Uma exposição em preto e branco: quiçá essa exemplificação cromática poderia definir fielmente Miss America de Francisco Tropa (Lisboa, 1974), o projeto site-specific para o Palazzo de' Toschi em Bolonha (Itália), aberto contemporaneamente à semana da Arte Fiera.
Dois grandes trabalhos – Miss America e Lantern with clock mechanism, ambos de 2025 – vivem sob um título enigmático, enquanto a luz revela o seu protagonismo na composição dessa paisagem do tempo, cujos antepassados estão tanto na história da arte quanto nas ruas da Itália e de Portugal.
Miss America, de fato, é um título muito carregado: uma charada sobre a palavra Miss (senhorita) que também pode ser interpretada como Missing (desaparecida). São duas as possibilidades de interpretação. Por um lado, o título remete para a ideia de um concurso de beleza, relembrando que a estética sempre está relacionada com a arte. Por outro, Miss(ing) America fala sobre o que está acontecendo hoje: da falta que sentimos de uma gloriosa ideia, até democrática, questionando o que nos provoca uma nostalgia do passado, explica-nos o artista, diante do desfasamento que existe entre esse título “moderno” e a alma “antiga” das obras.
Os dois trabalhos que compõem a exposição surgem opostos e, ao mesmo tempo, complementares: Lantern with clock mechanism vive no escuro total, enquanto Miss America habita a claridade pura.
«Deixei-me inspirar por esse espaço complicado, unindo uma reflexão sobre a temporalidade e abarcando a ideia de escultura e de paisagem», conta-nos Tropa, iluminando, dentro desse ciclo do tempo, também a lenda mais antiga da arte: a do nascimento da pintura pela sombra.
Em Miss America, o tempo é investigado na sua forma mais dinâmica; através de atos desacelerados, transformam-se os que seriam os “normais” afazeres dos gestos: acontece pela entrada na cena (duas vezes por dia) de alguns atores, cujos passos e mãos lentas convertem o hábito de esticar e retirar os lençóis em uma possibilidade de variação da paisagem, na qual se encontra também o rasto de uma simples ação doméstica, aliás, escultórica. «Eles sobem e descem aos cabos, tirando e armazenando os lenços brancos: é um movimento muito simples. Considero-a uma peça muito social, que poderia ser instalada em inúmeros espaços, criando um desenho muito bom, podendo mudá-lo ciclicamente», prossegue o artista.
Repete-se continuamente, ao invés, o movimento que guia a caixa do relógio da Lanterna - uma referência ao movimento da Terra - projetando uma grande sombra numa tela que poderia ser a de um cinema ou a parede de uma gruta.
«Ela volta à origem da criação das imagens, por isso eu a chamo de lanterna mágica: é realmente a base da fantasmagoria. O que me fascina é que a figura que observamos projetada não tem a identidade a que estamos acostumados: trata-se de uma imagem não mediada. Não é uma fotografia, não tem uma tela retroiluminada; remete à história da representação. E logo que nos acostumamos ao objeto real aqui presente - a caixa de relógio - ele desaparece da nossa atenção à medida que o nosso olhar é atraído por essa câmara escura muito elementar», explica-nos o artista, ressaltando a vontade de recuperar a possibilidade de ver imagens de uma forma, hoje em dia, completamente esquecida.
Miss America, na sua totalidade, revela-nos o que ainda é o milagre da percepção; uma sombra que se transforma numa fresta do tempo, ao longo de uma época cheia de imagens sem corpo - isto é: uma mística contemplação do breu e do brilhante.
A completar a instalação, uma série de pequenos letreiros pendurados aos varais, remetendo às antigas inscrições, avisos de lojas e bares, cujos originais foram colecionados nas feiras da ladra pelo próprio artista: “Especialidade da casa”, “Cerveja em copo”, “Tabaco em dinheiro só ao balcão”. Por aqui, entra-se no tempo pela semântica, quase remetendo ao Surrealismo das inscrições de Magritte, deixando o ambiente “purificado” da arte conceptual voltar às vielas de Veneza, de Alfama ou mesmo de Bolonha, num tempo preso na ampulheta da memória.
Contudo, como escreve o curador Simone Menegoi, a prática de Francisco Tropa é composta por hipóteses e inúmeros planos de interpretação. Miss America torna-se, por isso, um convite bem além de uma singela teoria: mais uma vez é a arte que nos desafia a olhar por outros lados para reencontrar o fascínio pelo mundo.