Ao percorrer as salas da Culturgest e observar a impressionante constelação de corpos esculturais de Alexandra Bircken (1967, Colónia) reunidos na exposição SomaSemaSoma, curada por Bruno Marchand e Selma Meuli, não pude deixar de me sentir imersa numa convergência delicadamente violenta entre o universo ballardiano de Crash (1973) e o filme Titane (2021), de Julia Ducournau. Para quem não está familiarizado com estas referências, o romance de Ballard, posteriormente adaptado para o cinema por David Cronenberg, acompanha um grupo de fetichistas de acidentes rodoviários, cujo fascínio mórbido gira em torno da morte, da deformação e mutilação corporais e da fusão entre tecnologia e carne, metal e sexo. No centro da narrativa encontram-se dois protagonistas cujo envolvimento em acidentes rodoviários altera radicalmente a sua perceção das pessoas, dos objetos e do desejo. Titane, por outro lado, conta a história de Alexia, marcada por um acidente de carro na infância que resulta na implantação de uma placa de titânio no seu crânio. Este evento traumático desencadeia uma atração visceral por máquinas, levando-a a trabalhar como bailarina em exposições de automóveis e, por fim, a envolver-se numa relação sexual com um carro, da qual engravida. Simultaneamente, Alexia é consumida por uma raiva e um amor reprimidos, forças que gradualmente a transformam em algo radicalmente híbrido.
As obras apresentadas na Culturgest, anteriormente exibidas na Kunsthaus Biel, na Suíça, emergem da conjunção de elementos díspares, em que materiais heterogéneos geram formas que sugerem corpos ou fragmentos corporais análogos à anatomia humana. Bircken enfatiza a forma como as próprias máquinas são entidades híbridas: as suas estruturas internas de cabos e componentes de motores evocam órgãos humanos, artérias e fibras musculares. Esta ampla variedade de materiais destaca a fronteira entre os seres humanos e os seus ambientes construídos. Ao mesmo tempo, o “sistema nervoso” das máquinas, os seus cabos, reflete o sistema nervoso humano.
Muitos dos “corpos” de Bircken são, portanto, abertos, desmontados, expondo o seu interior. O que emerge não é um simples diálogo entre humanos e máquinas. Tal como em Crash, de Ballard, a máquina penetra, tanto formal como metaforicamente, no imaginário, erotizando feridas e impondo um novo modelo de corporeidade. O corpo torna-se uma nova superfície para inscrição, um roteiro traumático escrito na pele que redefine a subjetividade; o protagonista já não é o mesmo após o impacto. Os corpos de Bircken, particularmente as motas abertas, os chicotes de cabos e os tanques de combustível, revelam essa estrutura como uma incisão cirúrgica, onde a tecnologia funciona como uma segunda epiderme.
No filme de Ducournau, o corpo da protagonista passa por uma metamorfose violenta, na qual o metal deixa de ser uma armadura ou prótese e passa a ser um destino biológico, que transforma o corpo num local de hibridização radical. Da mesma forma, os corpos, ou melhor, as carapaças corporais construídas por Alexandra Bircken são entidades híbridas. É importante notar que Bircken se formou originalmente em moda, uma disciplina que se ocupa de vestuário e capas concebidas para conter e moldar o corpo humano. As suas figuras robóticas dissecadas, quase ciborgues, semelhantes aos corpos imperfeitos do Terminator, trazem à superfície uma tensão entre poder e vulnerabilidade. Tal como Titane, estas obrigam-nos a refletir sobre as figuras contemporâneas do Übermensch que nos rodeiam, reproduzidas e circuladas incessantemente.
Em SomaSemaSoma, o corpo transforma-se num espaço de negociação contínua: exposto, vulnerável e que pode ser infinitamente reescrito. Bircken não celebra a hibridez; disseca-a, expondo a tensão constante entre controlo e submissão. Tal como no romance de Ballard e no filme de Ducournau, a tecnologia e os motores não são forças externas, mas elementos já incorporados em nós, amplificando as nossas fraquezas e as nossas fantasias de poder, sem nos salvar nem destruir. Ao fazê-lo, Bircken expõe o Übermensch contemporâneo como uma construção instável, montada a partir de próteses precárias, muitas vezes ocultas sob ilusões de omnipotência.
A exposição, patente na Culturgest, pode ser visitada até dia 1 de fevereiro.