Quando contemplamos uma paisagem, raramente pensamos nas geometrias que a compõem. As formas acompanham-nos em todo o lado: na calçada lisboeta, composta por paralelepípedos; nas folhas, em ovais imperfeitas; nos centros circulares das flores daninhas. A natureza organiza-se através da forma, mas esta raramente se impõe ao nosso olhar. E quando a forma deixa de ser um meio e passa a ser o centro da obra? E quando é a cor que lhe dá corpo e núcleo?
É precisamente nesse território que se desenvolve a prática artística de Rodrigo Cass. A sua investigação explora estruturas, cortes e descontinuidades no plano pictórico, ultrapassando os limites da superfície bidimensional ao explorar a tridimensionalidade. Contudo, a geometria nunca surge como um exercício formal. A espiritualidade constitui uma dimensão essencial da sua investigação artística, e é através da cor, da matéria e da forma que a sua obra procura aproximar o visível do invisível.
Antes de consolidar o seu percurso nas artes visuais, Rodrigo Cass viveu durante vários anos na Ordem do Carmo, experiência que marcou profundamente a sua relação com a abstração. No seu trabalho, o abstrato não representa uma fuga da realidade, mas uma tentativa de abordar aquilo que escapa à representação direta: o mistério, o sagrado. A geometria funciona, assim, como uma linguagem simbólica capaz de estabelecer uma ponte entre o sensível e o transcendente.
Na exposição, um globo refletido em projeção mostra uma bíblia invertida: ora pousa sobre a mão, ora é apanhada do avesso, ora cai sem amparo, numa representação alegórica da compreensão, interpretação e transmissão do Cristianismo. Apesar das referências religiosas serem evidentes, é sobretudo através da organização geométrica do espaço e da intensidade cromática que Cass alcança um plano espiritual, convidando o observador a uma experiência que ultrapassa a narrativa religiosa.
Na obra A Floresta, o Pulmão e a Alma (2026), a representação da floresta rompe a superfície pictórica. No centro da composição, uma estrutura angular ergue-se do plano, adquirindo uma presença tridimensional que parece expandir-se organicamente. A pintura deixa de ser apenas imagem para se tornar corpo, instaurando uma tensão constante entre superfície e volume, entre matéria e espaço. A floresta deixa de representar apenas a natureza para se afirmar como um lugar de transformação e comunicação entre o mundo físico e o mundo sensível.
Em Cass, a linha atravessa o semicírculo; o triângulo rosa afirma-se como protagonista da composição, contrastando com o branco das paredes. Cada forma parece ocupar o espaço com uma precisão quase ritual, como se a própria geometria fosse uma linguagem de contemplação. O artista oferece-nos uma natureza reinventada, onde o observador deixa de ser apenas espectador para se tornar participante da experiência. O espiritual não se impõe; revela-se lentamente, através da contemplação.
Visitei a exposição pela segunda vez com o meu amigo Ángel Sevillano, pintor madrileno de visita a Lisboa. Perante a projeção Físico (2025), na qual um fósforo em combustão consome lentamente um tecido, os nossos olhares divergiram. Ángel procurava compreender o processo criativo, desmontando mentalmente cada decisão técnica que conduzira à instalação. O meu olhar permanecia naquilo que a obra produzia no presente: a experiência sensível, a imagem final, o tempo da contemplação. A mesma obra parecia existir em dois planos distintos — o da construção e o da perceção.
É frequente entrarmos numa exposição e permanecermos alheios à intenção do artista. Quando este fala sobre o seu trabalho, procura normalmente aproximar a sua prática do público, traduzindo em palavras aquilo que nasceu antes da linguagem. O curador, por sua vez, oferece uma interpretação que, apesar de procurar uma certa universalidade, continua inevitavelmente a ser produto da sua própria consciência. Entre ambos permanece a experiência do visitante, que dificilmente pode ser totalmente orientada.
Observar a obra de Rodrigo Cass é, por isso, um exercício que convida a suspender o discurso. A experiência acontece antes da linguagem, num plano pré-verbal. As formas dissolvem-se, as cores expandem-se e as imagens ganham volume. Em Narciso no Mijo (2026), o reflexo do artista numa poça de água é alisado por um ferro de engomar, num gesto quotidiano e simbólico que procura mascarar o imperfeito. Contudo, a matéria – o sujeito- resiste à tentativa de aniquilação, permanecendo, ainda assim, em contínua metamorfose.
Relembro Goethe. É precisamente nessa metamorfose que a obra de Cass se aproxima do pensamento do poeta alemão, para quem a natureza constitui um processo contínuo de transformação (Bildung), em que cada forma é apenas uma manifestação transitória de um mesmo princípio vital. Também em Cass, a geometria não se afirma como uma estrutura absoluta nem como um ideal de perfeição; revela-se antes como uma linguagem capaz de tornar visíveis as forças invisíveis que atravessam a matéria. As suas formas não encerram significados definitivos, nem proclamam perfeições. Permanecem abertas, como a própria natureza, num movimento contínuo entre o sensível e o espiritual, entre aquilo que se vê e aquilo que se pressente.
A exposição Geometria Sensível, de Rodrigo Cass, encontra-se patente na Brotéria, em Lisboa, até dia 29 de agosto.
Por Inês Folgôa Moreira