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Notre Feu, de Isabelle Ferreira
DATA
11 Fev 2026
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AUTOR
Margarida Alves
“Em Isabelle Ferreira, a viagem nasce, não no sentido da deambulação e da errância, mas de um espaço que se aprofunda para além das cordilheiras, e que torna o horizonte tangível."
Entre o lugar e a paisagem, o ser humano inscreve a sua travessia.
Rios, oceanos, montanhas escarpadas, muros, arames farpados, imbricações entre matérias naturais e construções divisivas, regimes escópicos que se expandem entre os tempos.
Em Isabelle Ferreira, a viagem nasce, não no sentido da deambulação e da errância, mas de um espaço que se aprofunda para além das cordilheiras, e que torna o horizonte tangível. O Salto remonta aos Pirinéus, à memória do pai que nos tempos da ditadura salazarista atravessou fronteiras “sem documentos, sem permissão (…) Primeiro clandestino, depois regularizado, mas sempre um pouco estrangeiro. Sem direito a voto, sem voz.”1
Diz-nos Frédéric Gross2 que a liberdade de caminhar reside em não ser ninguém, pois o corpo que caminha não tem história, é apenas um remoinho no fluxo da vida imemorial. O mergulho na natureza remete-nos para esse sentido material que nos transcende incomensuravelmente. A superfície rochosa define-se por uma escala geológica, ciclos que se transformam ao longo de milhões de anos. As condições climatéricas definem a velocidade do percurso, o risco, as pausas, os tempos. Elementos em diálogo com o corpo. Contudo, ao transformarmos a natureza em linguagem, o sentido que prevalece é o da experiência de vida-limite determinada a atingir a liberdade. O corpo, no extremo da exaustão, não relata a viagem. Nomear é uma medida intransponível perante a experiência no território.
As montanhas surgem fragmentadas, resquícios que emergem a partir da memória, de uma memória da memória, de um corpo-pai que se abriga num outro corpo de gelo e rocha. Os fragmentos brancos surgem, à primeira vista, como pequenos mantos de neve. Contudo, ao aprofundarmos o olhar, percebemos que o branco dá lugar à falha, uma lacuna que se adensa na paisagem. Ao longo da exposição, é esta presença-ausência que prevalece, os rostos anónimos, fragmentos de imagens. Filhos que partiram do seu país e que vivem agora do outro lado, na invisibilidade além-fronteira. A metade da imagem que regressa é um espectro, elemento de prova de vida.
Depois de alcançado o destino, o limite inscreve-se na comunicação, na dimensão afetiva de uma outra língua que este filho, agora pai, aprende com a sua filha franco-portuguesa. Diz-nos Isabelle, “Sou esse encontro entre a tua coragem e a minha liberdade. Entre a tua terra e a minha língua. Entre a tua abnegação de ontem e os meus horizontes de hoje”3.
As histórias individuais, as dificuldades que reconstroem a memória do “pai / mãe ou avô / avó”4 são recontadas pelos filhos, netos, que dão um corpo sensível ao indizível.
Na imensidão da travessia, os elementos perscrutam-se subtilmente. Em exposição, o jogo das escalas invade-nos o olhar. Perante as montanhas-colossos, delineiam-se vestígios que humanizam, resquícios que evidenciam a usura do corpo, os bastões de caminhada cobertos com agrafos que ferem o material e prenunciam a dor, as árvores centenárias fragmentadas, sem raiz e sem possibilidade de enraizamento, paisagens compostas por folhas rasgadas, onde o azul e o vazio imperam.
Mar, atmosfera, céu, montanha, pai e filha, corpo(s) nascente(s) e telúrico(s), notre feu que dissolve a neve e faz emergir, entre as brumas, o sentido da liberdade.
Com curadoria de Joana P. R. Neves, a exposição está patente no MAAT até dia 2 de março de 2026.

Referências:
(1), (3), (4). Isabelle Ferreira, Carta ao Meu Pai, in Isabelle Ferreira, Notre Feu, Fundação Edp, 2025.
(2). Frédéric Gross, A Philosophy of Walking, Verso ed., London (2023, p. 29).
BIOGRAFIA
Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.
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