article
Autocolante. Iconografia da Liberdade, no MUDE
DATA
06 Ago 2026
PARTILHAR
AUTOR
Carla Carbone
“Estes pequenos dispositivos, colaportantes, possibilitam um investimento de baixo custo, o que facilita, também, a origem do múltiplo, e do reprodutível. Através apenas de uma impressora caseira, é possível o resultado de um alto impacto no meio em que é difundido, e uma repetição da comunicação, que se esgueira e se difunde rapidamente, à revelia, e em paralelo, com as leis e as morais vigentes.”
Na infância, talvez os autocolantes a que tivemos primeiro acesso tenham sido os cromos de futebol, a esclarecer os protagonistas dos campeonatos, as curiosidades sobre a biologia, ou até os bizarros fenómenos do Guinness. Estes pequenos formatos foram, pouco a pouco, fazendo parte das nossas vidas e crescendo connosco. As listas para a associação de estudantes, com a letra A ou B, resultavam em autocolantes de diferentes tamanhos e configurações, muitas vezes deslavados, mas faziam as delícias dos estudantes, que os colavam em todo o lado. Os melhores testemunhos destes elementos aderentes vieram das exteriorizações políticas, dos vários sindicatos e diferentes facções ideológicas. Sem esquecer as causas mundiais, com temas como o ambiente, ou a séria causa contra a guerra atómica.
Existem, neste pequeno formato, propriedades que os mantêm activos na prática artística, gráfica, social e ideológica, após tantos anos.
Como excelente instrumento de comunicação visual, os leves autocolantes apresentam rápida disseminação, por se apresentarem em pequeno formato, e poderem ser transportados e colocados em qualquer lugar. A alta portabilidade, a partilha, e a pequena dimensão permitem que os mesmos possam ser guardados secretamente nos bolsos, ou levados na mão. Colados em pequenas superfícies, e de forma até silenciosa, dada a facilidade com que se fixam aos suportes escolhidos pelos seus portadores (sejam à lapela, nas mochilas, nos portáteis, nos veículos, nas bicicletas, nos corrimãos, nas paredes dos espaços urbanos, postes, sinais, janelas, telemóveis, etc). O tamanho diminuto, a que deu origem à designação de microativismo, torna-os objectos de proximidade, intimidade, personalização, posse e identidade, por um lado; por outro, são receptáculos de palavras de ordem (activismo), que se difundem e se fixam em lugares improváveis, ou à vista de todos, ou ainda efémeros, por poderem ser retirados e apropriados por outros, destruídos e rasgados.
Mas estes condutores de informação, mesmo que reduzidos, também são usados para os fins mais prosaicos e corriqueiros. Servem de instrumentos de sinalização, identidade de marcas, publicidade.
Mas onde estas demonstrações se difundiram mais rapidamente foi precisamente nos atos políticos, em pleno período de eleições, ou no seio das causas de pequenas comunidades. Os autocolantes têm a particularidade de reforçarem a pertença a um grupo, onde várias pessoas partilham os mesmos princípios ideológicos.
Estes pequenos dispositivos, colaportantes, possibilitam um investimento de baixo custo, o que facilita, também, a origem do múltiplo, e do reprodutível. Através apenas de uma impressora caseira, é possível o resultado de um alto impacto no meio em que é difundido, e uma repetição da comunicação, que se esgueira e se difunde rapidamente, à revelia, e em paralelo, com as leis e as morais vigentes.
A exposição Autocolante, iconografia da liberdade, patente no MUDE, compreendida por um arco temporal de 50 anos, revela precisamente, a diversidade de aplicações possíveis desta singela ferramenta. Menos aparatosa que o cartaz ou o stencil, e a exigir menos esforço físico para a sua fixação. Na exposição, organizada pelo MUDE e pela Ephemera (detentora do arquivo), observa-se um conjunto numeroso de autocolantes, a maioria sem a discriminação do autor, embora de exigente execução (técnicas de impressão, cor, etc.), que espelham diferentes facções políticas e sociais, e para diversos fins, como propaganda política, eleições, sensibilização de causas sociais, entre outros.
