de arte, arquivos históricos e instalações audiovisuais produzidas para a ocasião, que conta com uma ampla programação paralela e um catálogo com cinco ensaios. Numa temporalidade não linear, a exposição se desenvolve em núcleos que conversam entre si, costurando diálogos entre gerações de artistas e movimentos da arte brasileira, bem como fissuras e dicotomias que marcam a construção do Brasil e a sua relação com Portugal.
Contrapontos inerentes à uma história assinalada pela violência e pela resistência atravessam o percurso. Ao lado de registros gráficos da ocupação predatória e extrativista da Amazônia, Quintal (2020), de Uýra Sodoma, conversa com as Entidades (2021), de Jaider Esbell, que ocupam em grandiosidade o jardim da Gulbenkian. Da abundante natureza delineada por Burle Marx em Mata Atlântica (1991), vamos à Distopia Amazônica (2012-2021), de Lalo de Almeida. Frente a frente, as gravuras de Debret - que capturam um Brasil colonial e escravagista do século XIX - encontram a série Atualização Traumática de Debret, de Gê Viana, na qual a artista reinterpreta as mesmas cenas.
Há uma retomada de espaços - institucionais e nos próprios regimes de representação – e narrativas por identidades que, ao longo da história e ainda hoje, enfrentam tentativas contínuas de apagamento pela lógica colonial e suas práticas de dominação cultural, política e epistemológica. Ao deslocar o olhar hegemônico, são reinscritas experiências, memórias e saberes a partir de perspectivas próprias, contemplando suas diversidades e subjetividades.
Só vou no Leblon a negócios (2016), de Arjan Martins, é uma pintura em grande formato. Suspensa, estende-se pelo piso da galeria. O artista altera a geoposição do mapa, no centro não está a Europa, mas o oceano Atlântico; a rota entre os continentes africano e americano, pela qual mais de dez milhões de pessoas foram forçadas a atravessar. As esculturas IWIN OLÁ ATI EYE LOKE - Majestosos ancestral da árvore com um pássaro no alto - OMOLU (1978) e IWIN IGI N’LA - Grande espírito da árvore (1979), de Mestre Didi, se relacionam em verticalidade e cores com a pintura de Arjan Martins, refletindo como, diante da imposição colonial, as religiões afro-brasileiras tornaram-se um espaço de criação, autonomia e afirmação identitária.
Na ressonância da espiritualidade, o encontro com o Manto da Apresentação, de Bispo do Rosário, e a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (2023), de Elian Almeida. A influência católica e o sincretismo religioso. Exposto em uma grande caixa de vidro, mergulhamos na magnitude do manto, um tabuleiro de símbolos e nomes espelhados em seu verso, enquanto, na pintura de Elian Almeida, reluz o ouro da igreja histórica das irmandades negras, símbolo de resistência e ressignificação de rituais católicos a partir de matrizes africanas.
Ao fundo, movimentos que dialogam diretamente com as vanguardas artísticas européias, como o modernismo brasileiro e o neoconcretismo. Na instalação Cruz Negra (2025), de Nuno Ramos, a cruz de Malevitch é apagada aos poucos, modificando-se completamente até o fim da exposição. Neste caldeirão - de um Brasil que é indígena, que é África e que é Europa - reafirma-se o potencial de transformação e reinvenção do país, onde as forças constituintes são múltiplas.
No piso inferior há uma ocupação totalmente diferente do espaço, ao descer as escadas, o público é recebido pela projeção de O peixe (2016), de Jonathas de Andrade. Intercaladas com três instalações, encontram-se as últimas salas imersivas dos vídeos que complementam a exposição. Um ambiente multissensorial joga com o contraste de sensações, com a presença do corpo e convida o espectador para dentro do Brasil.
A fragilidade do momento em que é inaugurada complexo brasil numa das maiores instituições artísticas de Portugal a torna ainda mais urgente. No atual contexto sócio-político, marcado por discursos de ódio e intolerância, o valor e a emoção de uma exposição como esta, especialmente para brasileiros que, como eu, vivem aqui. Voltei algumas vezes para assimilar o tamanho e a profundidade da mostra, em nenhuma delas contive as lágrimas. Esta vasta e emblemática travessia pela cultura brasileira revela, entre muitas camadas, uma oportunidade de ampliar a consciência sobre o Brasil, ao invocar uma retomada da própria história.
A exposição complexo brasil está patente na Fundação Calouste Gulbenkian até ao dia 17 de Fevereiro de 2026.
BIOGRAFIA
Ana Grebler (Belo Horizonte - Brasil) é artista, curadora e escritora. Graduada em Artes Plásticas pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG - Escola Guignard) e pós-graduada em Curadoria de Arte na Universidade Nova de Lisboa (FCSH). Participou de exposições coletivas no Brasil e organizou as exposições Canil (2024), Deslize (2023) e O horizonte é o meio (2022), em Lisboa. Colabora com a Umbigo Magazine com ensaios, críticas e entrevistas, e atua nas parcerias internacionais da plataforma. Na intersecção de práticas, reflete sobre a cultura visual contemporânea criando diálogos e imaginários entre espaços e processos artísticos em cruzamento. Atualmente vive e trabalha em Lisboa.
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