Entre as múltiplas formas de pensar o fantasma - da filosofia à psicanálise freudiana - é talvez o universo shakespeariano que melhor cristaliza a sua condição paradoxal. Longe de constituir apenas um elemento sobrenatural, o “fantasma” é, neste contexto, essencialmente uma aparição espectral que regressa para perturbar o presente, insistindo em ocupar um lugar que escapa à estabilidade e obrigando as personagens a confrontarem-se com aquilo que permanece irresolvido. Talvez por isso o fantasma permaneça como uma figura particularmente fértil para pensar a contemporaneidade e tudo aquilo que, apesar de aparentemente extinto, continua a exercer influência sobre o presente.
Creio ser experiência comum a muitos leirienses ter, a dado momento da vida, sentido um calafrio ao olhar o antigo chalet mandado erguer por Roberto Chartres de Azevedo, em 1894. De arquitetura romântica, janelas permanentemente fechadas e paredes cor-de-rosa que denunciavam a passagem do tempo, a Villa Portela manteve-se ali, no topo da colina - de frente para o edifício que hoje acolhe a Câmara Municipal de Leiria - sem que do seu interior se manifestasse vida, convocando um imaginário próximo daquele das casas assombradas que habitam a literatura e o cinema.
Decorria o ano de 2016 quando foi anunciado o projeto de revitalização e conversão do edifício num Centro de Artes, inaugurado apenas em 2025.
É precisamente neste contexto que a escolha de Corpo Fantasma para título da segunda exposição do Centro de Artes Villa Portela, reunindo obras da Coleção Contemporânea do Estado, se torna particularmente significativa. Independentemente das intenções da curadora Marta Espiridão, torna-se difícil dissociar esse título da história do próprio edifício, também ele marcado por uma condição que se aproxima do campo fantasmático.
Essa condição, contudo, não se esgota na memória do edifício, prolongando-se na própria experiência da visita. Também o interior parece conservar a memória do que outrora foi quando, ao subir a escadaria em caracol, a madeira original dos degraus do chalet se faz ouvir chiar sob os pés.
Salienta-se, desde logo, a eficácia curatorial no modo como a narrativa expositiva dialoga com essa memória latente. Aqui, o fantasma estende-se ao corpo do espectador, também ele corpo deambulatório. Livre de vaguear pelo espaço, sem que lhe seja imposto um percurso, quem visita a exposição torna-se igualmente uma presença errante, convocada a construir um caminho próprio entre obras, salas e associações.
É precisamente neste movimento que o título começa a revelar a sua verdadeira amplitude. Num primeiro momento, Corpo Fantasma parece anunciar o encontro com representações da figura convencional do fantasma - esse ser liminar frequentemente coberto por um lençol branco. De facto, Fato GICAP de Túlia Saldanha (1976), suspensa numa das primeiras salas, parece apontar para isso mesmo: trata-se de uma entidade anónima, sem rosto, pendente do teto, cujo hipotético corpo apenas se insinua sob trapos coloridos. A própria peça constitui, no entanto, o vestígio de uma performance e, deste modo, de uma ação passada. Fato GICAP parece, portanto, responder, em primeira instância, à expectativa criada pelo título apenas para, logo de seguida, a desmontar e complexificar através das suas múltiplas camadas de significação e história. A partir desse momento, a exposição afasta-se da representação literal do fantasma para desenvolver uma noção mais ampla de espectralidade, entendendo-a menos como manifestação sobrenatural do que como uma condição da experiência humana. Essa deslocação permite compreender o percurso expositivo não como uma sucessão de representações do fantasma, mas como uma investigação progressiva das múltiplas aceções do conceito.
É justamente nesta chave que se podem ler Re Récamier (2020), de Rosa Carvalho, Untitled (from the Silueta Series) (1975), de Ana Mendieta, ou Sombras projectadas de Marie e José Manuel Simões (1964), de Lourdes Castro. Em todas elas, a condição espectral materializa-se - ou desmaterializa-se, no caso - através do vestígio: reentrâncias, silhuetas e contornos de sombras funcionam como marcas de corpos desaparecidos cuja presença continua, contudo, a inscrever-se na memória, fazendo da ausência a condição que convoca o corpo.
Se nas obras anteriores o corpo persiste através dos seus vestígios exteriores, em Seiva (2023) de André Romão, essa persistência desloca-se para o interior da própria experiência corporal. Prolonga-se, assim, a reflexão sobre a ausência, evocando a ideia do "membro fantasma" enquanto aquilo que o corpo continua a sentir, lembrar ou projetar mesmo perante a inexistência do objeto amputado.
É ainda a partir da ideia de um corpo que continua a existir para além da sua materialidade imediata que a exposição conduz naturalmente a uma reflexão sobre a construção do sujeito. A amputação pode, neste sentido, ser entendida como um gesto de adequação do "eu" a um conjunto maior, social e normativo, remetendo para os processos através dos quais o sujeito constrói, negocia ou transforma a própria identidade. É, pois, de salientar a escolha de obras como Soufflé (2007), de Sarah Lucas e Untitled (Facial Hair Transplant) (1972), de Ana Mendieta, convocadas pela curadora como exemplos dos "espectros da identidade e da assombração das categorias de género" (1). Mais do que ilustrarem esta problemática, ambas evidenciam a identidade como uma construção instável, permanentemente sujeita a deslocações e reconfigurações.
Finalmente, revela-se particularmente feliz a abordagem curatorial na montagem de Autorretratos, Polaroids (1970), de Maria José Palla, onde a própria disposição das obras parece prolongar materialmente tanto as questões levantadas pela exposição como o gesto da artista. Trata-se de um conjunto de polaroids nas quais Palla surge sucessivas vezes autor representada num aparente estado delirante: por momentos plenamente presente, mas como que ausente de si própria; noutros, no limiar entre a presença física e o desaparecimento, até ao ponto em que o próprio corpo se torna invisível, cedendo lugar às arquiteturas que habita. É precisamente esta tensão entre presença e ausência que a montagem prolonga no espaço expositivo. Algumas polaroids surgem integralmente reveladas; outras permanecem parcialmente ocultas no respetivo invólucro de papel; outras ainda estão totalmente ausentes, sendo apenas evocadas pelo envelope que lhes corresponde. Não deixa de ser significativo que este jogo entre mostrar e esconder aconteça através da própria polaroid, cuja técnica assenta num processo gradual de revelação da imagem. A montagem faz, assim, eco dessa condição material, transformando a revelação num gesto simultaneamente técnico e curatorial. A espectralidade deixa, portanto, de ser apenas uma questão evocada pelas obras para se tornar uma condição da própria imagem.
Talvez seja precisamente nessa capacidade de fazer persistir, através da montagem, as questões colocadas pelas próprias obras que resida a maior força de Corpo. As escolhas curatoriais não subordinam as obras a um conceito; criam antes as condições para que estas estabeleçam entre si relações que ampliam o seu campo de significação sem comprometer a singularidade de cada uma.
Longe de convocar apenas o imaginário sobrenatural, o fantasma revela-se aqui, à semelhança do espectro shakespeariano, menos como uma figura do que como um campo de relações em permanente negociação que o espectador é convidado a navegar.
Corpo Fantasma está patente até 30 de agosto, no Centro de Artes Villa Portela, em Leiria
1 . Espiridião, Marta. Texto Curatorial "Corpo Fantasma", 2026.