O conjunto de autocolantes, patente no MUDE, constitui uma selecção que compreende o período histórico e político da repressão antes da Revolução dos Cravos, o período imediatamente a seguir ao 25 de Abril (com a larga produção de autocolantes sobre a revolução e o PREC) e todas as manifestações sociais e políticas até ao momento. As causas emergentes, como as ambientais e de direitos humanos, também são contempladas neste grupo, e essas são, como as palavras de ordem (slogans políticos), temporalmente, as mais transversais, garantindo, ainda, a sua pertinência na actualidade.
A curadoria desta extensa exposição é da autoria do historiador José Pacheco Pereira, biógrafo da vida de Álvaro Cunhal, fundador do arquivo Ephemera e uma figura pública envolvida com a vida política portuguesa desde 1960.
Pacheco Pereira fala do instrumento de propaganda, precursor do autocolante, a vinheta filatélica. Segundo o curador, a vinheta e o autocolante rudimentar teriam sido usados como propaganda clandestina na Segunda Guerra Mundial1, e o uso do autocolante em Portugal, posteriormente, teria sido disseminado e vulgarizado com o surgimento de técnicas de impressão mais baratas2.
O curador esclarece ainda os diferentes modos de uso do autocolante de propaganda política: “como brinde nas campanhas eleitorais, acompanhando outras ofertas que realizam um trade of simbólico com o eleitor em potência; como forma de identidade política, usado na roupa, às vezes no próprio corpo, ou em objectos de uso corrente, como pastas; para colocar em locais públicos, funcionando como um pequeno cartaz, mais fácil de colocar em postes de iluminação, caixas de correio, portas e paredes de casa, etc.; como forma de financiamento através da sua venda e, associado com esta, como objecto de colecção”3.
Os núcleos da exposição estão assim organizados: O autocolante e a sua família, Autocolantes antes do 25 de Abril, A explosão do 25 de Abril, 25 de Abril ao longo dos 50 anos (1974-2026), Primeiras eleições (1975-1976), Partidos, Rostos, Eleições Presidenciais, Nacionais e Legislativas, Eleições Locais, Palavras de ordem, Sátiras, Imprensa, Olhando para os autocolantes do resto do mundo, Sindicalismo, Causas I, Causas II.
Podem observar-se, por fim, grupos temáticos, como os impressionantes autocolantes de rostos de figuras como Marx, Lenine, Guevara, Mao. Ou ainda Vasco Gonçalves, Otelo Saraiva de Carvalho, e líderes como Mário Soares, Salgueiro Zenha, Freitas do Amaral, Álvaro Cunhal. Podem destacar-se, igualmente, slogans emblemáticos, e familiares, ainda hoje utilizados, como “O Povo Unido Jamais Será Vencido”, ou frases que permanecem na nossa memória, como “Soares é Fixe”, ou ainda palavras de ordem como: “Não há plano B”.
Apesar da intervenção anónima de ilustradores e designers na maioria dos autocolantes expostos na presente exposição, no grupo temático da Sátira são visíveis a autoria e a assinatura de ilustradores portugueses como Pedro Carvalho, Luís Lázaro, Luís Miguel Castro, Luís Pinto, Manuel Vieira, Mário Caeiro, Vasco Colombo, entre outros.
A exposição é marcada pelo acompanhamento de cartazes, cuidadosamente dispostos segundo a cronologia dos autocolantes, bem como sinais de trânsito, sinalética completamente coberta, de modo espontâneo, com autocolantes de diversas proveniências e funções comunicacionais.
Autocolante. Iconografia da Liberdade pode ser visitada no MUDE – Museu do Design e da Moda até 30 de Agosto.
1 PEREIRA, J. P. (2026) Autocolantes e Propaganda Política. Ficha técnica da exposição Autocolante, Iconografia da Liberdade, MUDE, Ephemera, RTP, pág. 6 a 9.
2 Ibidem
3 Ibidem
BIOGRAFIA
Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador.
PUBLICIDADE
Anterior
article
Rosa Barba. Desenhando Vocabulários no CAM - Gulbenkian
03 Ago 2026
Rosa Barba. Desenhando Vocabulários no CAM - Gulbenkian
Por Mariana Varela