Em 1979, a revista October, publicava um dos maiores artigos de sempre: Grids, de Rosalind Krauss1.
A historiadora e crítica de arte, no referente artigo, tornava claro o que permanecia oculto nos domínios da arte, mas que lhe era estruturante e configurador de uma estética moderna, a incursão da grelha (grid).
Krauss começava, primeiro, por situar o emprego da estrutura reticulada, com maior relevo no fenómeno artístico a partir do cubismo pictórico, ainda antes da Segunda Guerra Mundial. Mas, mais importante, compreendia a afirmação de que existia, nos artistas, a ambição de almejar o silêncio, acompanhado por uma crescente “hostilidade face à literatura, à narrativa, e ao discurso”2.
O discurso era, progressivamente, substituído pela visualidade, pelo domínio formalista da arte3. E nada melhor que a grelha para desmantelar esse discurso4.
Pouco a pouco, a grelha, ou rede, apesar de a historiadora reconhecer a sua potencialidade geradora, foi tomando posse do processo crítico e mais generalizado da arte, resistindo ao seu desenvolvimento5.
Krauss definiu-a, na sua funcionalidade, por um lado, como sendo espacial, “aplanada, geometrizada, ordenada”; por outro, temporal, ao fixar-se no presente, negar o passado, a sua sequencialidade e a relação objectivada com a realidade (perspetiva).
A própria estrutura, para a autora, não estava ausente das obras do passado, do século XIX, ou mesmo, ainda que remotamente, do renascimento, e fundamentava a sua teoria com base na ótica e na fisiologia mecânica do olho6.
Muito interessante é a análise que Rosalind Krauss faz dos tratados e estudos sobre ótica e fisiologia do olho no século XIX. Neles, Krauss observou que (esses tratados) eram ilustrados com grelhas, “porque eram a forma de demonstrar a interacção de partículas específicas, ao longo de um campo contínuo, e que esse campo era analisado segundo uma estrutura modular e repetitiva da grelha”.
Pensamos na luz e, efectivamente, em partículas, num dado campo visual, e é tentador, e quase impossível, não aflorar as pinturas retiformes e expansivas de Vieira da Silva, presentes, neste momento, no Segundo Ciclo Expositivo da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, cumprindo, as mesmas obras, um papel (mas não só) de ligação e aglutinação, aos diferentes núcleos de exposições, agora patentes na fundação.
A obra de Vieira da Silva, selecionada para esta exposição, presente no núcleo Ossaturas Espaciais, revela, inequivocamente, o princípio da grelha ou da rede, (exemplos: Les dégres, de 1964, La Basilique, de 1967, Au fur et à mesure, de 1965, Voyage d’hîver, de 1961, New Amsterdam I e II de 1970 ou Esplanade, de 1967) através de linhas que se cruzam, num espaço geralmente instável, interceptado por planos e cores cintilantes, ambivalente quanto à representação da profundidade e da “perspetiva unificadora”, e num jogo labiríntico de cheios e vazios.
Reconhecemos, na pintura da artista, o recurso à memória arredia do espaço (como no caso do próprio atelier, transformado num lugar imaginário, não físico) ou ponto de partida para as suas pinturas, mesmo que a artista tenha permanecido ausente ou impossibilitada de trabalhar no seu estúdio em Paris.
Atelier, Lisbonne, de 1935, e Atelier, de 1940, são exemplos de obras evocativas de sombras e fantasmagorias.
Na primeira, é revelado um atelier ocupado por duas redes, ou biombos (o efeito reticulado), e ainda elementos lineares curvos que Sara & André souberam, de modo exemplar, apropriar e traduzir para o espaço da galeria do Museu, através de uma instalação, composta por elementos tubulares e retiformes, que cobrem o início da sala do Ciclo Expositivo, patente no tempo presente.
A pintura de Vieira da Silva pontua e liga os diferentes núcleos temáticos da exposição. A sua estrutura quadrilátera, de modo invisível, estrutura e envolve o corpo de obras presentes no Museu, dos diferentes artistas.
Noronha Feio integra telas de seda, suspensas em tubos acrílicos, impressas com imagens fotográficas, ampliações de fragmentos arbóreos, caules de plantas, ou outros referentes (fotografias da cidade de Budapeste, macros de padrões indefinidos, redes e vedações) e, por serem ligeiramente transparentes, estas telas surgem justapostas umas às outras, diluindo-se em torno das obras da pintora, e fixadas ao longo de uma parede da galeria. As superfícies dependuradas de Noronha Feio, ondulam, à passagem do visitante, o que confere ao conjunto uma certa volatilidade, contribuindo para a leveza, e intermitência do espaço da exposição, remetendo depois para a iridescência vibratória das obras de Vieira da Silva, e da série exposta, no núcleo “A vida das plantas, L’inclémence lointaine e outras obras” (revelador da atenção que a artista dava à pulsão, à vida, e à variabilidade das plantas).
Estas oposições, confrontações e descontextualizações em Noronha Feio, evidenciadas no núcleo “Arborescências”, são comuns na sua prática artística. Atravessam as diferentes áreas artísticas e os media, por meio de recolha/colecção de imagens e do cruzamento de realidades e sentidos diversos, evidenciando a arbitrariedade do acontecimento quotidiano, traduzido (e manipulado) para o campo artístico. Os motivos do artista surgem em diferentes pontos da exposição e demonstram tramas ou elementos abstractos vagos, abertos e imprecisos, de modo a deixar ao observador a possibilidade e liberdade de fazer as suas próprias escolhas, conexões e leituras das imagens.
As obras de Arpad Szenes, por exemplo, Le bosquet, de 1956, e La vallée, dão continuidade, no espaço expositivo do museu, ao tema da natureza.
Em várias salas do museu ergue-se uma exposição de João Paulo Feliciano, na qual podem observar-se, de modo claro, as ligações e articulações com a obra de Vieira da Silva. Sobretudo na fase inicial da vida artística de Feliciano, em que a obra da artista foi uma forte referência.
Ao longo da exposição do artista, podem observar-se pinturas que ostentam estruturas quadriláteras geometrizadas e reticuladas. Sempre num jogo de oposição de referentes (malhas, padrões, redes, espaços arquitectónicos, elementos naturais) e justaposição de cores contrastantes.
A dupla Mariana Caló e Francisco Queimadela oferece ao visitante uma instalação, Multiplicador de visões e preces, de 2026, compreendida por dípticos de seda pintada, pinturas a óleo sobre tela, projecções de desenhos em luz. As silhuetas, em cheios e vazios, recordam as sombras e os tecidos translúcidos de Lourdes Castro.
Até 13 de setembro, na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva.
1 Grids Author(s): Rosalind Krauss Source: October, Vol. 9 (Summer, 1979), pp. 50-64 Published by: The MIT Press
2 Ibidem
3 Ibidem
4 Ibidem
5 Ibidem
6 Ibidem