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Rosa Barba. Desenhando Vocabulários no CAM - Gulbenkian
DATA
03 Ago 2026
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AUTOR
Mariana Varela
“Através de um jogo de tempo e ocasião, a obra sugere a produção de um evento efêmero dentro de um conjunto instável e temporal de elementos. Uma imagem, um acontecimento, formados através de um conjunto de encontros, ritmos relacionais e processos."
Provavelmente uma das artistas mais emblemáticas do contexto europeu contemporâneo, Rosa Barba, artista visual italo-germana, está no CAM - Gulbenkian de 16 de maio a 28 de setembro. Com um trabalho original que mantém ressonâncias históricas com a Arte Cinética, Barba apresenta uma constelação de 22 obras de arte que ressoam entre si e constroem uma totalidade expositiva em um cenário de anarquização das formas cinematográficas.
A exposição enlaça o cinema e a escultura, trazendo no seu âmago questões que envolvem a memória e o cinema, a arquitetura e a montagem, a temporalidade e a linguagem. Assim, durante quatro meses, o edifício recentemente expandido e assinado pelo arquiteto japonês Kengo Kuma recebe uma exibição em que luz, imagem e dispositivos fílmicos são orquestrados em uma sinfonia de elementos combinatórios, ritmos matemáticos e esculturas cinéticas.
Soma-se a esta sinfonia de obras Myth and Mercury, filme de 22 minutos produzido em 35mm exclusivamente para a exposição no CAM. O filme parte dos escritos prisionais de Antonio Gramsci e transita entre temporalidades geológicas e históricas do Mediterrâneo, tateando conexões entre as formas energéticas e físicas dos neutrinos e da resistência; bem como entre o passado e o futuro da paisagem mediterrânea. O filme, de montagem experimental e não linear, ressoa com todo o trabalho de anarquização da experiência cinematográfica da artista italiana. Integra, ainda, os elementos mais importantes da sua pesquisa conceptual, como é o caso dos neutrinos e das partículas de luz, que constituem os grandes protagonistas na materialidade do seu cinema.
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A exposição de Barba se estrutura em um trânsito entre a anarquização da estrutura cinematográfica e a reflexão sobre o cinema como modo de trazer à presença aquilo que está ausente ou distante, aproximando-o da astronomia. Essa anarquização reorganiza a experiência do espectador, colocando-o diante das máquinas que operam as projeções de luz: esculturas que condensam um aspecto ao mesmo tempo formal e conceptual do seu trabalho.
A exposição apresenta encontros entre diferentes máquinas fílmicas, expostas e reconfiguradas de acordo com o espaço expositivo do CAM. A exposição é povoada de dispositivos de som e esculturas cinéticas, que constroem e desconstroem a estética cinematográfica em direção a uma explosão do vocabulário dos seus elementos. Nesse sentido, cada obra pode ser vista individualmente, ainda que a exibição se desenrole também enquanto totalidade.
Vejamos, por exemplo, o belo Spacelenght Thought (2012) – uma máquina de escrever modificada e programada por computador que grava um texto sobre uma tira de filme de 16mm ainda não exposto. À medida que o filme é alimentado em um projetor, ele exibe uma letra de cada vez contra a parede, seguindo o ritmo da película. As letras aparecem como partes fragmentadas de um texto inteiro que está no chão e pode ser percorrido pelo visitante. A escultura, que lhe concede suporte e condição, atravessa o texto e o projeta, letra a letra, na parede.
Exercício de fragmentação, mas também exercício de reconfiguração do infinito para o mínimo, Barba acaba por também reformular algumas questões candentes do contexto contemporâneo relacionadas à tecnologia e à linguagem em um contexto de automação e aceleração. Adicionando o elemento mais fundamental do cinema como campo de trabalho e como campo escultórico, o cinema aparece enquanto meio privilegiado para trazer o tempo e a temporalidade ao centro das obras, passando a operacionalizar o ritmo, o delay, a velocidade e a distância como aspectos fundamentais do trabalho. Mantém, entretanto, a centralidade do dispositivo como operação tradutora e criadora.
Um pouco mais à frente, encontramos Language Infinity Sphere (2018). A obra é uma esfera de aço impregnada de centenas de letras fundidas, produzindo o que poderia ser visto como o conjunto caótico e probabilístico que reside no esqueleto carnívoro da linguagem. É babélico, mas também remete para a ideia de Aleph presente no conto de Jorge Luis Borges: ponto mágico que contém todos os outros pontos do universo simultaneamente. Nessa obra, a linguagem aparece também enquanto probabilidade infinita da formação da palavra, conjunto ao mesmo tempo matemático e vivo das condições de possibilidade de trazer à vida aquilo que subsiste na nossa experiência.
