Entre o lugar e a paisagem, o ser humano inscreve a sua travessia.
Rios, oceanos, montanhas escarpadas, muros, arames farpados, imbricações entre matérias naturais e construções divisivas, regimes escópicos que se expandem entre os tempos.
Em Isabelle Ferreira, a viagem nasce, não no sentido da deambulação e da errância, mas de um espaço que se aprofunda para além das cordilheiras, e que torna o horizonte tangível. O Salto remonta aos Pirinéus, à memória do pai que nos tempos da ditadura salazarista atravessou fronteiras “sem documentos, sem permissão (…) Primeiro clandestino, depois regularizado, mas sempre um pouco estrangeiro. Sem direito a voto, sem voz.”1
Diz-nos Frédéric Gross2 que a liberdade de caminhar reside em não ser ninguém, pois o corpo que caminha não tem história, é apenas um remoinho no fluxo da vida imemorial. O mergulho na natureza remete-nos para esse sentido material que nos transcende incomensuravelmente. A superfície rochosa define-se por uma escala geológica, ciclos que se transformam ao longo de milhões de anos. As condições climatéricas definem a velocidade do percurso, o risco, as pausas, os tempos. Elementos em diálogo com o corpo. Contudo, ao transformarmos a natureza em linguagem, o sentido que prevalece é o da experiência de vida-limite determinada a atingir a liberdade. O corpo, no extremo da exaustão, não relata a viagem. Nomear é uma medida intransponível perante a experiência no território.
As montanhas surgem fragmentadas, resquícios que emergem a partir da memória, de uma memória da memória, de um corpo-pai que se abriga num outro corpo de gelo e rocha. Os fragmentos brancos surgem, à primeira vista, como pequenos mantos de neve. Contudo, ao aprofundarmos o olhar, percebemos que o branco dá lugar à falha, uma lacuna que se adensa na paisagem. Ao longo da exposição, é esta presença-ausência que prevalece, os rostos anónimos, fragmentos de imagens. Filhos que partiram do seu país e que vivem agora do outro lado, na invisibilidade além-fronteira. A metade da imagem que regressa é um espectro, elemento de prova de vida.
Depois de alcançado o destino, o limite inscreve-se na comunicação, na dimensão afetiva de uma outra língua que este filho, agora pai, aprende com a sua filha franco-portuguesa. Diz-nos Isabelle, “Sou esse encontro entre a tua coragem e a minha liberdade. Entre a tua terra e a minha língua. Entre a tua abnegação de ontem e os meus horizontes de hoje”3.
As histórias individuais, as dificuldades que reconstroem a memória do “pai / mãe ou avô / avó”4 são recontadas pelos filhos, netos, que dão um corpo sensível ao indizível.
Na imensidão da travessia, os elementos perscrutam-se subtilmente. Em exposição, o jogo das escalas invade-nos o olhar. Perante as montanhas-colossos, delineiam-se vestígios que humanizam, resquícios que evidenciam a usura do corpo, os bastões de caminhada cobertos com agrafos que ferem o material e prenunciam a dor, as árvores centenárias fragmentadas, sem raiz e sem possibilidade de enraizamento, paisagens compostas por folhas rasgadas, onde o azul e o vazio imperam.
Mar, atmosfera, céu, montanha, pai e filha, corpo(s) nascente(s) e telúrico(s), notre feu que dissolve a neve e faz emergir, entre as brumas, o sentido da liberdade.
Com curadoria de Joana P. R. Neves, a exposição está patente no MAAT até dia 2 de março de 2026.
Referências:
(1), (3), (4). Isabelle Ferreira, Carta ao Meu Pai, in Isabelle Ferreira, Notre Feu, Fundação Edp, 2025.
(2). Frédéric Gross, A Philosophy of Walking, Verso ed., London (2023, p. 29).