Na intersecção da palavra como probabilidade e como código visual, Barba sugere também a poesia como um método de reorganização sensível da palavra fora da ordem lógica do significado e do esqueleto linear. A artista permite, com obras como Isolation of Information (Roller) (2015) ou A Shark Well Governed (2017), perceber a palavra não só como o cosmos de sentido que nos enlaça, mas também como código dotado de capacidade vibrátil, tátil, capaz de remodelar sensivelmente o material por meio da aparição e desaparição, por meio da aproximação e afastamento a outras palavras. O facto de estarem, sensivelmente, forjadas em aço, também concede à obra a sugestão de que as palavras, também elas, ficam impressas conosco, na carne dos eventos e dos acontecimentos.
Mas a probabilidade, o movimento e os elementos combinatórios aparecem também de forma mais organizada na exibição, podendo ser a obra In Play (Hopscotch) (2024) talvez a mais emblemática. A obra, que se move continuamente e, em um momento específico, forma uma imagem, remete para trabalhos históricos da arte cinética, nos conduzindo para além do cinema e da projeção e alcançando o que pode ser visto como a produção da realidade em si mesma.
Ainda que determinada por uma estrutura matemática que os organiza – ao contrário da vida, que pode ser menos determinada – a obra deixa em aberto a sugestão de que os elementos formadores da imagem, do evento e da própria realidade são formados através da mesma matéria: o tempo. E todos esses sentidos se enlaçam e se sugerem, mutuamente, na obra de arte.
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Mas para além de obras individualmente observáveis, a exibição é sinfónica precisamente pelas relações formadas entre elas: toda a exibição se desenrola ela mesma como uma performance, como um evento. Outros trabalhos esclarecem esse princípio, como é o caso de Solar Flux Recording (2025): duas peças comunicam uma com a outra, produzindo eventos diferentes a cada vez que se encontram. O automatismo implicado nos dispositivos também convoca a agência dessas máquinas enquanto corpos moventes e relacionais, em que o espectador participa em uma sinfonia pré-determinada. Nesse contexto, a projeção de luz, tempo e cor parece ser operada por máquinas que são também como autônomos beija-flores de aço - eles próprios parte fundamental daquilo que exibem, jogando luz e imagem na sala de exibição.
Nesse sentido, é evidente o tratamento cuidadoso de Barba para com as máquinas fílmicas que, ao passarem pelas suas mãos, se tornam esculturas. Seria clichê falar de beleza, mas os trabalhos são realmente dotados de tanto equilíbrio, sugestão e leveza, que também seria impossível não tocar nesse aspecto formal das suas obras.
Além disso, seja em trabalhos que usam sobretudo a celulose – como Thick Harmonies (2026), As Fixed In Flux (2025) ou Off Splintered Time (2021) – ou em trabalhos em que a própria máquina fílmica é decomposta - é importante notar o gesto não só anárquico de decomposição e recomposição das peças, mas também e sobretudo a reconfiguração do espectador na experiência do cinema. O sujeito aparece aqui não como um sujeito receptor e receptivo das imagens, mas inserido dentro dessa engenharia, operante no contexto que produz as imagens. Essa reconfiguração é produzida pelo gesto de revelar o dispositivo que forma a obra, evidenciando as formas materiais que produzem a imagem.
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Assim, afinal, no trabalho de Rosa Barba, cinema, astronomia e memória convergem não enquanto campos separados, mas como variações de uma mesma questão: como a presença emerge através da ausência, e como os aparatos de visão moldam aquilo que pode ser visto, sentido ou mesmo até pensado? De que forma podemos sofisticar e transformar as nossas formas de experienciar o tempo, a linguagem e a visão? Se o telescópio, o cinema, a fotografia e a projeção da imagem partilham, fundamentalmente, da capacidade de trazer à presença aquilo que está ausente, Barba não só desloca o sentido da imagem de representação para duração, como também nos revela e convoca para uma reconfiguração da experiência estética: resgata, por meio do seu tratamento escultórico da maquinaria fílmica – ao mesmo tempo matéria e metáfora – o espanto da montagem e da desmontagem das nossas formas de ver.
Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, está patente no CAM - Centro de Arte Moderna da Gulbenkian até 28 de setembro.
BIOGRAFIA
Mariana Varela (n. 1991) é poeta e socióloga. Publicou "Enigmas de Jaguar e Jasmim" (2019) e "Rotativa" (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária "Frente!" e edita atualmente a revista literária "Letra Lenta". Formada pela Universidade de São Paulo, com um mestrado em sociologia pela Universidade Nova de Lisboa, frequenta atualmente o doutoramento em filosofia na mesma instituição. Escreve artigos na Intersecção da Estética e da Filosofia.
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